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ED 135

Salmo 56:8

"Tu contaste as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre. Não estão elas no teu livro?"

Salmo 56:8

Odre de couro pendurado à sombra da tenda

 
 

Um homem entrou pelo portão de Gate arranhando marcas na madeira das portas e deixando a saliva escorrer pela barba. Os servos do rei o tinham reconhecido pelo nome errado, o nome que a canção das mulheres de Israel repetia, e ele decidiu que continuar respirando valia mais que a compostura.

Aquis, o rei da cidade, olhou aquilo e perguntou aos servos se faltavam loucos na Filístia para lhe trazerem mais um. O homem saiu andando pelo mesmo portão. Ficaria fora de casa por vários anos ainda.

O título do Salmo 56 amarra o poema àquele dia: mictão de Davi, quando os filisteus o prenderam em Gate. É um texto de chão estrangeiro, escrito por alguém que não sabia onde dormiria.

No meio dele aparece um pedido esquisito. Não é pedido de vingança, não é pedido de resgate. É pedido de armazenamento.

O objeto que ele nomeia não é um frasco de vidro. Em hebraico é um nod, o odre: uma pele inteira de cabra, tirada com o mínimo de cortes, curtida, com as extremidades amarradas e o pescoço servindo de bico.

Cheio de água, o odre voltava a ter a forma do animal. Vazio, murchava e dobrava no ombro de quem andava.

Era o recipiente que decidia quantos dias uma pessoa aguentava entre um poço e o seguinte. Ninguém enchia um odre por sentimento. Enchia porque a distância até a próxima água era maior que a sede.

E é dentro dessa peça de couro que o salmo manda Deus colocar o choro de um fugitivo. Põe as minhas lágrimas no teu odre.

O pedido pressupõe três coisas de uma vez: que o choro tem volume, que alguém está carregando o recipiente, e que a carga segue viagem junto com quem carrega.

A parte mais estranha do verso, porém, não está no que ele pede. Está no som. As duas palavras centrais da frase, a que nomeia a andança e a que nomeia o odre, saem da boca quase idênticas.

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I  A Palavra

O odre, a andança e o livro

Nod, escrito com aleph, aparece poucas vezes na Bíblia hebraica, e todas as aparições são de serviço pesado.

Josué 9 mostra os gibeonitas chegando com odres de vinho velhos, rotos e costurados, junto de pão seco e sandálias remendadas. Era um cenário montado para provar viagem longa, e funcionou porque todo mundo sabia como um odre envelhece.

Juízes 4 mostra Jael abrindo um odre de leite para um general com sede. Primeiro Samuel 16 mostra Jessé despachando o filho mais novo à corte com pão, um cabrito e um odre de vinho.

Salmo 119:83 completa o retrato pelo lado feio: tornei-me como um odre na fumaça. O couro pendurado perto do fogo da tenda resseca, escurece e racha.

O nod nunca foi enfeite. Era ferramenta de sobrevivência, feita do animal inteiro, remendada quando furava e trocada quando não dava mais para remendar.

Nodi, escrito sem aleph, vem de outra raiz. O verbo nud descreve duas coisas ao mesmo tempo: andar sem destino e balançar a cabeça.

Gênesis 4 usa a primeira acepção no caso mais conhecido de todos. Caim sai errante da presença de Deus e vai morar a leste do Éden, na terra de Node, e o nome do lugar quer dizer exatamente andança.

Jó 2 usa a segunda. Os três amigos vêm de longe para lanud lo, mover a cabeça junto com ele, o gesto de quem senta ao lado de alguém arrasado e não encontra frase nenhuma.

A mesma raiz cobre o pé que não para e a cabeça que oscila no pesar. É o vocabulário do corpo em luto e em fuga, com um verbo só.

O Salmo 56:8 põe as duas palavras lado a lado, e o ouvido não separa uma da outra. Contaste a minha nodi, guarda a minha lágrima no teu nod.

A frase encaixa a andança dentro do recipiente pelo som antes de encaixar pelo sentido.

Existe um segundo par escondido no mesmo verso. O verbo que abre a linha é safar, contar, e a palavra que a fecha é sefer, livro. Contar e registrar saem da mesma raiz.

O livro tinha função concreta no mundo antigo. Ester 6 mostra um rei persa sem sono mandando ler as crônicas do reino, e o registro devolve um serviço prestado anos antes e nunca pago.

Malaquias 3:16 chama a coisa de sefer zikaron, livro de memórias, escrito diante de Deus a respeito dos que se lembravam do nome dele.

Um arquivo só serve se alguém voltar a abri-lo. É exatamente o que o verso pergunta no fim: não estão elas no teu livro?

Sobram, então, três objetos administrativos numa frase de oração: uma contagem, um recipiente e um registro.

O salmista não pede que Deus se comova. Pede que Deus anote, recolha e leve.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O que fazer com o choro que ninguém viu

 

O salmo não termina em desabafo. Ele descreve um procedimento, e o procedimento cabe numa semana comum.

Primeiro, contar a estrada, não só a dor. Davi pede que Deus conte as vagueações, não as tristezas.

Vagueação tem número: quantas mudanças de endereço, quantos meses sem resposta, quantas noites fora de casa. Escreva o trajeto num papel, com datas. Dor sem itinerário vira neblina, e neblina não se resolve.

Segundo, encher o odre antes da sede. Ninguém entra no deserto e decide procurar água quando a garganta fecha.

Marque hoje a conversa que você vem adiando, a consulta, o telefonema para a pessoa que já provou que fica. Apoio combinado na véspera funciona. Apoio improvisado no meio do aperto quase nunca chega a tempo.

Terceiro, não deixar o couro secar na fumaça. O odre do Salmo 119 endurece porque ficou pendurado perto do fogo e ninguém lembrou dele.

Mágoa guardada perto da irritação de todo dia faz o mesmo movimento. Dê saída em voz alta dentro de poucos dias, para uma pessoa só que seja, antes que o material endureça e rache.

Quarto, guardar registro e não só lembrança. A memória reescreve o que dói: aumenta o vilão, apaga a data, inventa uma frase que ninguém disse.

Três linhas num caderno por episódio, com o fato e o dia, devolvem proporção seis meses depois. O registro é o que impede a versão nova de passar por cima da antiga.

Existe um quinto movimento, e ele é o mais difícil porque não trata de você. Alguém tem que carregar o odre alheio.

Perguntar como a pessoa está uma vez é protocolo. Perguntar a segunda vez, depois da resposta automática, é o gesto que abre o recipiente.

Anote na agenda a data do aperto de outra pessoa, do jeito que você anotaria um pagamento, e volte nela quando o assunto já tiver saído do grupo.

Escolha hoje um choro que você tratou como bobagem e faça com ele a única coisa que o salmo faz: dê volume, data e destinatário.

 
 
 
 

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III  Reflexão

O Deus que carrega o cantil

 

Um odre não fica guardado em cofre. Ele vai pendurado no ombro de quem anda, e balança a cada passo.

A imagem do Salmo 56:8 tem essa consequência incômoda. Se Deus recolhe lágrima em odre, ele está na estrada, e não atrás de um balcão de arquivo.

O frasco de vidro que costuma ilustrar o verso é invenção bem posterior. Anticuários dos séculos XVIII e XIX batizaram de lacrimatórios os frasquinhos achados em túmulos romanos e leram o salmo dentro deles.

A arqueologia devolveu os frascos ao uso original, perfume e unguento, mas a imagem devocional sobreviveu ao engano. O objeto hebraico continua mais rude e mais útil: couro de trabalho, não vidro de vitrine.

O verso também não está sozinho no poema. Antes e depois dele corre o mesmo refrão: em Deus confio, não temerei; que me pode fazer a carne?

O pedido do odre não substitui o medo. Ele mora dentro do medo, entre duas linhas de confiança declarada.

"Todo lamento é uma canção de amor", escreveu Nicholas Wolterstorff em Lament for a Son, de 1987, um caderno curto que ele começou depois que o filho de vinte e cinco anos não voltou de uma escalada nos Alpes austríacos.

A frase explica a estranheza do pedido. Ninguém chora pelo que não vale nada. O volume do choro mede o tamanho do que a pessoa amava.

Se Deus recolhe o choro num recipiente, ele está recolhendo a medida de um amor, não um resíduo de fraqueza.

O fim da Bíblia devolve o mesmo objeto pelo avesso. Apocalipse 21 promete que Deus enxugará dos olhos deles toda lágrima.

O gesto exige mão e proximidade. Só enxuga quem chegou perto o bastante para alcançar o rosto do outro, e só devolve quem tinha guardado.

Entre o odre da estrada e a mão da chegada corre a mesma lógica: o que foi recolhido no caminho volta para quem chorou.

Vale lembrar de onde saiu o pedido. Não veio de alguém confortável, com casa, função e plateia.

Veio de um sujeito encurralado na cidade natal do gigante que ele havia enfrentado no vale, fingindo demência no portão para conseguir sair vivo dali.

A oração mais precisa sobre o valor do choro nasceu no lugar onde chorar em público custaria a cabeça de quem chorasse.

A pergunta que a palavra deixa para quem lê: qual foi a última vez que você chorou sozinho e decidiu que aquilo não contava, e o que muda se o choro daquele dia já estiver contado, guardado e a caminho?

 
 
 
 
 
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Segundo o texto, de que material é feito o nod, o odre citado em Salmo 56:8?

ADe barro cozido revestido de piche
BDe uma pele inteira de cabra, curtida e amarrada nas pontas
CDe juncos trançados e vedados com resina
DDe couro de boi cortado em tiras costuradas

Resultado da última edição: 6% acertaram.

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