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ED 168

33% escolheram Chashav em Gênesis 50.20. Sai em 22/09.

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Salmo 147.3

Sara os quebrantados de coração e lhes ata as feridas

Duas mãos enfaixando um braço ferido com tira de linho à luz de lamparina

A faixa de linho apertada sobre a carne aberta

 
 

«Eu o tratei, Deus o curou.» Ambroise Paré escreveu a frase nas Œuvres, em 1585, e ela reparte o trabalho em duas mãos: a que aperta o pano e a que fecha a carne por baixo dele.

Paré era barbeiro-cirurgião do exército francês e aprendeu a lição no cerco de Turim, em 1537, quando acabou o óleo fervente que os manuais mandavam despejar nos ferimentos de bala.

Sem estoque, ele improvisou uma mistura de gema de ovo, óleo de rosas e terebintina, passou a noite convencido de que os feridos daquele curativo morreriam antes do amanhecer.

De manhã, os homens tratados com o óleo fervente ardiam em febre. Os do curativo improvisado tinham dormido. Paré passou o resto da vida contando esse caso e repetindo a frase sobre as duas mãos.

A ferida de guerra não fechava com discurso. Fechava com pano limpo, pressão constante e alguém disposto a ficar ali enquanto o corpo fazia o trabalho lento de se refazer por dentro.

Quatro séculos depois, os manuais de socorro repetem a ordem de Paré: primeiro conter o sangramento com pressão e faixa, e só então cuidar do resto. O curativo compra o tempo que a cura exige.

O Salmo 147 usa uma imagem dessa mesma enfermaria para falar do cuidado de Deus. O verbo do versículo 3 não vem do vocabulário do templo, nem da liturgia, nem da corte.

Vem do trabalho de mão suja: o gesto de quem se abaixa, corta uma tira de pano e enrola apertado sobre a carne aberta, porque faixa frouxa não segura sangue nenhum.

E o versículo seguinte muda a escala de maneira quase violenta. Ele sai da cama do ferido e vai para o céu inteiro, contando estrelas e chamando cada uma por um nome próprio.

As duas frases estão coladas, na mesma respiração do poema, e é dessa colagem que sai o consolo do salmo. A palavra hebraica do versículo 3 é o que vem agora.

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I  A Palavra

A faixa apertada sobre o que sangra

 

Tem uma hora da madrugada em que a dor perde o nome. Você acorda sem motivo, olha o teto e sente aquele peso no peito que nenhuma explicação resolve. O corpo dorme; a ferida não.

O Salmo 147.3 mira exatamente essa cama. Ele diz que Deus sara os quebrantados de coração e lhes ata as feridas, e o segundo verbo é o mais concreto dos dois.

O hebraico traz chavash (enfaixar, atar a faixa), o gesto de enrolar o pano apertado sobre a carne aberta. Não é palavra de oração. É palavra de quem trata ferimento com as próprias mãos.

O verbo aparece em cenas bem pouco espirituais. Em Gênesis 22.3, Abraão chavash o jumento antes da viagem: amarra a sela, aperta a cilha, prende o que precisa ficar preso para aguentar o caminho.

Em Êxodo 29.9, o verbo descreve atar o turbante na cabeça dos sacerdotes: enrolar tecido com firmeza, dar a volta que segura. Sempre algo que precisa ficar bem amarrado para servir.

Aplicado à ferida, chavash traz junto essa exigência de aperto. Faixa solta escorrega e o sangue volta. Quem enfaixa de verdade encosta a mão no que dói, e isso costuma arrancar um gemido de quem recebe o curativo.

O primeiro verbo do versículo é rafá (sarar, curar), o processo invisível que acontece por dentro da carne, no tempo dele. O segundo é o gesto visível, feito por fora, agora.

O salmo põe os dois na mesma frase e atribui os dois à mesma mão. Para quem está na cama da madrugada, a promessa tem duas camadas: alguém trata por fora enquanto alguma coisa se refaz por dentro.

Chavash está no intensivo hebraico, a forma que reforça a ação: na prática, não é um pano jogado por cima, é a faixa enrolada volta após volta até parar o sangramento.

O mesmo verbo reaparece numa acusação pesada. Em Ezequiel 34.4, Deus cobra dos pastores de Israel: não fortalecestes as fracas, não curastes as enfermas, não atastes as que tinham quebradura.

A lista de Ezequiel descreve pastores que comiam a gordura do rebanho e vestiam a lã, sem tocar na ovelha machucada. O que se cobra deles não é sentimento. É o curativo que ninguém fez.

Jó 5.18 usa o verbo na direção contrária: quem fere também ata a ferida, e as duas mãos pertencem ao mesmo dono.

Isaías 61.1 volta ao gesto com o coração como alvo declarado: o ungido é enviado para atar os quebrantados de coração, a mesma dupla de palavras que o salmista reúne no versículo 3.

O hebraico chama esse coração de nishberei lev, literalmente os quebrados de coração, com o particípio de shavar (quebrar), o verbo usado para osso partido e para vaso de barro estilhaçado no chão.

Aí está a costura do texto. Um coração quebrado, no vocabulário do salmo, não é uma tristeza vaga: é fratura, coisa que se trata com imobilização, faixa firme e tempo, do jeito que se trata osso.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

Enfaixe uma ferida em doze minutos

 

O salmo descreve um gesto, não um sentimento, e gesto se copia. A conta de hoje são doze minutos, divididos em quatro passos, feitos numa folha de papel e num aplicativo de mensagem.

Primeiro passo, três minutos. Nomeie a fratura. Escreva numa linha só o que está quebrado em você agora, com fato e data: a demissão de março, a conversa que travou, o resultado do exame.

Dor sem nome fica grande. Dor escrita numa linha tem borda, e borda dá para tratar. Se você precisa de dois parágrafos para dizer o que dói, ainda não chegou na fratura, chegou na fumaça.

Segundo passo, três minutos. Escolha a faixa de hoje. Uma ação concreta que reduz o sangramento nas próximas horas, não a que resolve o problema inteiro: dormir oito horas, cancelar um compromisso, pagar a conta menor.

O critério é o do curativo: contém agora, cura depois. Ninguém costura o osso no primeiro atendimento. Imobiliza, estabiliza, e só então trata o que vai levar semanas para consolidar de verdade.

Terceiro passo, quatro minutos. Enfaixe alguém. Pense em quem, no seu círculo, está com uma fratura aberta e recebeu só silêncio. Mande uma mensagem que cite o fato pelo nome, sem conselho e sem frase pronta.

Escreva assim: "Lembrei da sua mãe hoje. Sei que faz dois meses. Estou aqui." Três linhas bastam. O curativo que serve encosta no lugar certo, e para encostar é preciso dizer o nome do que aconteceu.

A tentação é mandar o versículo sozinho e sair. Ezequiel cobra exatamente esse tipo de pastor: o que fala do rebanho e não ata a ovelha. Texto sem gesto é faixa nenhuma sobre carne aberta.

Quarto passo, dois minutos. Marque o retorno. Coloque no calendário um lembrete daqui a cinco dias para reler a linha do primeiro passo e para mandar a segunda mensagem à pessoa do terceiro passo.

Curativo se troca. No retorno se descobre se a ferida fechou ou se a faixa estava frouxa. Quem enfaixa uma vez e some não tratou ninguém.

O erro mais comum é apertar demais. Faixa exagerada corta a circulação: no lado humano, vira cobrança disfarçada de cuidado, aquele "já devia ter superado" que chega vestido de preocupação.

O segundo erro é enfaixar o outro para fugir da própria fratura. Quem nomeia a dor que carrega manda mensagem melhor, porque escreve sem precisar aparecer bem.

O terceiro erro é esperar a frase perfeita. A mensagem torta enviada hoje vale mais que o texto impecável que você vai escrever quando tiver tempo.

Doze minutos, quatro passos, cinco dias até o retorno. A conta é pequena de propósito: o gesto do salmo cabe na mão de qualquer pessoa, e é isso que o torna repetível todo mês.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

O céu inteiro e a cama de um só

 

O Salmo 147 nasceu num canteiro de obras. O versículo 2 fala de Deus edificando Jerusalém e reunindo os dispersos de Israel, cena da volta do exílio na Babilônia, depois de 538 antes de Cristo.

A cidade estava em ruínas e o povo, espalhado. O salmo dirige o consolo a uma população que tinha perdido casa, templo e cemitério, e voltava para reconstruir tudo sobre escombro conhecido.

Logo depois do curativo do versículo 3 vem a virada de escala. O versículo 4 diz que Deus conta as estrelas e chama todas elas pelo nome, um inventário do céu feito unidade por unidade.

A ordem dos versos carrega o argumento inteiro. Primeiro a faixa na ferida, depois o céu. Quem faz o registro nominal das estrelas é apresentado como o mesmo que se abaixa para tratar um peito partido.

Agostinho comentou esse par de versos no Comentário aos Salmos, por volta de 415, e leu a sequência como propósito deliberado do poeta: curar um coração quebrado seria obra maior do que numerar o céu.

Os astros com nome próprio eram assunto sério no Oriente Médio antigo. Tábuas babilônicas catalogavam constelações havia séculos, e chamar estrela pelo nome era gesto de domínio, não de poesia.

A autoria não se sabe. O texto hebraico chega sem superscrição, sem indicar cantor, ocasião ou reinado, e as datações propostas se apoiam na menção aos muros reconstruídos de Jerusalém.

Na Septuaginta, a tradução grega feita em Alexandria a partir do século 3 antes de Cristo, este salmo aparece dividido em dois, e a numeração dos versos muda de lugar.

«Porque ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.» Jó 5.18, na tradução de João Ferreira de Almeida, 1681.

A frase de Jó incomoda de propósito e o livro não a resolve: ela sai da boca de Elifaz, amigo que passa capítulos inteiros dando diagnóstico errado sobre o sofrimento do vizinho.

Também não se sabe o que o salmista tinha vivido. O poema não descreve ferida nenhuma em detalhe, não conta caso, não nomeia doente: guarda o verbo do curativo e deixa o leitor preencher a cama.

O silêncio ali parece escolha de ofício: um salmo que nomeasse a dor de alguém serviria só àquele alguém.

O que o texto afirma sem hesitar é a combinação: o cuidado do inventário do céu e o cuidado da faixa de pano, atribuídos à mesma mão, escritos por gente que estava reerguendo muro caído.

A sua dor não é grande demais para caber nesse cuidado, nem pequena demais para merecê-lo. É fratura, tem nome, e o salmo trata fratura com faixa apertada, não com conselho de quem passa correndo.

"Qual ferida sua ninguém enfaixou até hoje, e quem está com uma ferida esperando a sua faixa?"

Hoje: escreva a sua fratura numa linha e mande uma mensagem de três linhas para a pessoa que está sangrando em silêncio, uma mensagem só, nas próximas 24 horas.

 
 
 
 
 

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Em qual referência bíblica o verbo hebraico chavash (o mesmo do Salmo 147.3) aparece numa acusação contra os pastores de Israel?

AIsaías 61.1
BEzequiel 34.4
CJó 5.18
DGênesis 22.3

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