| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Jó 19:25 é um dos versículos de consolo mais citados que existem. "Eu sei que o meu Redentor vive" é lido em velórios, cantado no Messias de Händel, impresso em cartões de pêsames. Soa como uma esperança morna e vaga: um dia tudo vai ficar bem, Deus está em algum lugar cuidando. Um afago para quem chora.
Só que a palavra que Jó usa no original hebraico não é uma palavra de consolo vago. É gō'ēl, um termo duro, tirado da lei de família de Israel. O gō'ēl não era "um consolador". Era um parente com um dever legal: comprar de volta o que a família havia perdido e reivindicar o sangue dos seus.
A diferença muda o versículo inteiro. Jó não está soltando uma esperança no escuro. Ele está nomeando uma certeza jurídica: em algum lugar existe um parente com direito de sangue que vai se levantar e reivindicá-lo. Não um sentimento bonito. Uma reivindicação com valor de lei.
Jó está no fundo do poço. Perdeu os filhos, perdeu a riqueza, perdeu a saúde. O corpo está coberto de feridas, o próprio hálito repugna a esposa. Ele se senta sobre a cinza, raspando a pele com um caco de telha, largado por quase todos os que um dia o rodeavam.
E os três amigos, que vieram consolar, viraram promotores. O argumento deles é simples: você sofre, logo você pecou. Bildade acabara de pintar Jó como um homem perverso colhendo o que plantou. Jó está no banco dos réus, acusado, sem um único defensor dentro da sala.
O capítulo 19 é o grito mais baixo de Jó. Ele enumera todos que o abandonaram: Deus o cercou, os irmãos se afastaram, os criados não atendem ao seu chamado, os amigos íntimos o detestam. Ele está sozinho, acusado, sem ninguém para tomar o seu lado na disputa.
Ao longo do livro, Jó busca uma coisa só: alguém que sustente a causa dele. Ele ansiava por um árbitro (Jó 9:33) que pudesse pôr a mão sobre os dois lados. Ele clamou que a sua testemunha estava nos céus (Jó 16:19). É um homem em juízo sem quem se levante para defendê-lo.
Para entender o que ele diz em seguida, é preciso conhecer a lei do gō'ēl. Em Israel, a terra pertencia à família para sempre; se a pobreza forçava um homem a vendê-la, o parente mais próximo tinha o dever de comprá-la de volta, para que ela ficasse na linhagem (Levítico 25:25). A terra não podia ficar perdida.
E o gō'ēl carregava um segundo dever: o direito de sangue. Se um parente era abatido, o parente mais próximo era quem buscava justiça, o goel ha-dam, aquele cujo laço de sangue o obrigava a reivindicar o que fora tirado da família. O gō'ēl era o braço legal da casa dentro do mundo.
A Palavra
גֹּאֵל (gō'ēl) vem da raiz ga'al, que quer dizer "resgatar", "comprar de volta", "reivindicar como parente". Não é uma palavra abstrata de salvação. É uma palavra de direito de família, o nome de uma pessoa concreta com um dever concreto diante do próprio sangue.
O primeiro dever era a terra. Levítico 25 proíbe vender para sempre a terra de Israel, porque ela pertencia a Deus e à linhagem. Quando um pobre tinha de entregar o seu campo, o gō'ēl pagava o preço para trazê-lo de volta. O redentor era exatamente quem revertia a perda da família.
O segundo dever era a pessoa. Se um homem afundava tanto em dívida que se vendia como servo, o mesmo gō'ēl podia pagar para libertá-lo (Levítico 25:47-49). Resgatar significava um parente com dinheiro e com direito comprando o seu de volta da servidão. Não era caridade solta, era obrigação de sangue.
O terceiro dever era o sangue. Números 35 chama o parente mais próximo de goel ha-dam, aquele que reivindicava a vida de um familiar abatido. As cidades de refúgio existiam justamente porque o gō'ēl tinha esse direito reconhecido. O laço de sangue tinha peso legal dentro da terra, não era só afeto.
O livro de Rute mostra o gō'ēl em ação. Boaz compra de volta o campo de Noemi e toma Rute por esposa, tudo sob o título de gō'ēl, selado pela retirada de uma sandália à porta da cidade (Rute 4). Resgatar era um ato público e legal feito no portão, diante de testemunhas, não um sentimento privado.
Então, quando Jó diz "meu gō'ēl vive", cada ouvinte escutava a lei, não um desejo. Ele está dizendo: tenho um parente com o direito legal de reaver o que me foi arrancado e de defender a minha causa como sangue seu. Não talvez, não quem sabe. Ele vive.
E Jó vai além. Esse gō'ēl vai se levantar sobre a terra, ficar de pé sobre o pó, e Jó acrescenta que, mesmo depois de destruída a sua pele, na sua carne verá a Deus (Jó 19:26). O redentor vai ficar de pé no chão onde Jó foi sepultado e reivindicá-lo pelo próprio nome.
Existe um tipo de consolo que não custa nada e não segura nada. "Vai passar", "Deus está contigo", palavras mornas que evaporam no instante em que a dor volta. Jó estava cercado desse tipo de fala pelos amigos, e ela não o ergueu um centímetro do monte de cinza.
O gō'ēl é uma esperança de outra natureza. Não é um sentimento de que as coisas vão melhorar. É uma pessoa com direito legal de agir em seu nome, obrigada pelo sangue a reaver o que você não consegue reaver sozinho. Esperança com um nome e um dever presos a ela.
Repare quando Jó diz a frase. Não num dia bom. Ele a diz despojado de tudo, acusado, sozinho, com o corpo ruindo em feridas. A certeza do redentor não dependia das circunstâncias virarem a seu favor. Ela ficou de pé enquanto todo o resto dele desabava.
Esse é o peso que a palavra carrega para os seus piores dias. Quando você não consegue sustentar a própria causa, quando a acusação é alta e a sua defesa é muda, a pergunta não é se você se sente esperançoso. A pergunta é se alguém com direito se levanta por você.
E o gō'ēl age precisamente onde você está sem força. O homem que vendeu a terra não podia comprá-la de volta; era esse o problema inteiro. O parente com direito fazia o que o arruinado não conseguia. O resgate começa bem na borda daquilo que você não dá conta sozinho.
Assim a frase de Jó deixa de ser um consolo macio e vira um chão jurídico para se apoiar. Não "tomara que melhore". E sim: eu sei que há um com direito de sangue que vive, e ele vai se levantar, e vai me reivindicar pelo nome diante de todos.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Gō'ēl. Uma palavra do tribunal do direito de família de Israel, sentada no meio do versículo de consolo mais citado do livro de Jó. Ela não descreve um calor vago no peito. Nomeia um parente com o direito legal de comprar de volta o que se perdeu.
Talvez seja aí que o versículo mais ensine. A certeza de Jó não era a de que a dor iria afrouxar amanhã. Era a de que alguém com direito de sangue estava vivo e obrigado a reavê-lo, e ficaria de pé no mesmo chão onde ele fora sepultado para fazê-lo.
A pergunta que a cena deixa para quem lê: quando você está despojado e acusado, você se agarra a um consolo que nada segura, ou a um redentor que tem o direito de se levantar por você? Jó, no fundo do poço, agarrou o segundo, e o nomeou vivo.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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