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Pense numa mãe que guarda a mochila do filho no mesmo lugar há anos, sem coragem de mexer. A tristeza dela não some numa semana, nem com conselho, nem com um passeio no domingo. Ela mudou de tamanho e foi morar dentro da casa. Gênesis 37 conta uma perda desse tamanho. Os irmãos de José, filho preferido de Jacó, venderam o rapaz a mercadores e levaram ao pai a túnica colorida dele, manchada com sangue de um cabrito. Jacó reconheceu a túnica e concluiu que um animal feroz tinha despedaçado o filho. O verso 34, na Almeida Revista e Corrigida: “Então, Jacó rasgou as suas vestes, e pôs pano de saco sobre os seus lombos, e lamentou a seu filho muitos dias.” O verbo traduzido por lamentou é, na Septuaginta, epenthei (pranteava, ficava de luto), forma de penthéō. O imperfeito aqui pinta um choro que se repete dia após dia, sem data para terminar. O verso 35 completa a cena. Todos os filhos e filhas tentaram consolar o pai, e ele recusou. Disse que desceria chorando ao Sheol (a sepultura, o lugar dos que partiram) por causa de José. Essa recusa é o detalhe que liga Gênesis a Mateus. Jacó não aceitou consolo de nenhuma pessoa da família. Em Mateus 5.4, o consolo prometido vem de outra fonte, e o verbo grego mostra qual. Serão consolados, no grego, é paraklēthēsontai, do verbo parakaleō (chamar para perto, confortar). A voz passiva aqui esconde o autor da ação de propósito: quem consola é Deus, e o texto evita escrever o nome dele por reverência. O Novo Testamento usa penthéō poucas vezes, e sempre com peso. Marcos 16.10 descreve os discípulos de luto e chorando logo após a crucificação. Tiago 4.9 manda o leitor transformar o riso em pranto pelos próprios erros. Para a tristeza comum, o grego tinha lypeō (entristecer-se). É o verbo do jovem rico em Mateus 19.22, que foi embora triste porque tinha muitos bens. Ele sentiu pena de perder dinheiro e seguiu a vida. Mateus podia ter escrito “felizes os tristes”. Escolheu o verbo do pai com a túnica rasgada, e com ele colocou na bem-aventurança a dor que não passa com uma boa noite de sono. Há ainda um eco de Isaías 61.2. O profeta anuncia alguém enviado para consolar todos os tristes, e a Septuaginta usa ali o particípio tous penthountas (os que estão de luto). Jesus ensinava como quem cumpre aquela promessa. A história de Jacó também tem desfecho. Gênesis 45 conta que José estava vivo no Egito, governando os celeiros do faraó. Quando os filhos contaram, o espírito de Jacó reviveu, e ele decidiu descer ao Egito para ver o filho.
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