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Lucas 2.7
Não havia lugar para eles no quarto de hóspedes
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A manjedoura no cômodo da família
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«E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.» João Ferreira de Almeida verteu assim Lucas 2.7, no Novo Testamento impresso em 1681, e a frase ainda molda o presépio que muita família monta em dezembro. No presépio de casa, a cena costuma vir pronta. Um casal cansado bate em portas, um dono de pensão balança a cabeça, e o menino acaba num estábulo de madeira, longe de todo mundo. Quase nada dessa cena está no versículo. Lucas não fala de porta batida, de hospedeiro mal-humorado nem de estábulo. Fala de panos, de uma manjedoura e de um lugar que estava cheio. A palavra que Almeida traduziu por estalagem é katályma (lugar onde se desata a bagagem). Em outra passagem do mesmo evangelho, ela designa o cômodo onde Jesus comeu a Páscoa com os discípulos. Quando Lucas quer falar de hospedaria de verdade, com dono e pagamento, usa outro termo. Ele aparece uma só vez no Novo Testamento, na parábola do samaritano, no capítulo 10. Belém era pequena, e José voltava à cidade dos antepassados, a cidade de Davi. Num lugar assim, quem chega de viagem procura parente, não pensão. A casa que recebeu o casal provavelmente já tinha hóspedes no quarto reservado a eles. A troca de palavra muda a cena inteira. Sai o estábulo isolado, entra uma casa cheia de gente, com um canto onde os animais passavam a noite e uma manjedoura cavada no chão ou encostada à parede. Ninguém rejeitou Maria na porta. Faltou espaço no quarto de hóspedes, e a família acomodou a mãe e o recém-nascido no cômodo principal, onde a casa inteira dormia, cozinhava e guardava o jumento. A seção I mostra onde a palavra aparece nos evangelhos, por que o português escreveu estalagem e o que o samaritano de Lucas 10 ensina sobre a diferença. Continue lendo ↓
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I A Palavra
Dois nomes para pousar
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Pense numa viagem de família para o interior. Você chega na casa da tia, larga a mala num quarto dos fundos e só então senta à mesa. Aquele quarto não é hotel: é da casa, cedido por alguns dias. Lucas 2.7 usa para esse espaço a palavra katályma (quarto de hóspedes, pouso). Ela vem do verbo katalýō (soltar, desatar), o gesto de quem desamarra a carga do animal ao chegar. O próprio Lucas mostra o sentido em 22.11. Jesus manda Pedro e João dizer ao dono de uma casa em Jerusalém: «Onde está o aposento em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?» O aposento do versículo é katályma. O dono mostra aos dois um cenáculo grande e mobiliado, em 22.12. Marcos 14.14 conta a cena com o mesmo termo grego. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento feita por judeus de Alexandria entre os séculos 3 e 1 antes de Cristo) já usava a palavra para sala de casa. Em 1 Samuel 9.22, Samuel leva Saul à câmara onde trinta convidados comiam. Agora a estalagem de verdade. Em Lucas 10.34, o samaritano encontra um homem ferido na estrada de Jericó, trata as feridas com azeite e vinho, põe o homem no próprio animal e o leva a um pandocheîon (hospedaria pública). Pandocheîon quer dizer, ao pé da letra, lugar que recebe todos. Tinha dono, o pandocheús (hospedeiro), e cobrava. No versículo seguinte, o samaritano entrega dois denários ao hospedeiro e promete pagar o que faltar na volta. O contraste é do próprio Lucas. Ele conhecia as duas palavras, usou uma para a hospedaria da estrada e outra para o quarto de uma casa. Em 2.7, escolheu a da casa. Kenneth E. Bailey, que ensinou Novo Testamento em Beirute e Jerusalém por décadas, descreveu a casa camponesa da Palestina antiga no livro Jesus Through Middle Eastern Eyes (Jesus pelos olhos do Oriente Médio), de 2008. Segundo Bailey, a família vivia num cômodo principal, e o nível mais baixo, perto da entrada, recebia a vaca e o jumento à noite. As manjedouras ficavam cavadas no piso da parte mais alta, ao alcance dos animais. Em 2010, Stephen C. Carlson publicou na revista New Testament Studies um artigo sobre as acomodações de José e Maria em Belém. Ele concluiu que katályma indica o espaço de hóspedes, pequeno demais para um parto. A tradição do estábulo e do hospedeiro veio depois, de textos e pregações posteriores aos evangelhos. Lucas não menciona hospedeiro em 2.7, e nenhum personagem do capítulo recusa o casal. Por que Almeida escreveu estalagem? A Vulgata de Jerônimo, concluída por volta de 405, traz «in diversorio» (na pousada). Muitas traduções europeias seguiram o latim, e o português herdou a pensão. Várias traduções recentes corrigiram a leitura. A New International Version, na revisão de 2011, trocou inn (estalagem) por guest room (quarto de hóspedes).
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II Aplicação Prática
O canto que ainda cabe
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Pense na última vez que alguém apareceu na sua casa sem aviso. Um primo de passagem, uma amiga depois de uma briga, o filho que voltou com as malas. O quarto extra estava ocupado, ou nem existia. A casa de Belém enfrentou a mesma situação. O katályma (quarto de hóspedes) tinha gente, e a família não mandou José e Maria procurar outra porta. Abriu o cômodo principal, onde se cozinhava, dormia e guardava os animais. A manjedoura entra aí. Era o cocho de pedra ou de barro onde os bichos comiam, o objeto mais à mão num cômodo cheio. Maria forrou o cocho com panos e fez dele berço. Lucas conta a improvisação sem queixa. A hospitalidade do versículo não depende de quarto sobrando. Depende de abrir o espaço que a família já usa todo dia. O Novo Testamento volta ao tema em Hebreus 13.2: «Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.» Os três passos abaixo levam vinte minutos e cabem num fim de tarde. 1. Primeiro passo, cinco minutos. Ande pela casa e anote três lugares onde uma visita poderia sentar, comer ou passar a noite hoje, sem reforma: o sofá, uma ponta da mesa, um colchão guardado. Na lista aparece o que a casa já oferece. Poucas famílias têm quarto de hóspedes, e a de Belém mostra que ele nunca foi condição para receber alguém. 2. Segundo passo, dez minutos. Deixe um desses lugares pronto: lençol limpo dobrado, uma toalha separada, um prato a mais no armário da frente. O preparo pequeno reduz a hesitação quando o telefone tocar. 3. Terceiro passo, cinco minutos. Escolha uma pessoa que anda sem mesa, alguém que mora sozinho, mudou de cidade ou passa por luto, e marque uma refeição na sua casa nos próximos sete dias, com dia e hora. Um exemplo do formato: «Terça, 19h30, jantar com o vizinho do 42». Outro: «Domingo, 12h, almoço com a colega recém-chegada». O primeiro erro é esperar a casa ficar perfeita. A família de Belém recebeu um parto no cômodo dos animais. A visita lembra da mesa posta, raramente da pintura da parede. O segundo erro é ler a manjedoura como rejeição. Quem lê Lucas 2.7 como história de portas fechadas tende a repetir o papel do hospedeiro inventado, e esquece a família que abriu o próprio cômodo. O terceiro erro é transformar o convite em evento. Bastam uma panela, um lugar à mesa e uma hora combinada. A hospitalidade do capítulo 2 teve panos e um cocho.
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