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μωραίνω (mōraínō) é verbo, e verbo de juízo, não de paladar. Nasce do adjetivo μωρός, mōrós, que o grego usava para embotado, sem miolo, tolo, o sujeito que não corta mais.
Aparece quatro vezes no Novo Testamento: Mateus 5:13, o paralelo de Lucas 14:34, Romanos 1:22 e 1 Coríntios 1:20. Só nas duas primeiras o sujeito é sal. Nas outras duas é gente e é sabedoria.
O paralelo de Lucas usa outra moldura. Em Lucas 14:34 a frase fecha um bloco sobre calcular o custo antes de começar a obra, com a torre que fica pela metade e o rei que conta o próprio exército antes da batalha. Mateus coloca a sentença na abertura do sermão, como identidade entregue de graça, e Lucas coloca no fim de uma conta, como risco de quem começa e desiste no meio. O verbo é o mesmo nos dois.
Em Romanos 1:22 o verbo descreve quem se dizia sábio e emburreceu. Em 1 Coríntios 1:20, Deus reduz a tolice a sabedoria do mundo. Mesma raiz, mesmo resultado: capacidade de discernir que ficou sem fio.
A forma em Mateus é passiva. Eàn dè tò hálas mōranthê, se o sal for tornado tolo, aoristo passivo do subjuntivo. Não é decisão do sal, é algo que acontece com ele enquanto ele fica parado.
A pergunta seguinte é impossível de propósito. En tíni halisthḗsetai, com que será salgado? O remédio de qualquer coisa insossa é o sal, e é justamente o sal que está no banco dos réus.
A pergunta tem parente fora do Evangelho. O Talmude, em Bekhorot 8b, registra os sábios de Atenas perguntando com que se salga o sal quando o próprio sal estraga, e a resposta devolve outro absurdo do mesmo tamanho. O formato era conhecido de quem ouvia: a frase existe para mostrar que saída não há, e a armadilha aparece antes de qualquer tentativa de resposta.
O texto nunca diz que o sal some. Diz eis oudèn ischýei éti, não tem mais força para nada. Ischýō é verbo de força e capacidade, o mesmo campo do músculo, e não verbo de existência.
A frase final entrega o destino. Blēthèn éxō, lançado fora, e katapateîsthai, ser pisado, no infinitivo presente passivo. O tempo verbal descreve rotina, gente pisando de novo e de novo, não um acidente isolado.
Repare em quem pisa. Hypò tôn anthrṓpōn, pelos homens, gente comum de passagem. Ninguém organiza cerimônia de descarte, ninguém decreta nada: o material só troca de endereço, da mesa para o chão.
A língua de casa já unia os dois sentidos. Em aramaico, tafel serve tanto para comida sem sal quanto para conversa sem juízo, e a mesma raiz aparece em Jó 6:6, sobre a clara de ovo sem gosto, e na acusação de profecia tola em Lamentações 2:14. Quem ouvia o sermão na língua falada chegava ao trocadilho sem precisar do grego, porque no dia a dia sem sabor e sem miolo eram a mesma palavra.
A raiz deixou descendência ofensiva. Mōrós virou moron em inglês, termo cunhado no início do século vinte para classificar grau de deficiência, e de lá escorregou para o insulto que roda o mundo hoje.
A mesma raiz mora dentro de uma figura de linguagem. Oxímoro é oxýs, agudo, colado a mōrós, tolo. A figura que junta contrários carrega no próprio nome a esperteza e a burrice na mesma palavra.
E o grego chamava humor de sal. Sal ático era o elogio de quem falava com graça e corte, e Colossenses 4:6 manda temperar a palavra com sal. Nessa lógica, o oposto de salgado é sem graça.
A gramática entrega a cena inteira. Verbo de burrice em voz passiva, pergunta sem resposta possível, verbo de força no lugar do verbo de existir e um infinitivo de repetição no fim. O sal fica, a função vai.
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