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Salmo 84:6
"Atravessando o vale de Baca, fazem dele um manancial."
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Peregrinos atravessando o vale seco de Baca
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"A gota fura a pedra, não pela força, mas por cair sempre." Ovídio escreveu a frase nas Epístolas do Ponto, por volta do ano 13, e ela descreve com precisão o que o hebraico do Salmo 84 faz com um trecho seco de estrada: a repetição da travessia abre no chão aquilo que nenhuma força abriria de uma tacada. O salmo pertence ao grupo atribuído aos filhos de Corá e tem forma de canto de estrada. Três vezes por ano, nas festas de peregrinação, famílias inteiras subiam a Jerusalém a pé, carregando provisão, criança e animal, por caminhos que atravessavam planaltos rachados e leitos de rio secos boa parte do ano. A abertura do salmo tem inveja no meio. O peregrino olha o pardal que fez ninho junto ao altar e admite em voz alta que a ave mora onde ele só consegue chegar depois de dias de caminhada. A saudade tem endereço físico: pátios, altar, portão da cidade. Do meio do canto sai um verso que raramente é lido pelo que ele diz de fato. O texto fala de gente que passa por um vale chamado Baca e faz dele uma fonte, com a chuva cobrindo o mesmo trecho de bênçãos logo depois. O nome do vale carrega duas leituras que o hebraico não escolhe entre si. Uma delas puxa a raiz do verbo chorar. A outra puxa o nome de um arbusto de região árida, uma planta de bálsamo que solta resina em gotas apenas quando alguém abre um corte no tronco. As duas leituras convivem no mesmo par de consoantes, e o salmo trabalha com as duas ao mesmo tempo. O detalhe decisivo está no verbo, e ele muda a teologia inteira do verso. O sujeito da transformação não é o céu, não é o vale e não é o fim da estrada. São os pés que passam. Qual é a palavra hebraica escolhida para essa água, por que ela não é qualquer sinônimo de poço e o que a gramática do verso faz com a ideia de travessia, é o que vem agora. Continue lendo ↓
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I A Palavra
O nome que junta choro e resina
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O hebraico do verso é curto: overei be emeq haBaca maayan yeshituhu, gam berakhot yateh moreh. Cada peça carrega decisão de vocabulário. Baca aparece grafado com as consoantes que também formam bakhah, o verbo comum de chorar em toda a Bíblia hebraica, presente do choro de Esaú ao choro de Davi na fuga. Um leitor antigo ouvia a raiz do pranto assim que a palavra saía da boca, sem precisar de nota de rodapé. A mesma sequência de consoantes nomeia uma planta. Em 2 Samuel 5:23 o exército de Davi recebe ordem de esperar o som que passa pelas copas dos becaim, um arvoredo do sul da Palestina. A tradição judaica identifica a espécie com um arbusto de bálsamo de região seca, e o traço botânico que interessa ao salmo é o modo como ele produz: a resina não escorre por conta própria, ela aparece em gotas depois de o tronco receber uma incisão. O vale, então, chega ao leitor com dupla assinatura. Ele é o vale do choro e é o vale das árvores que gotejam quando cortadas, e o hebraico deixa a ambiguidade de pé porque as duas imagens dizem a mesma verdade sobre o trecho difícil da estrada. A palavra escolhida para a água tem peso próprio. O texto usa maayan, fonte que brota do solo, água que nasce e continua nascendo. O hebraico tinha alternativas à mão e não as usou: beer é poço cavado, bor é cisterna que apenas guarda a chuva que caiu, mayim é água genérica. Maayan indica nascente permanente, alimentada por baixo. O verbo yeshituhu está no plural e tem sujeito explícito no próprio verso: overei, os que passam. A construção diz que os atravessadores fazem do vale uma fonte. O céu entra na frase seguinte, com a chuva primeira da estação, moreh, que cobre de bênçãos o mesmo terreno depois. A ordem dos dois movimentos importa. Primeiro a passagem humana, depois a chuva sobre o trecho já atravessado. O salmo não descreve alguém que espera a estação boa para sair de casa; descreve gente que sai com o vale seco e recebe a chuva no caminho. Nada no verso promete desvio. O peregrino não contorna o vale, não recebe estrada nova nem transporte alternativo, e o nome do lugar continua sendo o nome do choro depois que ele passa. O que muda é o estado do solo atrás dos pés dele. O verso seguinte fecha o raciocínio com uma frase que quebra a expectativa de qualquer viajante: vão de força em força. Estrada longa costuma consumir força; o salmo afirma o contrário para quem caminha na direção certa, e a fonte deixada no meio do percurso explica boa parte da conta.
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II Aplicação Prática
Cinco modos de cavar no trecho seco
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O verso sugere um método de travessia, e o método cabe em cinco frentes para os próximos dias. Primeiro, nomear o vale com honestidade. O salmo não maquia o lugar; ele mantém o nome do choro no mapa e segue caminhando. Escreva numa linha o trecho seco que você está atravessando agora, com o nome real que ele tem: a conta que não fecha, a consulta que ainda vem, a conversa adiada há meses. Nome vago mantém a travessia vaga. Segundo, decidir a rota antes do humor do dia. Peregrino de festa saía em data marcada, com vale seco ou molhado, porque o calendário mandava mais que a disposição. Marque no calendário desta semana o dia e a hora exata da tarefa que você vem adiando, e trate o compromisso com o mesmo peso de uma consulta agendada com terceiros. Terceiro, deixar fonte no lugar por onde passou. A imagem do verso é de gente que cava enquanto atravessa, e o buraco fica aberto para a caravana seguinte. Escolha uma pessoa que está entrando agora no problema que você já atravessou e mande a ela, ainda esta semana, uma mensagem com a única informação prática que teria encurtado o seu caminho. Quarto, tratar o corte como parte da produção. O arbusto de bálsamo solta resina depois da incisão, e a resina é o produto que a caravana levava para vender. Pegue a dificuldade que mais dói na sua semana e escreva três linhas: o que ela ensinou, o que ela custou, o que você faria de outro jeito. Guarde o papel onde você o encontre no próximo aperto. Quinto, medir força pela direção, não pelo cansaço. O salmo fala de gente que vai de força em força, e o que decide não é a perna, é o destino escolhido. Ao fim de cada dia desta semana, anote em uma linha se o que você fez aproximou ou afastou você do lugar aonde quer chegar, e some as linhas no domingo. O método inteiro cabe em papel de bloco e leva menos de dez minutos por dia. A parte cara não é a anotação, é a decisão de não contornar o vale. Uma última observação sobre a ordem das cinco frentes. Elas funcionam encadeadas, porque nomear sem calendário vira desabafo e calendário sem fonte deixada para trás vira apenas produtividade privada. O peregrino do salmo faz as duas na mesma viagem, e é por causa da segunda que o vale muda de estado.
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