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O hebraico tinha mais de uma forma de dizer que alguém estava em algum lugar, e elas não se misturavam. יָשַׁב, yashav, é sentar e habitar, o verbo de quem tem endereço. שָׁכַן, shakan, é residir de modo estável, e dele vem mishkan, o tabernáculo, a morada.
לוּן (lûn) é o terceiro, e o único que aparece no versículo. Os léxicos abrem a entrada com passar a noite, pernoitar, hospedar-se de passagem (A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 1906).
No Salmo 30:5 a forma é יָלִין, yalin: ao entardecer, pernoita o choro. O sujeito hospedado é בֶּכִי, bekhî, o choro, palavra formada sobre בָּכָה, bakah, chorar. O hóspede tem nome e a estadia tem prazo.
Do mesmo verbo saiu o substantivo מָלוֹן, malôn, o lugar do pernoite. É onde os irmãos de José abrem os sacos e encontram a prata devolvida (Gênesis 42:27), e é o que Jeremias 9:2 chama de pousada de viajantes no deserto.
Gênesis 19:2 registra o protocolo inteiro numa frase. Ló recebe os visitantes e propõe: entrem, pernoitem, lavem os pés, e de manhã cedo sigam o seu caminho. Chegada, água, cama e partida ao amanhecer cabem dentro do verbo.
Rute usa a mesma palavra num voto de vida inteira. Onde tu pousares, pousarei (Rute 1:16). A frase que soa como promessa de família é, no hebraico, promessa de estrada.
A lei pegou o verbo e transformou em relógio. Levítico 19:13 proíbe que o salário do diarista pernoite com quem contratou: o pagamento não tem permissão de dormir na casa do patrão até a manhã seguinte.
Êxodo 23:18 usa a mesma construção para a gordura da festa, que não pode amanhecer no altar, e Êxodo 12:10 manda queimar o que sobrar do cordeiro antes do nascer do sol. A raiz marca sempre o mesmo limite: até a manhã, e nem uma hora além.
Os léxicos registram ainda uma segunda entrada com as mesmas três consoantes: o lûn de murmurar, o verbo do povo que reclama contra Moisés no deserto (Êxodo 16:2).
A segunda metade do versículo guarda a chave da frase. וְלַבֹּקֶר רִנָּה, velabbóqer rinnah, e pela manhã, um grito de alegria. Nenhum verbo aparece ali.
As traduções precisam inventar o verbo que falta, e escolhem vem. O hebraico deixa a lacuna aberta de propósito: lûn foi gasto no choro e não se repete. Hospedagem é assunto de hóspede.
רִנָּה, rinnah, vem de רָנַן, ranan, soltar um grito vibrante. Não é sorriso educado, é som que atravessa parede, a mesma palavra que descreve quem volta da colheita cantando no Salmo 126.
A Septuaginta traduziu o pernoite com αὐλισθήσεται, de αὐλίζομαι, acampar no pátio, o verbo de quem estende a esteira onde a noite pegou. É o mesmo termo que descreve a noite passada em Betânia em Mateus 21:17.
A Vulgata escolheu demorabitur, de demorari, deter-se por um tempo (Vulgata, c. 400). O latim guardou a demora e perdeu a estalagem, e o português herdou a frase sem pátio e sem hora de saída.
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