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Imagine um cargueiro de madeira saindo de Alexandria com trigo para Roma. O casco é comprido, o porão carrega toneladas de grão, a vela mestra enche com o vento do noroeste. Lá atrás, na popa, um homem segura uma barra de madeira. Essa barra move o leme. Nos navios do Mediterrâneo do século I, o leme era um remo largo preso de lado na popa, muitas vezes um de cada lado. O piloto girava a pá dentro da água com uma cana de madeira encaixada no alto. Ponha as duas medidas juntas. De um lado, o casco inteiro, com mastro, carga, tripulação e passageiros. Do outro, uma pá de madeira mergulhada atrás, fora da vista de quem está no convés. Se o navio fosse uma casa, o leme seria a porta dos fundos. O navio de Atos 27 dá a escala real. Lucas conta, no versículo 37, que iam a bordo 276 pessoas, num cargueiro de Alexandria carregado de trigo. Um barco desse porte obedecia a uma pá de madeira manejada por um piloto só. A palavra grega de Tiago 3.4 é pēdálion (leme), da mesma família de pēdón, a pá do remo. Tiago ainda reforça com elachístou (pequeníssimo), a forma mais forte do adjetivo: o leme mais miúdo que o leitor conseguir imaginar. O versículo também diz quem manda. O leme vira o navio «para onde quer a vontade daquele que as governa». O grego usa euthýnōn (quem dirige em linha reta), o piloto. O leme não escolhe o rumo: obedece à mão que segura a cana. E os ventos? Tiago escreve que as naus são «levadas de impetuosos ventos». O vento dá a força, e o leme dá a direção. A mesma rajada que leva o barco ao porto o joga contra a pedra, conforme o ângulo de uma pá. A pergunta de como uma peça tão pequena move algo tão grande já intrigava os gregos. Os Problemas Mecânicos, obra atribuída à escola de Aristóteles no século IV antes de Cristo, dedicam um problema inteiro ao leme e respondem pela lógica da alavanca. O texto pergunta por que o leme, sendo pequeno e posto na ponta do navio, tem tanta força que um cabo curto e a força de um homem só movem a grande massa do barco. A resposta: a ponta do casco é onde menos força produz mais giro. Só então, no versículo 5, Tiago vira a imagem para dentro. A língua é um membro pequeno e se gaba de grandes feitos. Quem já viu o leme medido contra o casco entende a proporção sem precisar de mais explicação. A boca funciona como a popa do corpo. Pequena, escondida atrás dos dentes, e é por ela que passam a promessa, a mentira, o pedido de perdão e a ofensa que muda o rumo de uma família inteira.
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