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A resposta de ontem Quais versículos o leitor recitava durante os golpes? A Mishná, no tratado Makkot 3.14, manda o leitor recitar Deuteronômio 28.58 e 59, depois Deuteronômio 29.9 e por último o Salmo 78.38: "Mas ele, sendo misericordioso, perdoou a sua iniquidade, e não os destruiu". Se a leitura acabasse antes dos golpes, ele recomeçava do primeiro verso. |
Imagine a porta de Belém numa manhã de colheita. A porta da cidade funcionava como tribunal e cartório: ali se sentavam os anciãos, ali se ouvia a queixa, ali se comprava campo diante de quem passava. Rute 4.1 conta que Boaz subiu à porta e esperou. Quando o parente passou, Boaz o chamou, e a Almeida traduz o chamado como “Ó fulano”. O narrador não registra o nome do homem. A palavra do versículo 7 para o calçado é naʿal (sandália, sapato). Era uma sola de couro presa ao pé por tiras, o calçado comum de quem andava pelas estradas de pedra da Judeia. O verbo é shālaf (arrancar, puxar para fora), o mesmo de Juízes 8.20, quando o jovem Jéter não arranca a espada da bainha. O parente puxa a sandália do pé com a mesma palavra. Por que o pé? Na Bíblia, pisar a terra é tomar posse dela. Em Josué 1.3, Deus diz a Josué: “Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado”. Andar sobre o campo declarava o dono. A sandália carregava o pé consigo. Entregá-la ao outro equivalia a dizer: este chão agora é seu para pisar. O vendedor ficava descalço diante do campo que deixava de ser dele. O Salmo 60.8 usa a mesma imagem como posse: “sobre Edom lançarei o meu sapato”. Atirar a sandália sobre uma terra era reclamar a terra para si. O versículo nomeia dois negócios: geʾullāh (resgate, a compra que devolve a terra à família) e temûrāh (troca, permuta). Os dois pediam testemunho público, e a sandália fazia o papel do recibo. A palavra para testemunho é teʿûdāh (confirmação, atestado). O gesto valia como assinatura. Não havia papel a guardar: havia dez anciãos que viram a sandália mudar de mão. O costume não nasceu só em Israel. Ernest R. Lacheman, numa nota publicada em 1937 no Journal of Biblical Literature, comparou a cena a contratos das tabuinhas de Nuzi, cidade da Mesopotâmia, onde o vendedor declarava ter levantado o pé da terra vendida. Na época do autor de Rute, o gesto já não se fazia. A expressão “já de muito tempo” marca a distância. O livro não diz quando foi escrito, e os estudiosos discordam: uns o põem na monarquia, outros depois do exílio na Babilônia. A tradição judaica seguiu adaptando a cena. O Targum de Rute, tradução antiga para o aramaico, troca a sandália pela luva da mão direita. Os tradutores já não reconheciam o calçado como contrato. Um detalhe fica em aberto no hebraico: quem recebe a sandália. O versículo 8 diz só que o parente “descalçou o sapato”. A maioria dos comentaristas entende que ele a deu a Boaz, mas o texto não descreve a mão que recebeu.
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