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Imagine a Sala da Pedra Talhada, no pátio do templo, antes do sol. Os sacerdotes do turno ficam de pé, em círculo. O encarregado anuncia um número, tira o turbante da cabeça de um deles e começa a contar a partir dali. Cada sacerdote estendia um dedo, às vezes dois. A contagem corria pelos dedos, nunca pelas cabeças, e o dedo onde o número parava ganhava a tarefa. O método está na Mishná (a coletânea das leis orais judaicas, fechada perto do ano 200), tratado Yoma, capítulo 2. O mesmo capítulo conta por que se sorteava. Antes, ganhava a tarefa quem chegasse primeiro ao topo da rampa do altar. Um dia, dois sacerdotes subiram correndo, um empurrou o outro, e o que caiu quebrou a perna. Os sábios trocaram a corrida pelo sorteio. Eram quatro sorteios por manhã. O terceiro era o do incenso, e o encarregado o abria com uma frase que a Mishná guarda em Yoma 2.4 e em Tamid 5.2. Na tradução livre: “Os novos para o incenso, venham e tirem a sorte.” A palavra “novos” fazia a regra. Só entrava quem nunca tinha queimado incenso. Os veteranos ficavam de fora, mesmo que fossem mais velhos ou mais respeitados. O sorteio servia para espalhar a honra, não para premiar a experiência. A Mishná não explica o motivo nesse trecho. O Talmude Babilônico, comentário à Mishná fechado perto do ano 500, dá um em Yoma 26a: a oferta de incenso trazia prosperidade a quem a fazia, e a bênção devia circular entre todos. Quantos disputavam? Flávio Josefo, sacerdote nascido em Jerusalém, escreve em “Contra Ápion”, livro 2, de cerca do ano 95, que havia quatro tribos de sacerdotes com mais de 5 mil homens cada. São mais de 20 mil sacerdotes em revezamento. Divididos em 24 turmas, dá perto de 800 homens para cada turma, com duas semanas de serviço por ano. O incenso queimava duas vezes por dia, de manhã e à tarde, como manda Êxodo 30.7 e 30.8. Pela conta, a turma tinha umas 28 entradas no Santo por ano para centenas de candidatos. A conta é aproximada, porque nem todo sacerdote subia em todo turno, mas mostra o tamanho da espera: muitos envelheciam sem ver o altar de ouro. O verbo de Lucas, lanchánō (obter por sorte), aparece em outros dois lugares do Novo Testamento. Em João 19.24, os soldados tiram a sorte da túnica de Jesus. Em Atos 1.17, Pedro diz que Judas recebeu por sorte o seu lugar no ministério. Nos três casos, a palavra descreve algo que chega sem ser escolhido por quem recebe. Lucas não diz que Zacarias mereceu a vez. Diz que ela coube a ele, como cabia a qualquer outro dedo erguido naquela sala. Lucas também não diz quantos anos Zacarias tinha nem há quanto tempo servia. O texto registra só que o casal era “avançado em idade”, em Lucas 1.7. Nenhuma fonte antiga informa a idade dele, e os comentaristas não arriscam número.
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