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Abra Números, capítulo 19. A lei de Moisés trata ali do contato com a sepultura, e o versículo 16 não deixa brecha. Na mesma Almeida: “[...] ou nos ossos de algum homem, ou numa sepultura, será imundo sete dias.” Imundo, aqui, não quer dizer sujo. Quer dizer impedido de entrar no templo e de comer o sacrifício. Quem tocava um túmulo precisava de sete dias de purificação, com água e a cinza de uma novilha vermelha. Para o peregrino, a conta era simples e cruel. A Páscoa caía no dia 14 do mês de nisã. Um passo em falso a seis dias da festa tirava o viajante da mesa do cordeiro. A solução aparece na Mishná, a coleção das leis orais judaicas organizada pelo rabino Judá, o Príncipe, por volta do ano 200. O tratado Shekalim (siclos, sobre o imposto do templo), no capítulo 1, lista os trabalhos públicos do dia 15 de adar. Adar é o mês anterior a nisã, cerca de um mês antes da Páscoa. Nesse dia, diz o tratado, consertavam-se as estradas e as praças, e marcavam-se as sepulturas. A marca protegia quem ia chegar. Outro tratado da Mishná, Maaser Sheni (segundo dízimo), no capítulo 5, conta como se marcava. O túmulo recebia cal, desfeita em água e passada na pedra. A tinta branca era barata, durava a estação e se via a distância. Agora o grego de Mateus. A expressão é taphois kekoniamenois (sepulcros caiados). O verbo koniaō vem de konia, o pó da cal, e significa passar cal, branquear uma superfície com essa tinta. Mateus usa o particípio perfeito, forma que mostra uma pintura já feita e ainda visível. O túmulo da frase não está sendo pintado: ele já está branco, pronto para ser visto na estrada. O resto da comparação também tem peso. A palavra “formosos” traduz hōraioi, o mesmo adjetivo que Atos 3:2 usa para a porta do templo chamada Formosa. A sepultura pintada parecia, de longe, quase uma fachada de festa. Por dentro, diz o verso, havia ossos e “toda a imundícia”. O grego traz akatharsia (impureza ritual, o que afasta do culto). Jesus fala a língua da própria lei que os fariseus ensinavam com tanto cuidado. Lucas registra uma versão diferente da mesma acusação. Em Lucas 11:44, Jesus diz aos fariseus que eles são “como as sepulturas que não aparecem, e os homens que sobre elas andam não o sabem”. As duas imagens se completam. Em Lucas, o perigo é o túmulo sem cal, que contamina por estar escondido. Em Mateus, o túmulo tem cal, e o perigo está em confiar na pintura e chegar perto. Os estudiosos não sabem se Jesus usou as duas imagens em dias diferentes ou se os evangelistas guardaram uma fala só de dois jeitos. Os textos não trazem data para decidir, e nenhuma fonte antiga resolve a dúvida.
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