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Marcos 2.4: O Teto Cavado

Na Galileia, o teto era viga, ramo e barro socado; Lucas, escrevendo a gregos, desceu o paralítico pelas telhas

Quatro homens abrindo um buraco num teto de barro e ramos

O teto galileu: vigas, ramos e barro socado

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“E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o paralítico.” Assim a Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898, traduz Marcos 2.4.

O versículo serve a quem já precisou levar alguém até a ajuda e achou a porta tomada: o caminho normal entupido, a fila parada, o atalho que suja as mãos.

A cena se passa em Cafarnaum, aldeia de pescadores na margem norte do mar da Galileia. Marcos 2.1 diz que Jesus estava em casa e que a notícia correu. Gente demais se juntou, e não sobrou lugar nem perto da porta.

Quatro homens chegam carregando um amigo paralítico deitado numa esteira. Não conseguem entrar. Então sobem ao teto da casa, abrem um buraco e descem o amigo, esteira e tudo, bem na frente de Jesus.

O detalhe que costuma passar batido está na segunda metade do versículo. A Almeida diz “fazendo uma abertura”, mas o grego de Marcos usa um verbo de terra e de ferramenta: cavar. Os amigos não levantaram uma tampa. Escavaram.

Lucas conta a mesma cura no capítulo 5 do seu Evangelho. No versículo 19, os amigos sobem ao telhado e descem o paralítico “por entre as telhas”. Ninguém cava nada. O buraco, desta vez, se abre tirando peças de barro cozido.

Os dois relatos não brigam. Cada autor descreveu o teto que o seu leitor conhecia. Marcos guardou a casa galileia como ela era. Lucas, que escrevia para um leitor de cultura grega chamado Teófilo, trocou o barro pelo telhado que esse leitor tinha sobre a cabeça.

Uma palavra de Marcos guarda, portanto, a arquitetura inteira de uma aldeia: as vigas, os ramos, o barro, o pó que caiu sobre a sala quando os quatro amigos começaram a escavar.

A faixa I desmonta o teto camada por camada e mostra por que só um verbo de enxada descreve o trabalho daqueles homens em Cafarnaum.

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I  A Palavra

Viga, ramo e barro socado

 

A resposta de ontem

Como o livro de Esdras chama o sumo sacerdote Josué?

Esdras 3.2 o chama de Jesua, filho de Jozadaque. Josué e Jesua são duas formas do mesmo nome hebraico, Yehoshua, "o Senhor salva". Quando a Septuaginta traduziu Zacarias para o grego, escreveu Iēsous, a mesma grafia que o Novo Testamento usa para Jesus. O réu de roupa suja carregava o nome do Salvador.

Imagine uma casa de Cafarnaum no século I. Paredes de basalto, a pedra escura da região, assentadas sem argamassa firme. Os cômodos se abrem para um pátio. Uma escada de pedra, do lado de fora, sobe até o teto plano.

O teto começava pelas vigas de madeira, apoiadas de parede a parede. Sobre elas, o construtor deitava ramos, caniços e palha trançada. Por cima vinha uma camada grossa de barro misturado com palha, socado até virar uma crosta dura.

As paredes de basalto eram fracas demais para segurar abóbada de pedra, e por esse motivo o teto ficava leve. Os arqueólogos franciscanos Virgilio Corbo e Stanislao Loffreda, que escavaram as casas de Cafarnaum a partir de 1968, descrevem esse padrão de cobertura leve sobre pedra solta.

O teto pedia cuidado. A chuva de inverno amolecia o barro e abria rachaduras, e o dono subia para refazer a crosta antes da estação seguinte. Andar ali em cima era rotina. Pedro, em Atos 10.9, sobe ao terraço para orar perto do meio-dia.

A Lei de Moisés já contava com gente no teto. Deuteronômio 22.8 manda construir um parapeito, uma mureta na borda, para que ninguém caia. Raabe, em Josué 2.6, esconde os espias sob talos de linho estendidos no terraço.

Agora o verbo. Marcos escreve apestegasan tēn stegēn (destelharam o teto), literalmente “tiraram a cobertura da cobertura”. O grego repete a raiz de stegē, que quer dizer cobertura, para frisar onde o trabalho aconteceu.

Logo depois vem exoryxantes, do verbo exoryssō (cavar para fora, escavar). O verbo serve para quem arranca terra de um buraco. Em Gálatas 4.15, Paulo usa o mesmo verbo para olhos que os gálatas teriam “arrancado” e dado de presente a ele.

O verbo de Marcos está no aoristo, tempo que aqui marca uma ação terminada antes da próxima: primeiro cavaram até abrir, só depois baixaram a esteira. A ordem dos gestos ficou gravada na forma da palavra.

Imagine o som dentro da casa. Jesus fala, a sala está cheia, e de repente cai terra do alto. Pedaços de barro seco, palha, poeira. Alguém olha para cima e vê luz entrando por um buraco que cresce.

Depois de quebrar a crosta, os quatro precisavam afastar ramos e caniços. Entre duas vigas, abriram espaço suficiente para uma esteira passar deitada. Desceram o amigo com cordas ou com as próprias mãos, e Marcos não diz qual dos dois.

A palavra para a cama também é de gente pobre. Marcos usa krabattos (catre, esteira de enrolar), a cama portátil de quem dormia no chão. Pesava pouco, e quatro homens a seguravam pelos cantos.

O dono da casa perdeu um pedaço do teto naquela tarde. O texto não conta quem pagou o conserto nem o nome do dono. Muitos comentaristas supõem que a casa era de Pedro, por causa de Marcos 1.29, mas o capítulo 2 não confirma.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

Os quatro que cavaram

 

Pense em alguém que você ama e que não chega sozinho até a ajuda de que precisa. Um pai que não aceita ir ao médico, uma amiga em crise, um colega afundado em dívida. A porta da frente está lotada.

Os quatro amigos de Cafarnaum enfrentaram a mesma porta. Marcos 2.4 diz que não conseguiam chegar perto “por causa da multidão”. A solução deles custou suor, sujeira e um teto alheio. Ninguém ali fez discurso; todos pegaram no barro.

O versículo seguinte mostra para onde o esforço levou. Em Marcos 2.5, Jesus vê a fé deles, dos carregadores, e só então fala com o paralítico. A fé, nessa cena, aparece primeiro nos braços de quem cavou.

Escavar um teto exige três decisões práticas, e as três cabem numa semana comum.

1. Identificar a porta entupida. Escreva o nome de uma pessoa e o obstáculo concreto que a impede de chegar à ajuda: distância, vergonha, dinheiro, agenda.

2. Achar a escada de fora. Toda casa galileia tinha um acesso lateral. Liste dois caminhos diferentes da porta: um telefonema a um médico conhecido, uma carona, uma visita sem aviso.

3. Chamar os outros três. O paralítico chegou nos braços de quatro. Mande mensagem a duas pessoas que também amam esse alguém e combine uma tarefa para cada, com dia marcado.

Três erros desviam o gesto. O primeiro é esperar a multidão ir embora. Em Marcos, a casa não esvazia; os amigos agem com ela cheia.

O segundo erro é cavar sozinho. Uma esteira com um homem deitado não desce por um buraco com um carregador só. Ajuda séria costuma pedir mais braços do que a gente gosta de pedir.

O terceiro erro é ignorar o dono do teto. Buraco aberto tem custo para alguém. Quem força uma passagem para ajudar deve contar com o conserto depois e se oferecer para fazê-lo.

Repare também na ordem que o verbo de Marcos guarda: primeiro cavar até abrir, depois descer. Muita ajuda para pela metade, com o buraco feito e a esteira ainda no telhado.

O texto não diz se os amigos voltaram depois para refazer o barro. Marcos encerra a cena com o paralítico saindo pela porta, carregando a própria esteira, à vista de todos, em Marcos 2.12.

A saída pela porta fecha o círculo. O homem que entrou pelo teto, carregado, sai pela entrada comum, andando. A multidão que bloqueava abre caminho para ele.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

As telhas de Lucas

 

Lucas, médico e companheiro de viagem de Paulo segundo Colossenses 4.14, abre o Evangelho com uma dedicatória a Teófilo, um leitor de nome grego. Escreve, diz ele, para que esse leitor conheça a certeza do que aprendeu.

Ao chegar à cura do paralítico, em Lucas 5.19, ele conta que os amigos subiram ao telhado e o desceram “por entre as telhas”. O grego diz dia tōn keramōn (através das telhas de barro cozido).

A palavra keramos, telha, deu “cerâmica” em português. Designa a peça de argila queimada no forno, encaixada em fileiras sobre os caibros. Era o telhado das cidades gregas e romanas, de Corinto a Antioquia, onde morava boa parte dos leitores de Lucas.

Para esse público, um teto de barro socado soaria estranho. Cavar um telhado? O leitor de Antioquia imaginaria uma pá batendo em telhas. Lucas resolveu a dificuldade trocando o material e preservando o gesto: abrir o teto e descer o amigo.

O comentarista britânico I. Howard Marshall, no comentário a Lucas publicado em 1978, lê a troca como adaptação ao leitor helenístico, isto é, de cultura grega. Outros lembram que casas mais ricas da Galileia também tinham telhas, e o debate segue aberto.

A troca diz algo sobre o próprio Evangelho. Lucas não guardou a palavra exata de Marcos; guardou o acontecimento. Mudou a casca para que o leitor estrangeiro enxergasse o mesmo buraco no teto e a mesma esteira descendo.

Os dois relatos juntos mostram a mesma fé chegando a duas casas. Na Galileia, ela cavou barro. Em Antioquia, levantou telhas. O material mudou com a cidade; os quatro amigos e o homem deitado ficaram iguais.

A cena pede uma leitura sobre o seu próprio teto. Todo mundo vive sob uma cobertura de algum material: rotina, orgulho, cansaço, o jeito como a família sempre resolveu os problemas.

Alguns tetos são de telha e se abrem levantando peças com cuidado. Outros são de barro velho e só cedem à enxada, com poeira caindo na sala. Saber de que material é o seu poupa força gasta no lugar errado.

O paralítico não escolheu o caminho. Foi carregado, ouviu o barro rachar e desceu de costas para a luz. A parte dele veio depois: levantar, pegar a esteira e sair andando.

Os quatro carregadores não têm nome em nenhum dos Evangelhos, nem em Mateus 9, que conta a mesma cura sem mencionar o teto. Ficaram anônimos. Deles sobrou um verbo de enxada em Marcos e um punhado de telhas em Lucas.

Hoje, até as 21 horas: leia Marcos 2.1 a 2.12 e Lucas 5.17 a 5.26 uma vez e anote um nome cujo teto você vai ajudar a abrir. Após o inverno, o dono subia ao barro rachado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que ferramenta de pedra ele rolava sobre o teto para socar o barro?

 
 
 
 
 
Quiz da edição

Por que Lucas, ao recontar em Lucas 5.19 a mesma cena de Marcos 2.4, troca o teto cavado por telhas removidas?

APorque a casa de Cafarnaum tinha dois tetos, um de barro para visitas e outro de telha para a família
BPorque escrevia para Teófilo, leitor de cultura grega que conhecia telhado de telha, não teto de barro socado
CPorque Marcos descreveu o teto errado e Lucas corrigiu o relato
DPorque o verbo grego exoryssō de Marcos já significa tirar telha, e a Almeida traduziu errado

Resultado da última edição: 93% acertaram.

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