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Lucas 12.6: O Quinto Pardal

Dois pardais custavam um ceitil, cinco saíam por dois: o quinto ia de graça, e é dele que Jesus diz que Deus não se esquece

Cinco pardais no barbante e duas moedas de cobre

O quinto pardal ia de brinde na feira

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“Não se vendem cinco passarinhos por dois ceitis? E nenhum deles está esquecido diante de Deus.” Assim a Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898 da tradução de João Ferreira de Almeida, traduz Lucas 12.6.

A frase parece uma conta de feira, e é justamente na conta que ela guarda o recado para quem se sente sobrando em casa, no trabalho ou na igreja.

Abra agora em Mateus 10.29, na mesma tradução: “Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai.” Os dois evangelistas registram a mesma fala de Jesus, com números diferentes.

Em Mateus, um ceitil compra dois pássaros. Em Lucas, dois ceitis compram cinco. Se o preço fosse proporcional, dois ceitis comprariam quatro. A quinta ave aparece na conta sem custar nada.

O ceitil era a menor moeda de cobre que circulava na Palestina sob Roma. Um denário, a diária de um trabalhador do campo segundo Mateus 20.2, valia dezesseis dessas moedas. Dois ceitis eram troco miúdo.

O pássaro também era o mais barato da praça. O Édito de Preços Máximos que o imperador Diocleciano publicou em 301 coloca os pardais entre as aves de menor preço da tabela, e o teólogo alemão Adolf Deissmann usou esse documento em 1908, no livro “Luz do Oriente”, para ler estes versículos.

Quem comprava pardal era gente pobre. Servia de comida barata, espetado no fogo, e de oferta no templo para quem não podia pagar um cordeiro nem um par de rolas.

O vendedor da feira, então, fazia o que todo feirante faz até hoje: leve quatro, ganhe mais um. A quinta ave entrava no barbante para fechar negócio. Ninguém pagava por ela, e ninguém a contava.

Jesus conta. E escolhe justamente essa ave de brinde para dizer que nenhuma delas está esquecida diante de Deus.

A faixa I mostra a cena da banca e a palavra grega que Lucas usa para o esquecimento, e explica por que ela pesa sobre o pássaro que não custou nada.

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I  A Palavra

A ave que não entrou na conta

 

Pense numa banca de pedra perto da porta de Jerusalém, ao amanhecer. O vendedor amarra os pardais pelas patas, de dois em dois. Um comprador mostra duas moedinhas de cobre. O vendedor junta quatro aves e, para fechar a venda, amarra uma quinta no mesmo barbante.

Lucas registra o resultado sem explicar a promoção. Ele só diz cinco por dois. O leitor da época entendia na hora, porque comprava na mesma feira. A ave extra não tinha preço próprio: valia zero na conta do vendedor.

A palavra que a Almeida traduz por “passarinhos” é strouthíon (pardal, passarinho pequeno). O sufixo grego já diminui a ave. Era o bicho de quintal, o que cabia na mão de uma criança e enchia pouco a panela.

Agora a frase central. Lucas escreve ouk éstin epilelēsmenon enṓpion tou theoû (não está esquecido diante de Deus). O verbo é epilanthánomai (deixar escapar da memória, perder de vista), o mesmo de quem sai de casa e larga a chave em cima da mesa.

A forma usada é um particípio perfeito, o que em português quer dizer: não foi esquecido em momento algum, e continua lembrado agora. O esquecimento, no texto, não acontece nem por um instante.

Repare na troca entre os dois evangelistas. Mateus fala do pardal que cai em terra, ou seja, do fim da ave, e diz que nenhum cai sem a vontade do Pai. Lucas fala do pardal que está na feira, ainda vivo, ainda à venda.

Os dois falam do cuidado de Deus, cada um num momento da vida do pássaro. Mateus olha a queda. Lucas olha o balcão, onde a ave nem tinha preço. Juntos, cobrem a banca e o chão.

O versículo seguinte, Lucas 12.7, completa a fala: “E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos.” Jesus vai do pássaro mais barato aos fios de cabelo, a menor parte do corpo.

O argumento parte do menor para chegar ao maior. Se nem a ave de brinde some da memória de Deus, quem ouve a fala também não some. A lógica era conhecida dos rabinos da época, que a chamavam de “leve e pesado”, do caso fácil para o caso difícil.

E onde Jesus disse tudo? Lucas põe a fala num dia de multidão tão grande que as pessoas se pisavam, como abre o capítulo 12. No meio de milhares, ele fala de um pássaro que ninguém contava.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O quinto da sua casa

 

Quase todo mundo já se sentiu o quinto pardal. O funcionário que entrou no pacote da fusão, o filho do meio, o voluntário que ninguém lembra de agradecer, a pessoa que só é chamada quando falta alguém.

O sentimento costuma vir com uma conta escondida: “se eu sair, ninguém percebe”. Lucas 12.6 responde a essa conta com outra. Para o vendedor, a quinta ave não pesava no preço. Para Deus, ela continuava lembrada.

O texto não promete que os outros vão notar você. O vendedor nunca notou o quinto pardal, e o comprador provavelmente também não. A promessa é sobre a memória de Deus, que segue funcionando quando a dos outros falha.

A primeira aplicação é trocar quem faz a conta. Escreva quem, na sua semana, decidiu quanto você vale: o chefe, o grupo da família, o número de curtidas. Depois leia Lucas 12.6 ao lado da lista.

A segunda aplicação é perceber os seus próprios quintos pardais. Toda casa tem alguém que entra no pacote sem ser contado: o porteiro, a avó calada no almoço, o colega novo. Você também faz contas de feira.

A terceira aplicação é levar a fala até o fim. Lucas 12.4 e 12.5, logo antes, falam de medo. A frase dos pardais nasce para quem tem medo de gente poderosa, e termina em Lucas 12.7 com “não temais”.

Três passos, 20 minutos somados, põem o versículo em prática.

1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Lucas 12.4 a 12.7 e Mateus 10.28 a 10.31, e marque as duas contas: dois por um, cinco por dois.

2. Segundo passo, 10 minutos. Escreva o nome de três pessoas que, na sua casa ou no seu trabalho, entram no pacote sem ser contadas.

3. Terceiro passo, 5 minutos. Escolha uma das três e mande hoje uma mensagem curta dizendo por que ela fez falta ou faz diferença.

O primeiro erro é ler o versículo como garantia de vida sem queda. Mateus diz com todas as letras que o pardal cai. O cuidado de Deus acompanha a queda, e o texto não a cancela.

O segundo erro é usar o pardal para se diminuir. Jesus diz que você vale mais que muitos passarinhos. O ponto da comparação é o valor, e a fala termina pedindo coragem, nunca vergonha.

O terceiro erro é guardar a frase só para si. Quem descobre que não está esquecido costuma enxergar melhor quem está esquecido ao lado. A ave de brinde também tem vizinho de barbante.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

Contado na feira

 

Volte à banca de pedra. O comprador vai embora com cinco pássaros no barbante e duas moedas a menos. Em casa, ninguém vai separar o quinto dos outros quatro. Todos vão para o mesmo fogo, ou para o mesmo altar.

Os evangelhos não dizem qual foi o destino daquelas aves, porque elas são um exemplo da fala, e não personagens. O que o texto afirma é o lugar delas diante de Deus: nenhuma esquecida, nenhuma caída sem a vontade do Pai.

A palavra epilelēsmenon (esquecido) aparece de novo no Novo Testamento em Hebreus 6.10, com a mesma raiz: Deus não é injusto para se esquecer do trabalho e do amor que vocês mostraram. O verbo volta, agora sobre o serviço que ninguém aplaudiu.

O Antigo Testamento já conhecia a ideia. Isaías 49.15 pergunta se uma mulher pode se esquecer do filho que amamenta, e responde que, mesmo que ela se esqueça, Deus não se esquece. O pardal de Lucas repete o recado em tamanho de feira.

Há também um detalhe que o texto deixa no ar e que não se resolve. Ninguém sabe se Jesus usou dois preços em ocasiões diferentes ou se os evangelistas registraram a mesma fala com números diferentes. As duas versões estão no texto, e nenhuma explica a outra.

O que se sabe é que, nas duas, o preço só existe para mostrar quanto a ave valia no mercado. E nas duas a conclusão contradiz o mercado. O que custava quase nada continua sob os olhos de Deus.

Ninguém pede a você que pese pardais numa feira de Jerusalém. A balança costuma estar mais perto: a mesa do almoço de domingo, a reunião em que seu nome não apareceu, o grupo em que sua mensagem ficou sem resposta.

Qual conta de feira fez você se sentir o pássaro de brinde nesta semana?

Hoje, até as 22 horas: leia Lucas 12.6 e 12.7 uma vez, escreva num papel o nome de uma pessoa que costuma ficar fora da conta e mande a ela uma mensagem de duas linhas.

 
 
 
 
 
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