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O que você não sabia sobre esse versículo |
Há orações que nascem ajoelhadas e há esta, que nasce se afogando. O hebraico guarda uma crueza que as traduções amaciaram. Quem já rezou sem fôlego vai se reconhecer no versículo de hoje.
O Salmo 130 é um dos sete "salmos penitenciais" e um dos mais amados do Saltério. Lutero o contava entre os "salmos paulinos"; foi musicado por Bach. Sua primeira linha em latim virou nome de obras e do gênero literário do luto. Tudo nasce de duas palavras hebraicas: mimmaʿămaqqîm qərāʾtîkā YHWH. "Das profundezas clamo a ti, ó SENHOR."
A Vulgata, De profundis clamavi ad te, Domine, fixou "De profundis" como o clamor mais fundo que a alma pode emitir. Mas o português "das profundezas" e até o latim suavizam o que o hebraico diz com crueza concreta. Maʿămaqqîm não é profundidade abstrata, de tristeza genérica.
É o fundo das águas, o abismo onde se afoga, o lugar de onde não se volta. O salmo não começa num vale; começa debaixo d'água.
O salmo pertence aos "Cânticos de Subida" (Salmos 120-134), cantados pelos peregrinos que subiam a Jerusalém. É significativo que um cântico de subida comece no ponto mais baixo: "das profundezas".
A estrutura é ascendente em quatro estrofes, do abismo (vv. 1-2) ao perdão (vv. 3-4), à espera vigilante (vv. 5-6), à esperança coletiva e "copiosa redenção" (vv. 7-8). O salmo sobe. Mas tudo começa lá embaixo. A datação aponta para o período pós-exílico, ligado à peregrinação ao segundo templo.
A Palavra
A palavra de abertura é mimmaʿămaqqîm, uma só palavra: a preposição min ("de, a partir de") + maʿămaqqîm, plural de maʿămaq, "lugar profundo", da raiz ʿāmaq, "ser fundo". Literalmente: "a partir das profundezas". O ponto crucial é que maʿămaqqîm, no uso bíblico, não é profundidade abstrata. É, concretamente, a profundidade das águas, o abismo aquático, as águas que afogam.
As outras ocorrências deixam isso claro. No Salmo 69:2, o salmista afogado clama: "entrei nas profundezas das águas (maʿămaqqê-mayim), e a corrente me leva." Em Isaías 51:10, são as "profundezas do mar" que Deus secou. Maʿămaqqîm é o vocabulário do afogamento.
Quem clama mimmaʿămaqqîm não diz "estou meio triste"; diz "estou no fundo das águas, onde não há onde firmar o pé, de onde não se sobe pelas próprias forças". É o caos primordial das águas, símbolo do domínio da morte.
Clamar das profundezas é clamar do único lugar onde nenhuma ajuda humana alcança, e por isso, o mais honesto: ali não há ilusão de autossuficiência.
O verbo que acompanha é qərāʾtîkā: qārāʾ ("chamar, gritar em voz alta") na primeira pessoa, com sufixo de segunda, "clamo a ti". Não é lamento que se dispersa no ar; é grito com destinatário: YHWH. Das profundezas onde nenhuma voz deveria chegar, o salmista grita um nome. A direção do clamor é tão importante quanto sua profundidade: de baixo, mas para Alguém.
Há duas leituras erradas, e ambas amaciam o maʿămaqqîm. A sentimental-vaga: "das profundezas" como metáfora de qualquer tristeza passageira. Mas o hebraico é específico: é o fundo das águas que afogam, o ponto de não-retorno.
O salmo não é a oração de quem está chateado; é a de quem está se afogando. A segunda é a desesperançada: "estou nas profundezas, logo estou perdido". Mas mimmaʿămaqqîm é o ponto de partida, não o destino.
O salmo é um Cântico de Subida: começa no abismo e termina na "copiosa redenção". Quem lê só o verso 1 lê tragédia; quem lê o salmo inteiro lê uma ascensão.
A leitura correta segura a concretude da palavra e a direção do verbo. O salmista está realmente no fundo, não finge estar bem, não espiritualiza a dor. Mas, do fundo, clama a YHWH, não se afoga em silêncio nem grita ao vazio.
A oração das profundezas é o reconhecimento mais nu da impotência humana e, ao mesmo tempo, o ato mais alto de fé: justamente de onde nada se pode fazer, dirige-se a palavra a Quem tudo pode. A fé do Salmo 130 não nega o abismo; grita dentro dele.
A implicação é a permissão da oração no fundo. Muita gente acha que precisa "melhorar" antes de orar, sair da água, recompor-se. O Salmo 130 desmonta isso: ora-se das profundezas, encharcado, sem fôlego. Não se espera subir para clamar; clama-se para subir.
E o verso 3 amarra o fundo ao perdão: "se observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá? Mas contigo está o perdão." O que faz subir não é a força de nadar, mas a səlîḥâ (o perdão) que está "com Deus".
Por isso o abismo termina em redenção, e não em afogamento.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Mimmaʿămaqqîm. "Das profundezas", mas não uma tristeza abstrata: o fundo das águas que afogam, o abismo sem pé, o lugar de onde nenhuma voz deveria sair e de onde não se sobe pelas próprias forças. De profundis. E é exatamente dali que o salmista clama a YHWH (qərāʾtîkā), grito endereçado, com destinatário, com nome.
O fundo das águas não é o fim da história; é o ponto de partida de um Cântico de Subida que termina na "copiosa redenção". Não se espera sair do abismo para orar. Ora-se, encharcado e sem fôlego, para sair.
E o que faz subir não é a força de nadar, mas o perdão que está com Deus.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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