| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
O Salmo 46 é um dos grandes cânticos de confiança do saltério, o que inspirou Lutero a escrever "Castelo Forte é Nosso Deus". Ele abre com uma declaração que serve de fundamento: "Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia".
A partir daí, o salmo pode descrever a terra se desfazendo, os montes tremendo no coração do mar, as águas rugindo, e ainda assim concluir: "portanto não temeremos".
A frase de abertura soa reconfortante em qualquer tradução. Mas o hebraico do verso 1 carrega uma precisão que muda o tom da confiança. A expressão traduzida como "bem presente" ou "pronto socorro", nimtsá meod, não descreve um auxílio que está a caminho, que virá quando a crise apertar.
Descreve um socorro já encontrado, e encontrado abundantemente. O verbo é o de "achar", no tempo de algo consumado. Deus não é o refúgio que se busca na próxima tribulação. É o refúgio já achado, e achado de sobra, no meio desta.
O salmo, atribuído aos "filhos de Coré", é um "cântico de Sião" estruturado em três estrofes. A primeira (vv. 1-3) descreve o cenário mais extremo possível, a desordem cósmica: a terra muda de lugar, os montes mergulham no coração dos mares, as águas bramem. É a imagem do caos primordial.
E é justamente diante desse colapso que o salmo declara a ausência de medo. As estrofes seguintes passam do mar revolto a um rio sereno na cidade de Deus, culminando em "aquietai-vos e sabei que eu sou Deus".
Tudo isso repousa sobre a afirmação de abertura, que, no hebraico, é mais forte do que as traduções costumam transmitir.
A Palavra
O verso contém duas palavras-chave: machsé (refúgio) e a expressão nimtsá meod. Machsé (מַחְסֶה) significa "refúgio, abrigo, lugar de proteção". A raiz chasáh descreve o ato de buscar abrigo, de se esconder em segurança, como quem corre para uma rocha alta durante a tempestade.
Junto com "fortaleza" (oz) e "socorro" (ezrá), o verso empilha três imagens de proteção: abrigo, força, ajuda. Deus é descrito como tudo o que protege.
Mas o coração do estudo está na expressão final. Em hebraico, a ordem é ezrá vetsarót nimtsá meod. Nimtsá (נִמְצָא) é a forma passiva (nifal) do verbo matsá, "achar, encontrar": significa "é encontrado, é achado, faz-se presente". Não é verbo de movimento futuro ("virá", "chegará"); é verbo de constatação.
O socorro de Deus não está em trânsito; ele é encontrado. E meod (מְאֹד) é o advérbio "muito, grandemente, abundantemente", a mesma palavra de Gênesis 1:31, "era tov meod, muito bom".
Juntando: nimtsá meod é "abundantemente encontrado", "amplamente disponível". A nuance temporal é decisiva. O socorro de Deus na tribulação não é uma promessa de auxílio que ainda vai chegar; é uma realidade já presente, achada de sobra, exatamente dentro das tribulações (a preposição be- em betsarót significa "no meio de").
Não "Deus socorrerá depois que a crise passar", mas "no meio das crises, o socorro de Deus já se faz presente, e abundantemente". A confiança das estrofes seguintes se apoia exatamente nisso: o refúgio não está sendo aguardado, está sendo habitado.
Há duas leituras erradas, em direções opostas. A primeira é a do adiamento: "Deus me socorrerá quando a crise terminar; basta aguentar até lá". Esta empurra o socorro para o futuro. Mas nimtsá meod não fala de depois; fala de durante. O socorro é encontrado betsarót, nas tribulações, enquanto duram.
Quem só espera o alívio para quando a tempestade passar perde o refúgio disponível dentro dela. A segunda é a da negação da crise: "se Deus é meu refúgio, não devo ter problemas; a tribulação seria sinal de pouca fé".
Mas o salmo pressupõe a tribulação como cenário real, descreve o caos em detalhe e então declara o refúgio. A fé do Salmo 46 não nega a tempestade; afirma o abrigo no meio dela.
A leitura correta integra realismo e confiança. As tribulações são reais, descritas sem maquiagem: a terra muda, os montes caem no mar, as nações se enfurecem. E, exatamente nesse cenário, o socorro de Deus nimtsá meod, já se faz presente, abundantemente.
A confiança cristã não é otimismo que finge não ver o caos; é a certeza de que, dentro do caos visível, há um refúgio mais real ainda, já encontrado. Quem entende nimtsá meod para de buscar a Deus apenas como plano de emergência. Ele já está presente.
O refúgio não precisa ser convocado de longe no momento do desespero; precisa ser habitado.
Há ainda o "aquietai-vos e sabei que eu sou Deus" (46:10). A quietude não é fuga nem passividade ingênua; é o repouso de quem sabe onde está abrigado. Só se aquieta no meio do caos quem encontrou o refúgio.
E há a presença: o refrão do salmo é "o Senhor dos Exércitos está conosco". O socorro não é apenas algo que Deus envia; é Deus mesmo presente, o que o Novo Testamento chamará de Emanuel, "Deus conosco".
O socorro abundantemente encontrado é, no fim, a própria presença de Deus no meio do seu povo.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Machsé e nimtsá meod. Deus é o refúgio, o abrigo seguro para onde se foge na tempestade. E o socorro nas tribulações é nimtsá meod: não uma promessa de auxílio que ainda vai chegar, mas um socorro já encontrado, e encontrado abundantemente, no meio do caos.
O verbo é o de "achar", no tempo de algo disponível agora. A terra pode mudar, os montes podem cair no mar, as nações podem se enfurecer, e ainda assim "não temeremos", porque o refúgio não está sendo aguardado, está sendo habitado. Deus não é a calmaria depois da tormenta.
É o abrigo no meio dela, achado de sobra, já presente. O Senhor dos Exércitos está conosco.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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