|
Imagine um campo de trigo em Judá, na semana antes da colheita. No horizonte surge uma mancha escura que zumbe. Joel, filho de Petuel, como a própria profecia o apresenta em Joel 1.1, viu cenas assim e escolheu quatro palavras para contá-las. A primeira é gazam (o cortador). Vem de um verbo ligado a tosquiar e aparar. A Almeida traduz por lagarta, mas o hebraico pensa na boca que corta a folha rente ao talo. A segunda é arbeh (o enxame), a palavra mais comum para gafanhoto na Bíblia hebraica. Ela cobre o Egito na oitava praga, em Êxodo 10.4 a 10.15. A raiz lembra o verbo multiplicar: o bicho ganha nome pela quantidade. A terceira é yeleq (o lambedor). A palavra sugere a língua que passa sobre a folha já roída e leva o verde restante. A Almeida põe aqui locusta, termo que o leitor de hoje quase não usa. A quarta é hasil (o que acaba). A mesma raiz aparece em Deuteronômio 28.38, na Almeida: “Lançarás muita semente ao campo; porém colherás pouco, porque o gafanhoto a consumirá.” O consumir desse versículo é o verbo de hasil. A Almeida chama hasil de pulgão. A escolha soa fraca para o bicho que encerra a devastação, mas os tradutores portugueses não tinham quatro palavras de uso comum para quatro gafanhotos e recorreram a pragas conhecidas da lavoura. Os estudiosos discordam sobre o que os quatro nomes designam. Uma leitura vê quatro espécies. Outra vê fases da vida de um só inseto, da ninfa que salta ao adulto que voa. Uma terceira lê os nomes como poesia, sinônimos empilhados para dar peso à perda. O texto não decide entre as três, e a zoologia antiga não ajuda: os hebreus não classificavam insetos como a biologia moderna. Nenhuma fonte da época resolve a questão, e ela segue aberta. A lógica do versículo, por outro lado, é segura. Joel monta uma corrente: o que ficou de um vira comida do próximo, quatro vezes seguidas. O que escapou do primeiro golpe só esperava o segundo. Jerônimo de Estridão, no comentário a Joel escrito por volta de 406, leu os quatro gafanhotos como impérios estrangeiros que se sucederam sobre Judá. A leitura dele mostra como a fila do versículo serviu, desde cedo, para pensar perdas em série. Em Joel 2.25, Deus promete devolver o que a praga levou, e a fila aparece de novo. Na mesma Almeida: “E restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto, a locusta, e o pulgão e a lagarta”. Joel 1.6 dá outro retrato do mesmo ataque: uma nação poderosa e sem número, com dentes de leão. O profeta compara o enxame a um exército, e a comparação volta no capítulo 2, quando a praga marcha como cavalaria. O cortador, primeiro da fila em 1.4, vai para o último lugar em 2.25. O texto não comenta a mudança. A promessa, porém, cobre os quatro nomes, inclusive o golpe que abriu a sequência.
|