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Abra a bolsa de um cobrador na Galileia do século I. Dentro há moedas de prata de vários tamanhos, gregas, romanas e fenícias. Cada uma tem peso próprio, e o cobrador sabe de cabeça quanto cada uma vale diante do templo. A taxa que ele recolhe nasceu em Êxodo 30.13: meio siclo por pessoa, “oferta ao Senhor”. O siclo (peso de prata usado pelos hebreus) virou moeda com o tempo, e o meio siclo virou tributo anual de todo homem judeu de vinte anos para cima. Mateus chama o tributo de didrachma (duas dracmas). A dracma era a moeda grega de prata, de valor próximo do denário, que Mateus 20.2 mostra como a diária de um trabalhador da vinha. Duas dracmas por cabeça: dois dias de serviço por ano. O historiador judeu Flávio Josefo, nas “Antiguidades Judaicas”, publicadas em 93 ou 94, chama o mesmo tributo de duas dracmas. Era o nome corrente na região, e os leitores de Mateus entendiam o valor sem explicação. Havia um problema prático. Quase ninguém cunhava moeda de duas dracmas. A peça grande que circulava na Síria e na Galileia era o tetradracma (moeda de quatro dracmas), e a mais aceita pelo templo era o siclo de Tiro, de prata quase pura. A Mishná, compilação de leis judaicas fechada perto do ano 200, registra a regra no tratado Bekhorot: o dinheiro do santuário se paga em moeda de Tiro. O templo queria prata de teor confiável, mesmo com a cara do deus Melqart estampada. Agora o estáter. Em grego, statēr (o que se pesa na balança) era o nome de uma moeda padrão. Na Galileia daquele tempo, o estáter designava justamente a peça de quatro dracmas, o siclo de Tiro. Faça a soma. O imposto custa duas dracmas por cabeça. O estáter vale quatro. Uma moeda paga duas pessoas, sem troco e sem diferença. O texto não manda Pedro trocar a peça: ela vai inteira ao cobrador. A mesma Mishná, no tratado Shekalim, trata do câmbio dessas moedas e da pequena taxa cobrada na troca, o kolbon (ágio do cambista). E isenta da taxa quem paga o siclo por um pobre ou por um vizinho. O peixe completa o quadro. Guias de peregrinos chamam a tilápia do lago de peixe de São Pedro, mas Mateus não diz a espécie. O texto também não narra a pesca: termina na ordem de Jesus, e o evangelista não conta o anzol subindo. A pergunta do verso 25 tem chave própria. Os filhos de um rei não pagam tributo ao próprio pai. Se o templo é a casa do Pai de Jesus, o Filho estaria isento. O pagamento sai por outro motivo, dito no verso 27: não escandalizar os cobradores. Depois do ano 70, com o templo destruído, o imperador Vespasiano manteve as duas dracmas e mandou o dinheiro ao templo de Júpiter em Roma. Josefo registra a troca na “Guerra dos Judeus”, livro 7. Os primeiros leitores de Mateus talvez ainda pagassem a taxa.
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