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שָׁמַר (shamar) é um dos verbos mais frequentes da Bíblia hebraica, e o campo dele é o da custódia. Guardar aqui é tomar conta, manter sob responsabilidade, responder pelo que ficou aos seus cuidados.
A primeira aparição já entrega o tom. O homem é posto no jardim לְעָבְדָהּ וּלְשָׁמְרָהּ, para lavrá-lo e guardá-lo (Gênesis 2:15). Trabalho e custódia no mesmo par, a descrição exata de um encarregado de propriedade alheia.
Caim usa o particípio na resposta mais conhecida do capítulo seguinte: הֲשֹׁמֵר אָחִי אָנֹכִי, sou eu guardador do meu irmão? (Gênesis 4:9). A pergunta só tem peso porque a palavra nomeia encargo formal, não afeto.
Na bênção sacerdotal a mesma raiz volta como pedido: יְבָרֶכְךָ יְהוָה וְיִשְׁמְרֶךָ, o Senhor te abençoe e te guarde (Números 6:24).
O Salmo 121 leva a raiz ao limite. Ela aparece seis vezes em oito versículos: uma no terceiro, uma no quarto, uma no quinto, duas no sétimo e uma no oitavo.
A forma escolhida no quarto versículo é o particípio שׁוֹמֵר, shomer, o que guarda. Particípio hebraico descreve função em curso, não ato concluído. É a distância entre dizer que alguém guardou e dizer que alguém é o guarda.
O versículo também troca o endereço. Os vizinhos falam de שֹׁמְרֶךָ, o teu guarda, na segunda pessoa do singular. O quarto diz שׁוֹמֵר יִשְׂרָאֵל, o guarda de Israel. O viajante sozinho fica coberto pelo plantão do povo inteiro.
Os dois verbos derrubados são נוּם (num) e יָשֵׁן (yashen). O primeiro é cabecear, o cochilo de quem continua de pé com os olhos fechando. O segundo é dormir de fato, deitado.
A ordem forma uma escada. O terceiro versículo nega apenas num, o cochilo. O quarto repete a negação e acrescenta yashen. Negar somente o sono profundo deixaria aberta a fresta pequena, e é nela que um acampamento se perde.
A mesma raiz de shamar nomeia o próprio turno. אַשְׁמֹרֶת (ashmoret) é a vigília da noite, o bloco de horas de um guarda. Gideão ataca o acampamento no princípio da vigília do meio (Juízes 7:19), e o exército egípcio é alcançado na vigília da manhã (Êxodo 14:24).
Israel dividia a noite em três vigílias e Roma passou a dividir em quatro. De um jeito ou de outro, o vocabulário do versículo sai da escala de plantão: o guarda, o turno, o cochilo e o sono.
O grego da Septuaginta manteve os degraus: οὐ νυστάξει οὐδὲ ὑπνώσει ὁ φυλάσσων τὸν Ἰσραήλ. νυστάζω é cabecear, ὑπνόω é dormir, e φυλάσσων vem de φύλαξ, o sentinela de guarnição.
O latim seguiu a mesma trilha: non dormitabit neque dormiet qui custodit Israhel (Vulgata, c. 400). Custodire é ter sob custódia, formado sobre custos, o guarda. O português de Almeida herdou os três termos: dormitar, dormir e guarda.
Nos textos vizinhos a palavra tem o mesmo peso. No Salmo 127:1 a sentinela vigia em vão se o Senhor não guarda a cidade, e em Isaías 21:11 alguém grita da estrada a pergunta que todo turno espera: guarda, que houve da noite?
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