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O Salmo 147 nasceu num canteiro de obras. O versículo 2 fala de Deus edificando Jerusalém e reunindo os dispersos de Israel, cena da volta do exílio na Babilônia, depois de 538 antes de Cristo. A cidade estava em ruínas e o povo, espalhado. O salmo dirige o consolo a uma população que tinha perdido casa, templo e cemitério, e voltava para reconstruir tudo sobre escombro conhecido. Logo depois do curativo do versículo 3 vem a virada de escala. O versículo 4 diz que Deus conta as estrelas e chama todas elas pelo nome, um inventário do céu feito unidade por unidade. A ordem dos versos carrega o argumento inteiro. Primeiro a faixa na ferida, depois o céu. Quem faz o registro nominal das estrelas é apresentado como o mesmo que se abaixa para tratar um peito partido. Agostinho comentou esse par de versos no Comentário aos Salmos, por volta de 415, e leu a sequência como propósito deliberado do poeta: curar um coração quebrado seria obra maior do que numerar o céu. Os astros com nome próprio eram assunto sério no Oriente Médio antigo. Tábuas babilônicas catalogavam constelações havia séculos, e chamar estrela pelo nome era gesto de domínio, não de poesia. A autoria não se sabe. O texto hebraico chega sem superscrição, sem indicar cantor, ocasião ou reinado, e as datações propostas se apoiam na menção aos muros reconstruídos de Jerusalém. Na Septuaginta, a tradução grega feita em Alexandria a partir do século 3 antes de Cristo, este salmo aparece dividido em dois, e a numeração dos versos muda de lugar. «Porque ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.» Jó 5.18, na tradução de João Ferreira de Almeida, 1681. A frase de Jó incomoda de propósito e o livro não a resolve: ela sai da boca de Elifaz, amigo que passa capítulos inteiros dando diagnóstico errado sobre o sofrimento do vizinho. Também não se sabe o que o salmista tinha vivido. O poema não descreve ferida nenhuma em detalhe, não conta caso, não nomeia doente: guarda o verbo do curativo e deixa o leitor preencher a cama. O silêncio ali parece escolha de ofício: um salmo que nomeasse a dor de alguém serviria só àquele alguém. O que o texto afirma sem hesitar é a combinação: o cuidado do inventário do céu e o cuidado da faixa de pano, atribuídos à mesma mão, escritos por gente que estava reerguendo muro caído. A sua dor não é grande demais para caber nesse cuidado, nem pequena demais para merecê-lo. É fratura, tem nome, e o salmo trata fratura com faixa apertada, não com conselho de quem passa correndo. "Qual ferida sua ninguém enfaixou até hoje, e quem está com uma ferida esperando a sua faixa?" Hoje: escreva a sua fratura numa linha e mande uma mensagem de três linhas para a pessoa que está sangrando em silêncio, uma mensagem só, nas próximas 24 horas.
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