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Kanaph aparece cerca de cento e dez vezes na Bíblia hebraica, e a primeira acepção do dicionário é asa de ave.
Gênesis 1 fecha o quinto dia com as aves de asa, e Jó 39 descreve o gavião que estende as asas rumo ao sul.
A segunda acepção parece distante da primeira e não é. Kanaph é a extremidade, o ponto onde uma coisa termina e ainda se estica um pouco mais para fora do corpo.
Por causa da extremidade, Isaías 11:12 fala em juntar os dispersos de Judá dos quatro cantos da terra, arba kanphot ha'aretz, e Jó 38 mostra Deus pegando a terra pelas bordas para sacudir os perversos.
A lógica chega à roupa pelo mesmo caminho. O canto do manto é a extremidade do tecido, e é ali que a Torá manda pendurar as franjas: Números 15 pede tzitzit nos kanphei bigdeihem, com um cordão de azul, e Deuteronômio 22 fala das quatro pontas da coberta.
A ponta também carrega peso jurídico. Deuteronômio proíbe ao filho descobrir o kanaph do pai, e a frase não trata de roupa, trata da mulher do pai. Descobrir a aba é uma coisa. Estender a aba é o contrário.
Rute 2:12 usa o sentido de asa. O dono do campo pede que o Senhor pague o feito dela e que o salário venha completo, e o substantivo ali é maskoret, o pagamento devido a quem trabalhou.
A frase termina em refúgio: sob cujas asas, tachat kenaphav, vieste buscar abrigo. O verbo é chasah, o verbo de quem corre para dentro de uma fenda na rocha quando o tempo vira.
Duas coisas ficam registradas na bênção. O pagador é Deus, e a preposição é embaixo. O homem que fala está de fora da própria frase, torcendo.
Rute 3:9 devolve a mesma palavra com três mudanças pequenas e definitivas. Ela diz: estende a tua aba sobre a tua serva, porque tu és resgatador.
Primeira mudança, o plural vira singular. As asas de Deus são muitas. A aba de um homem é uma só, a que está no ombro dele naquela noite.
Segunda, a preposição embaixo vira sobre. Ninguém se abriga sozinho debaixo de uma aba parada, porque alguém precisa levantar o braço e estendê-la.
Terceira, entra um verbo onde antes havia só posição. Paras, abrir, desdobrar. É o verbo que Deuteronômio 32 dá à águia que abre as asas sobre os filhotes e os carrega, e é o verbo dos querubins que abrem as asas sobre a tampa da arca.
Ezequiel 16 mostra que a fórmula não era poesia solta. Deus diz a Jerusalém que estendeu sobre ela a sua aba, cobriu a sua nudez, jurou e entrou em aliança com ela.
Estender o kanaph sobre alguém era pedido de casamento em linguagem de tribunal, com efeito legal imediato sobre quem estendia.
A mulher da eira não devolveu um elogio. Ela pegou a bênção que tinha ouvido no campo e a endereçou a quem a pronunciou.
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