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Mateus 23:27: Os Sepulcros Branqueados

A cal da sepultura era um aviso: pintada no mês de adar, ela mostrava ao peregrino onde não pisar a caminho da Páscoa

Mão passando cal branca numa sepultura de pedra

A cal avisava o peregrino onde não pisar

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“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.” Mateus 23:27 chega ao português pela Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898.

A frase atende quem cuida muito da fachada e pouco da casa por dentro: o perfil arrumado, a reunião impecável, o sorriso na porta da igreja depois de uma semana de briga em casa.

Jesus disse essas palavras em Jerusalém, nos últimos dias antes da Páscoa. Mateus 21 a 23 narra a semana inteira: a entrada montado num jumentinho, a expulsão dos cambistas do templo, as perguntas armadas pelos líderes religiosos.

Mateus 23 junta sete “ais” contra os escribas, os copistas e professores da Lei, e contra os fariseus, o grupo que mais cobrava pureza no dia a dia. O sexto “ai” traz a imagem da sepultura pintada de branco.

Quem ouvia a frase naquela semana não precisava imaginar o objeto. Bastava olhar para os lados. Nos montes ao redor da cidade, os túmulos tinham acabado de receber cal.

A pintura era recente por um motivo prático. Milhares de peregrinos subiam a Jerusalém para a festa, a pé, por estradas de terra. Muitos dormiam ao relento e cortavam caminho pelos campos.

Um túmulo esquecido no meio do mato virava armadilha para esse viajante. Ele podia pisar sobre ossos sem saber e chegar à festa impedido de comer o cordeiro.

A cal resolvia o problema. Branca contra a pedra parda dos montes, ela gritava de longe: aqui tem morto, desvie. O túmulo pintado era o mais visível da paisagem.

O insulto de Jesus fere justamente aí. Ele não compara os líderes a uma sepultura escondida. Compara a uma sepultura que se anuncia, bonita por fora, e que mesmo assim contamina quem chega perto demais.

A faixa I abre a lei que exigia a pintura, a data em que os túmulos eram caiados e a palavra grega que Mateus escolheu para a cal.

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I  A Palavra

A cal do mês de adar

 

Abra Números, capítulo 19. A lei de Moisés trata ali do contato com a sepultura, e o versículo 16 não deixa brecha. Na mesma Almeida: “[...] ou nos ossos de algum homem, ou numa sepultura, será imundo sete dias.”

Imundo, aqui, não quer dizer sujo. Quer dizer impedido de entrar no templo e de comer o sacrifício. Quem tocava um túmulo precisava de sete dias de purificação, com água e a cinza de uma novilha vermelha.

Para o peregrino, a conta era simples e cruel. A Páscoa caía no dia 14 do mês de nisã. Um passo em falso a seis dias da festa tirava o viajante da mesa do cordeiro.

A solução aparece na Mishná, a coleção das leis orais judaicas organizada pelo rabino Judá, o Príncipe, por volta do ano 200. O tratado Shekalim (siclos, sobre o imposto do templo), no capítulo 1, lista os trabalhos públicos do dia 15 de adar.

Adar é o mês anterior a nisã, cerca de um mês antes da Páscoa. Nesse dia, diz o tratado, consertavam-se as estradas e as praças, e marcavam-se as sepulturas. A marca protegia quem ia chegar.

Outro tratado da Mishná, Maaser Sheni (segundo dízimo), no capítulo 5, conta como se marcava. O túmulo recebia cal, desfeita em água e passada na pedra. A tinta branca era barata, durava a estação e se via a distância.

Agora o grego de Mateus. A expressão é taphois kekoniamenois (sepulcros caiados). O verbo koniaō vem de konia, o pó da cal, e significa passar cal, branquear uma superfície com essa tinta.

Mateus usa o particípio perfeito, forma que mostra uma pintura já feita e ainda visível. O túmulo da frase não está sendo pintado: ele já está branco, pronto para ser visto na estrada.

O resto da comparação também tem peso. A palavra “formosos” traduz hōraioi, o mesmo adjetivo que Atos 3:2 usa para a porta do templo chamada Formosa. A sepultura pintada parecia, de longe, quase uma fachada de festa.

Por dentro, diz o verso, havia ossos e “toda a imundícia”. O grego traz akatharsia (impureza ritual, o que afasta do culto). Jesus fala a língua da própria lei que os fariseus ensinavam com tanto cuidado.

Lucas registra uma versão diferente da mesma acusação. Em Lucas 11:44, Jesus diz aos fariseus que eles são “como as sepulturas que não aparecem, e os homens que sobre elas andam não o sabem”.

As duas imagens se completam. Em Lucas, o perigo é o túmulo sem cal, que contamina por estar escondido. Em Mateus, o túmulo tem cal, e o perigo está em confiar na pintura e chegar perto.

Os estudiosos não sabem se Jesus usou as duas imagens em dias diferentes ou se os evangelistas guardaram uma fala só de dois jeitos. Os textos não trazem data para decidir, e nenhuma fonte antiga resolve a dúvida.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

A pintura da sua fachada

 

Pense na última semana. Em algum momento você caprichou na aparência de algo que por dentro estava em desordem: a mensagem educada para quem você ainda não perdoou, a foto do jantar em família depois da discussão no carro.

A cal, em si, não era pecado. Ela cumpria a lei e protegia o peregrino. O problema que Jesus aponta aparece quando a pintura passa a esconder, e não a avisar.

A primeira aplicação é separar a cal que avisa da cal que disfarça. Dizer “hoje não estou bem” é cal honesta: mostra onde o outro deve pisar com cuidado. Sorrir para encobrir uma mágoa grande é a outra.

A segunda aplicação olha para quem chega perto. O peregrino que confiava na pintura se contaminava do mesmo jeito. Filhos, cônjuge e colegas convivem com o que há dentro, e não com a fachada.

A terceira aplicação trata da data. Os túmulos eram caiados uma vez por ano, no mês de adar. A fachada exige retoque constante, e por dentro nada muda com a tinta nova.

Três passos, 25 minutos no total, levam o versículo para a sua semana.

1. Leia Mateus 23:25 a 23:28, em 5 minutos, e sublinhe as palavras “por fora” e “por dentro” em cada versículo.

2. Num papel, em 15 minutos, escreva três lugares em que você mantém pintura: um relacionamento, um hábito, um assunto que você evita. Ao lado de cada um, anote quem convive com o lado de dentro.

3. Escolha um dos três e conte o lado de dentro dele a uma pessoa de confiança, numa conversa de 5 minutos, ainda nesta semana.

O primeiro erro é concluir que a aparência não importa. A Mishná mandava pintar os túmulos, e Jesus não condena a cal. Ele condena a cal que serve de esconderijo.

O segundo erro é usar o versículo contra os outros. Mateus 23 começa com os discípulos e a multidão ouvindo, e o texto serve de espelho antes de servir de pedra. Os fariseus também liam a lei olhando para os vizinhos.

O terceiro erro é tentar limpar o lado de dentro com mais tinta. Em Mateus 23:26, um versículo antes, Jesus dá a ordem inversa: “limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo”.

A ordem do verso 26 vale para a sepultura do verso 27. A cura começa pelos ossos, pelo que ninguém vê, e só depois a fachada passa a combinar com o lado de dentro.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

A parede que Paulo chamou de branca

 

Cerca de 25 anos depois da Páscoa de Mateus 23, um prisioneiro de Tarso enfrenta o Sinédrio, o conselho judeu de Jerusalém. O preso é o apóstolo Paulo, e Atos 23 narra a sessão.

Paulo mal abre a defesa e o sumo sacerdote Ananias, filho de Nedebeu, manda os guardas baterem na boca do réu. A resposta sai em Atos 23:3, na mesma Almeida: “Deus te ferirá, parede branqueada”.

O verbo é o mesmo de Mateus 23:27, koniaō. Paulo chama o juiz de parede caiada: um homem sentado para julgar conforme a lei e que, contra a lei, manda ferir quem ainda nem foi ouvido.

Atos não diz se Paulo conhecia a frase de Jesus sobre os sepulcros. Ele não estava na Páscoa de Mateus 23, e o texto não traz nenhuma citação direta. A ponte entre as passagens é o verbo, e só ele.

A sorte de Ananias, porém, ficou registrado. O historiador judeu Flávio Josefo conta na “Guerra dos Judeus”, escrita por volta do ano 75, que rebeldes o encontraram escondido num aqueduto de Jerusalém em 66 e o executaram.

O próprio Paulo recua logo depois do insulto. Avisado de que falava com o sumo sacerdote, responde em Atos 23:5 que não sabia, e cita Êxodo 22:28: não se deve falar mal da autoridade do povo.

A cena mostra o apóstolo com a mesma tensão que o versículo descreve. Ele denuncia a fachada do juiz e, no instante seguinte, cuida da própria boca. A cal que ele aponta no outro o faz olhar para dentro.

Volte agora aos montes de Jerusalém, no dia 15 de adar. Um homem com balde e pincel passa de túmulo em túmulo. O trabalho dele não salva nenhum morto. Serve só para que os vivos cheguem inteiros à festa.

Jesus usa esse trabalhador para falar com os líderes. A tinta que eles carregam deveria proteger o peregrino, apontar o perigo, abrir o caminho do templo. A fachada deles faz o contrário: atrai e contamina.

O versículo deixa ao leitor uma escolha entre duas cales. Uma cobre o que está dentro e convida a chegar perto. A outra diz a quem passa onde pisar, porque o dono do túmulo já sabe o que há nele.

Onde a sua pintura está avisando, e onde ela está escondendo?

Hoje, antes de dormir: leia Mateus 23:26 duas vezes, escolha uma fachada da sua semana e escreva, em três linhas, o que existe por trás dela.

 
 
 
 
 
Quiz da edição

Segundo o tratado Shekalim da Mishná, em que dia do mês de adar as sepulturas eram marcadas com cal perto de Jerusalém?

ADia 1 de adar
BDia 10 de adar
CDia 15 de adar
DDia 30 de adar

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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