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Pense numa casa em época de festa: colchão na sala, criança dormindo no sofá, o quarto de visitas tomado desde a véspera. Ninguém foi expulso. Apenas não sobrou canto livre para mais uma família. Lucas 2.7 descreve uma casa nesse estado. A palavra traduzida por «estalagem» é katályma (quarto de hóspedes, o cômodo onde o visitante desfaz a bagagem). Ela vem do verbo katalýō, que quer dizer soltar, desatar. É o gesto de quem chega de viagem e desamarra a carga do animal, sinal de que vai passar a noite ali. A mesma palavra volta em Lucas 22.11. Jesus manda dois discípulos a Jerusalém perguntar ao dono de uma casa: «Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?» O grego do aposento é katályma de novo. O dono, segundo o versículo seguinte, mostra um cenáculo grande e mobiliado no andar de cima. A katályma da Última Ceia é um quarto de hóspedes numa residência particular, cedido para uma refeição de festa. Para hospedaria comercial, Lucas tem outra palavra. Em Lucas 10.34, o samaritano leva o homem ferido a um pandocheîon (estalagem, literalmente «lugar que recebe todos»), e no versículo 35 paga dois denários ao estalajadeiro pela estadia. O autor separa os dois lugares com cuidado. O pandocheîon tem dono, cobra e aceita qualquer viajante. A katályma pertence a uma família e recebe quem a família recebe. Lucas não escreveu que a hospedaria recusou o casal. Escreveu que o quarto de hóspedes já estava ocupado. Kenneth E. Bailey, estudioso presbiteriano que ensinou Novo Testamento em Beirute e Jerusalém por décadas, defendeu essa leitura no livro Jesus Through Middle Eastern Eyes (Jesus pelos olhos do Oriente Médio), de 2008. Para ele, José foi recebido por parentes, na parte principal da casa. A manjedoura entra no mesmo quadro. O grego é phátnē (cocho onde o animal come), e Lucas a menciona três vezes no capítulo: no versículo 7, no 12 e no 16. No 12 ela vira o sinal dado aos pastores para achar o menino. Um cocho dentro de casa camponesa não era cena de miséria extrema. Era a mobília que ficava à mão quando o cômodo de visitas estava cheio e a família precisava de um berço naquela noite. Traduções recentes acompanharam a leitura. A New International Version, na revisão de 2011, trocou «inn» (estalagem) por «guest room» (quarto de hóspedes) em Lucas 2.7. Em português, várias edições ainda mantêm «estalagem» ou «hospedaria». A palavra antiga continua bonita, mas carrega para dentro do texto um prédio comercial que Lucas não pôs ali.
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