|
Imagine uma camisa branca com mancha de óleo de cozinha. Água pura não tira. Esfregar com a mão também não. É preciso algo que quebre a gordura, e quem lava roupa sabe que esse produto costuma arder nas mãos. Jerusalém tinha um lugar só para esse trabalho. Isaías 7.3 e 2 Reis 18.17 citam o Campo do Lavandeiro, junto ao aqueduto do tanque superior, fora das muralhas, porque o serviço exigia muita água e cheirava mal. O lavandeiro de Malaquias é, no hebraico, mekabbes (o que pisa e bate a roupa), do verbo kabas, lavar batendo. Ele entrava no tanque, pisava o pano encharcado e o batia contra a pedra até a sujeira soltar. O sabão que ele usava se chama borit (soda vegetal, sabão de cinza). A palavra vem da raiz barar, que significa purificar, separar o limpo do sujo. A própria palavra já dizia para que o produto servia. O borit saía da cinza de plantas do deserto e do litoral salgado, ricas em sais alcalinos. Queimava-se o mato, molhava-se a cinza e usava-se a água que escorria, forte o bastante para dissolver gordura e ferir a pele. A Bíblia usa borit só mais uma vez, em Jeremias 2.22, na Almeida Revista e Corrigida: “Pelo que ainda que te laves com salitre, e amontoes sabão, a tua iniquidade está gravada diante de mim, diz o Senhor Jeová.” Jeremias e Malaquias usam o mesmo sabão com sentidos opostos. Em Jeremias, o povo esfrega a si mesmo, gasta borit aos montes, e a mancha fica. Em Malaquias, quem pega o sabão é o próprio Senhor, e a roupa fica limpa. A outra oficina do verso é a do ourives, no hebraico metsaref (o que funde e refina), do verbo tsaraf, derreter metal para separar o puro. O fogo faz pela prata o que a cinza faz pelo pano. No cadinho, a escória sobe porque é mais leve que a prata derretida. O ourives a raspa com cuidado e devolve o metal ao fogo, até a superfície brilhar limpa. Provérbios 17.3 já comparava: o crisol é para a prata, e o Senhor prova os corações. Por que juntar as duas imagens? Uma trata do que está dentro, misturado ao metal. A outra trata do que gruda por fora, no tecido. Malaquias anuncia uma limpeza que alcança as duas camadas da pessoa. O verso 3 diz quem seria limpo primeiro: os filhos de Levi, os sacerdotes que tinham oferecido animais defeituosos. A purificação começava pelo templo, por quem servia no altar, e não pelos estrangeiros.
|