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Imagine o soldado efraimita com água pela cintura, cansado da batalha, e um guarda de Gileade parado na margem com a lança na mão. Ele pede passagem. O guarda pede uma palavra. A palavra era shibbólet (espiga de trigo, ou correnteza de rio). O hebraico usa o mesmo som para os dois sentidos, e a frase em volta decide qual deles o texto quer. Em Gênesis 41.5, no sonho do faraó, a palavra descreve as espigas cheias que brotam de uma haste só. Em Salmos 69.2, na Almeida, ela descreve a água que arrasta: “entrei na profundeza das águas, onde a corrente me leva”. No vau do Jordão, o segundo sentido salta à vista. O guarda pedia ao fugitivo que pronunciasse a palavra da própria água que ele tentava atravessar. A correnteza virou senha de fronteira. A Almeida grafou Chibolete e Sibolete, com “ch” e com “s”, para o leitor de português ouvir a diferença. O hebraico marca a troca numa letra só: shin, a letra do som chiado, na boca de Gileade. Na boca de Efraim, saía samech, a letra do “s” simples. O texto acrescenta que o efraimita “não podia pronunciar bem”. Não era teimosia nem descuido: o som faltava no falar dele, e ninguém aprende pronúncia nova com uma lança apontada. Juízes 12.1 conta a origem da briga. Os homens de Efraim cruzaram o Jordão até a casa de Jefté, o gileadita que acabara de vencer os amonitas, povo vizinho a leste. A queixa: ele não os chamou para a guerra. A ameaça veio em seguida, na mesma Almeida: “queimaremos a fogo a tua casa contigo”. Jefté respondeu que chamou, sim, e ninguém de Efraim apareceu. Ele arriscou a vida sozinho com os homens dele e venceu. Juízes 12.4 traz o insulto que acendeu a batalha. Os efraimitas disseram aos gileaditas: “Fugitivos sois de Efraim”. Tratavam a gente de Gileade como desertores sem terra própria, gente que tinha fugido da tribo maior. Jefté sabia o peso de uma marca de origem. Juízes 11.1 o apresenta como filho de uma prostituta, expulso de casa pelos irmãos e criado longe da família. O homem rejeitado pela origem montou no rio uma prova de origem. Ele reuniu os homens de Gileade, venceu Efraim e ocupou os vaus. A guerra se transformou em triagem na beira da água, um por um, palavra por palavra. Sobre o número, George Mendenhall propôs, num artigo de 1958 no Journal of Biblical Literature, que a palavra hebraica ʾelef (mil) às vezes indica uma unidade militar, o contingente de um clã. Lida assim, a conta do versículo cairia para quarenta e dois contingentes, um total bem menor de homens. A leitura divide os estudiosos, e o texto hebraico não traz dado para decidir entre as duas.
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