| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Jesus acaba de ser pregado à cruz. À sua volta, soldados sorteiam suas roupas; líderes zombam; a multidão observa. É o momento de maior abandono da narrativa. E é exatamente nesse ponto, segundo Lucas, que Jesus abre a boca, não para protestar, mas para interceder pelos próprios executores: Páter, áphes autoîs, ou gàr oídasin tí poioûsin. "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."
O português congela a frase num instante: parece que Jesus a disse, uma vez, e seguiu adiante. O grego conta outra coisa. O verbo que introduz a fala está num tempo que indica não um evento pontual, mas uma ação que se prolonga, que se repete. Da cruz, Jesus não disse uma vez. Ele continuava dizendo.
O Evangelho de Lucas é datado entre 80 e 90 d.C., o evangelho do perdão por excelência (filho pródigo, bom samaritano, publicano). Cabe uma nota textual honesta: a frase está ausente de alguns manuscritos antiquíssimos (o papiro P75, o Vaticano) e presente na maioria; os editores a imprimem entre colchetes.
De todo modo é antiquíssima e plenamente lucana. A oração é dirigida ao Pai sobre os algozes, é intercessão, não absolvição direta, e fundada na ignorância deles (ou gàr oídasin, "porque não sabem").
A Palavra
A chave não está no verbo "perdoar", mas no que introduz a fala: ho dè Iēsoûs élegen, "E Jesus dizia". Élegen é o imperfeito de légō ("dizer"), e o imperfeito grego não é um simples passado.
O grego distingue o aoristo, que apresenta a ação como um todo único, pontual ("ele disse", uma vez), e o imperfeito, que a apresenta como contínua, repetida, em andamento ("ele ia dizendo", "continuava dizendo"), o aspecto durativo ou iterativo.
Se Lucas quisesse registrar uma fala única e concluída, teria usado o aoristo eîpen ("disse"), exatamente o verbo que usa em outras falas pontuais da cena. Mas escolheu élegen. Enquanto era pregado, enquanto dividiam suas roupas, enquanto a zombaria subia, Jesus ia dizendo, repetidamente, "Pai, perdoa-lhes". A oração não foi um instante; foi um estado prolongado de intercessão atravessando toda a crucificação.
É preciso ser preciso quanto a qual verbo carrega a força iterativa. O conteúdo do pedido, "perdoa-lhes", é áphes: aoristo imperativo de aphíēmi ("soltar, deixar ir, perdoar"), que pede a ação como um todo: "concede o perdão". A repetição não está em áphes (pontual), e sim em élegen (a moldura).
O que se repetia era o ato de orar. E aphíēmi significa "enviar para longe, liberar o devedor da dívida": perdoar, no grego do NT, é literalmente mandar a dívida embora. Jesus pediu isso não uma vez, mas continuamente, do início ao fim do suplício.
Há duas leituras erradas, e ambas ignoram o aspecto verbal. A do gesto único: "Jesus, num rasgo de nobreza, disse uma frase de perdão e seguiu morrendo". Mas o imperfeito élegen desfaz isso: não foi lampejo, foi postura sustentada. Enquanto a dor crescia, a intercessão não cessava. O perdão da cruz não foi um momento, foi a respiração de toda a agonia.
A segunda errada é a sentimental: "Jesus perdoou todo mundo automaticamente, então pecado nenhum importa". Isso confunde intercessão com absolvição mágica. Ele não declarou "estais perdoados"; pediu ao Pai que perdoasse, fundado na ignorância dos executores. É oração, não decreto, a própria pregação apostólica posterior chamará esses homens ao arrependimento (Atos 2). A intercessão abre a porta; não dispensa o entrar.
A leitura correta vê o caráter contínuo do perdão divino, contra duas tentações: adiar o perdão ("perdoarei quando ele merecer"), mas o élegen mostra perdão suplicado durante a ofensa; e tratar o perdão como evento único ("eu já perdoei"), mas o imperfeito sugere algo que se faz repetidamente até firmar.
Quem já tentou perdoar uma mágoa profunda sabe que ela raramente cede de uma vez. E a observação cristológica: Hebreus 7:25 diz que Cristo "vive sempre para interceder". O que ele ia dizendo no Calvário, continua dizendo à direita do Pai.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Élegen. Não eîpen ("disse", pontual), mas élegen ("ia dizendo", contínuo). O imperfeito grego transforma a primeira palavra da cruz de frase isolada em estado prolongado: enquanto cravavam, enquanto zombavam, enquanto sorteavam, Jesus continuava intercedendo. Áphes, "manda a dívida embora", era o conteúdo do pedido; élegen era a sua repetição.
O perdão da cruz não foi um lampejo de nobreza. Foi a respiração de toda a agonia, e é a primícia de uma intercessão que ainda não terminou.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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