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Pense num porteiro de casa grande no século I. A família dorme, a lamparina baixa, e ele fica sentado junto ao portão de madeira, de ouvido atento a passos na rua. O dono pode bater a qualquer momento. Marcos descreve esse posto com o verbo grēgoreō (ficar acordado, não deixar o sono vencer). Ele aparece três vezes entre 13.34 e 13.37, e o capítulo termina numa ordem de uma palavra só, dirigida a todos: vigiai. O verbo não pede guarda armada nem cálculo de datas. Pede olho aberto. O contrário dele vem no versículo seguinte: ser achado dormindo quando o dono entra pela porta. Os quatro horários têm nome próprio em grego. O primeiro é opse (tarde), o turno que começava ao pôr do sol, por volta das 18 horas, e ia até as 21. O segundo é mesonyktion (meia-noite), das 21 horas à meia-noite. O terceiro é alektorophōnia (canto do galo), da meia-noite às 3 da madrugada. O quarto é prōi (manhã), das 3 até o nascer do sol. A escala era militar. Os romanos chamavam cada turno de vigilia (vigília, turno de sentinela). O escritor romano Vegécio, no “Epitoma rei militaris”, do fim do século IV, explica a divisão em quatro: ninguém ficava de guarda a noite inteira. A tradição judaica contava três vigílias. Juízes 7.19 fala da “vigília média”, sinal de que havia três. Lucas 12.38 cita a segunda e a terceira. Marcos, escrevendo para leitores acostumados ao costume romano, prefere a escala de quatro. Agora a paixão. Marcos 14.17, na mesma Almeida: “E, chegada a tarde, foi com os doze.” É o primeiro turno. Na ceia, Jesus anuncia que um dos que comem com ele vai entregá-lo. O segundo turno não traz hora escrita. Depois do hino, o grupo sai para o monte das Oliveiras e chega ao Getsêmani já de noite fechada. Ali Jesus pede que vigiem, com o mesmo verbo de 13.35, e três vezes os acha dormindo. Em 14.37, a pergunta a Pedro é direta: “Simão, dormes? não podes vigiar uma hora?” O porteiro da parábola dormiu no posto, e o dono entrou e o achou assim. O terceiro turno ganha um galo de carne e pena. Marcos 14.72 diz que o galo cantou a segunda vez, e Pedro lembrou a palavra de Jesus: antes que o galo cante duas vezes, ele o negaria três. O quarto turno abre o capítulo 15. “E, logo ao amanhecer”, os principais sacerdotes fazem conselho, amarram Jesus e o entregam a Pilatos. A manhã do versículo vira a hora do tribunal romano. O teólogo inglês R. H. Lightfoot apontou o paralelo em “The Gospel Message of St. Mark”, de 1950. Marcos não comenta a ligação. Ele deixa os quatro horários no capítulo 13 e os repete no 14 e no 15, para o leitor juntar.
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