| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Por volta da hora nona — três da tarde —, depois de três horas de trevas sobre toda a terra, Jesus pregado na cruz dá um grande brado. Mateus o registra primeiro no idioma em que foi dito, depois traduz: Ēlí, ēlí, lemà sabachtháni. "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"
É a quarta das sete palavras da cruz, e a maioria a lê como o ápice do desespero. Mas essas palavras não são um grito espontâneo de desolação. São uma citação. Jesus está recitando a primeira linha de um salmo que todo judeu conhecia de cor — o Salmo 22. E quem conhecia o salmo inteiro sabia onde ele terminava. Não no abandono. Na vitória.
O Evangelho de Mateus, escrito por volta de 80 a 90 d.C. para audiência judaico-cristã, é o que mais cita o Antigo Testamento. E o Salmo 22 é profundamente profético da paixão: descreve mãos e pés traspassados, ossos contados, vestes repartidas e sorteadas, zombadores que dizem "confiou no Senhor, livre-o ele". Tudo acontece literalmente ao redor da cruz. Quando Jesus pronuncia o verso 1, sinaliza que toda aquela cena é o cumprimento daquele salmo. E o salmo tem um fim.
A Palavra
As palavras que Mateus preserva são uma mistura linguística reveladora. Ēlí ("Deus meu") é hebraico, ou aramaico próximo do hebraico. Mas sabachtháni é inequivocamente aramaico, da raiz shebaq, "deixar, abandonar, largar". O Salmo 22:1 no hebraico original diz ʿazavtáni, da raiz ʿazav. Jesus, porém, não cita o hebraico literário do saltério: ele o diz na língua de casa, em aramaico. O salmo conhecido, recitado no idioma falado — o que torna o grito íntimo, real, encarnado, e não recitação litúrgica fria.
Mateus registra, logo a seguir, a confusão: alguns dos presentes, ouvindo Ēlí, ēlí, pensam que ele chama por Elias (Ēliyyáhu). O mal-entendido só faz sentido fonético — e o detalhe mostra que as palavras foram ditas exatamente assim.
Mas o coração do estudo é a citação. Nenhum judeu instruído ouviria a primeira linha do Salmo 22 sem completar mentalmente o salmo inteiro — era convenção rabínica citar a abertura de um texto para invocar a totalidade dele. E o Salmo 22 não para no lamento. A partir do verso 22 ele vira: "anunciarei o teu nome a meus irmãos... todos os limites da terra se converterão ao Senhor... pois o reino é do Senhor". A última palavra do salmo, no hebraico, é ʿasáh — "ele o fez", "está consumado". O salmo que começa em abandono termina em vitória cósmica.
Há duas leituras erradas, em direções opostas. A do desespero absoluto: "Jesus perdeu a fé na cruz". Mas um homem que perdeu a fé não recita Escritura; e ele ainda chama "Deus meu, Deus meu" — possessivo, relacional, mesmo na escuridão. A fé não desapareceu; está agarrada ao próprio salmo. O extremo oposto: "como era citação, o sofrimento não foi real". Mas o uso do aramaico cotidiano mostra o contrário: a oração de um homem em agonia real, em sua própria língua de casa. O abandono experimentado foi verdadeiro.
A leitura correta integra as duas: o grito é simultaneamente o ápice da dor e o início de uma profecia que termina em triunfo. Jesus invoca o Salmo 22 inteiro — do "por que me desamparaste" ao "ele o fez" do final. É o mesmo Jesus que horas depois dirá tetélestai, "está consumado", ecoando exatamente o verso final do salmo.
A fé bíblica não proíbe o lamento. O salmo de maior desolação está na boca do próprio Filho de Deus. O cristão pode gritar sua dor a Deus — e fazê-lo é fé, porque o grito ainda é dirigido a "meu Deus". Quem está no escuro raramente vê além do verso 1; mas a vitória do verso 31 já estava no texto antes de a dor do verso 1 ser pronunciada. A trajetória do lamento à vitória não foi improvisada na cruz; estava na Escritura havia mil anos.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Sabachtháni. A palavra aramaica do abandono, dita na língua de casa, abrindo o salmo que todo judeu sabia de cor. Mateus a preserva no original porque as palavras exatas importam: são uma citação, não um colapso. Jesus invoca o Salmo 22 — e quem conhece o salmo sabe que ele não termina em desamparo. Termina em vitória, em reinado, em "ele o fez". O grito da cruz é, ao mesmo tempo, o ápice da dor e o anúncio da consumação. Lamento real, fé agarrada, trajetória que já estava escrita até o fim. "Deus meu, Deus meu" — e o salmo termina com a terra inteira se voltando para ele.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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