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Jeremias 36.23: O Canivete do Escriba

Jeoaquim ouvia três ou quatro colunas, cortava o rolo e jogava no braseiro; Baruque escreveu tudo de novo

Lâmina de escriba cortando um rolo diante do braseiro

O rei cortava o rolo coluna por coluna

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“E sucedeu que, tendo Jeudi lido três ou quatro folhas, cortou-as com um canivete de escrivão, e lançou-as no fogo que havia no braseiro, até que todo o rolo se consumiu no fogo que estava sobre o braseiro.”

Assim a Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898, traduz Jeremias 36.23. O versículo serve a quem já apagou uma mensagem incômoda sem terminar de ler, ou deixou um aviso pela metade porque achava saber o resto.

A cena tem data. O texto situa a leitura no nono mês do quinto ano de Jeoaquim, rei de Judá. Pelo calendário usado pelos historiadores, cai no fim do ano 604 a.C., em pleno inverno de Jerusalém.

O rei estava na casa de inverno, uma ala aquecida do palácio, com um braseiro aceso diante dele. Ao redor, de pé, os príncipes da corte ouviam a leitura de um rolo escrito por Baruque, filho de Nerias, ditado pelo profeta Jeremias.

Quem lia era Jeudi, um oficial da corte. O rolo reunia mais de vinte anos de avisos contra Jerusalém, contra Judá e contra as nações vizinhas. O rei não esperou a leitura terminar para responder.

A cada três ou quatro colunas, ele cortava o pedaço lido e o jogava no fogo. Depois ouvia o trecho seguinte e repetia o gesto, até não sobrar rolo nenhum na mão do leitor.

O versículo 24 registra a reação da sala: ninguém temeu, ninguém rasgou a roupa. Rasgar as vestes era o sinal de luto e arrependimento em Israel. Josias, pai de Jeoaquim, fez esse gesto ao ouvir o livro da Lei achado no templo.

Três homens tentaram impedir. Elnatã, Delaías e Gemarias pediram ao rei que não queimasse o rolo, e ele não os ouviu. Em seguida mandou prender o escriba e o profeta, mas o texto diz que o Senhor os escondera.

A destruição tem método, e o método diz muito sobre quem a pratica. A seção I mostra o objeto que o rei usou, o que a palavra hebraica revela sobre as colunas cortadas e como o rolo voltou a existir.

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I  A Palavra

A lâmina de apontar o cálamo

 

A resposta de ontem

Quem foi o bisneto de Boaz e Rute?

Davi, o rei de Israel. Rute 4.17 registra o nascimento de Obede, filho de Boaz e Rute, e diz que ele foi pai de Jessé, pai de Davi. A genealogia de Rute 4.18 a 4.22 repete a linha, e Mateus 1.5 e 1.6 a coloca na ascendência de Jesus.

Pense na mesa de um escriba de Jerusalém no século 7 a.C. Sobre ela, um tinteiro de tinta preta feita de fuligem, alguns cálamos (canetas de junco cortado) e uma lâmina pequena, guardada no estojo junto da paleta.

A lâmina servia para apontar o junco quando a ponta gastava e para raspar erros do couro ou do papiro. Também aparava as bordas do rolo e separava folhas coladas. Era ferramenta de quem escreve.

O hebraico chama esse objeto de taʿar hassōfēr (navalha do escriba). A mesma palavra taʿar nomeia a navalha de barbear em Números 6.5, no voto do nazireu, e a bainha da espada em Jeremias 47.6.

A Almeida preferiu canivete de escrivão, e a escolha funciona: o leitor vê uma lâmina curta, de bolso, usada no trabalho diário. Nada ali lembra arma. O instrumento de cuidar do texto virou instrumento de apagá-lo.

O hebraico diz apenas “ele cortava”, sem nomear o sujeito. O contexto aponta o rei, sentado junto ao braseiro, enquanto Jeudi segurava o rolo e seguia lendo em voz alta para a corte.

A segunda palavra está na medida. A Almeida diz folhas; o hebraico diz dəlātôt (portas). Num rolo, a palavra designa as colunas de texto escritas lado a lado, cada uma emoldurada como o batente de uma porta.

Os dicionários de hebraico bíblico registram esse sentido de coluna só neste versículo. Fora daqui, a palavra nomeia portas de cidade, de templo e de casa. A cena deixa ver a página como uma fileira de portas, fechadas uma a uma.

Um verbo descreve o ritmo. O hebraico usa aqui uma forma de ação repetida no passado, que em português pede “ia cortando” e “ia jogando”. Não foi um gesto único de raiva. Foi trabalho de horas, coluna por coluna.

O texto não diz se o rolo era de couro ou de papiro. O comentarista John A. Thompson, no seu “The Book of Jeremiah”, de 1980, prefere o papiro, porque couro queimado num salão fechado soltaria cheiro forte. A passagem não traz dado para decidir.

Depois do fogo, Deus manda Jeremias tomar outro rolo. Baruque escreve de novo todas as palavras do primeiro, e o versículo 32 acrescenta: “e ainda se lhes acrescentaram muitas palavras semelhantes”. O rolo queimado voltou maior.

O segundo rolo traz uma sentença nova, só para o rei. O versículo 30 diz que o cadáver de Jeoaquim seria lançado ao calor do dia e à geada da noite, e que ele não teria quem se assentasse no trono de Davi.

A geada da sentença ecoa o inverno da cena. O rei que se aquecia no braseiro ouviu, no rolo refeito, que ficaria exposto ao frio. O texto devolve ao leitor a mesma estação em que o canivete trabalhou.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O aviso cortado pela metade

 

Pense na última mensagem que você apagou sem terminar de ler. Um email do banco, o resultado de um exame, o recado de um amigo que costuma dizer o que você evita ouvir. Você leu as três primeiras linhas e já sabia o resto.

Jeoaquim fez o mesmo com mais paciência. Ouvia um pedaço, julgava, cortava. Não proibiu a leitura nem expulsou Jeudi da sala. Deixou o texto falar o suficiente para decidir não ouvi-lo.

Esse modo de ouvir é comum. A pessoa escuta a crítica até achar o ponto fraco, corta ali e joga o resto fora. Tecnicamente ouviu tudo, mas nenhuma coluna chegou ao fim do rolo dentro dela.

A cena mostra também quem estava na sala. Os príncipes não rasgaram as vestes. Três deles pediram ao rei que poupasse o rolo e, diante da recusa, ficaram calados. O silêncio da corte deixou o canivete trabalhar.

A primeira aplicação é perceber onde você corta. Note em que momento da conversa você para de ouvir: na terceira frase, na primeira crítica, no tom de voz. Esse ponto marca a coluna que vai para o braseiro.

A segunda aplicação trata da sala. Quando alguém perto de você corta um aviso legítimo, os outros costumam ficar quietos. Elnatã, Delaías e Gemarias falaram uma vez, e o livro guardou o nome dos três.

A terceira aplicação lembra o fim da cena. O rei destruiu o papel, e as palavras voltaram com acréscimos. O aviso ignorado raramente some: volta em outra forma, num momento pior.

Três passos, 20 minutos somados, põem o versículo em prática.

1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Jeremias 36 do versículo 20 ao 32 e marque três personagens: quem lê, quem corta e quem pede para parar.

2. Segundo passo, 10 minutos. Escreva num papel o último aviso que você recebeu e não quis ouvir. Copie a frase inteira, sem resumir, até o ponto final.

3. Terceiro passo, 5 minutos. Ao lado da frase, anote em qual palavra você parou de ouvir e o que vinha depois dela.

O primeiro erro é ler a cena como história de rei mau e parar ali. Jeoaquim só levou ao extremo um gesto conhecido de qualquer leitor cansado. O canivete existe em toda gaveta.

O segundo erro é tratar todo aviso como profecia. Jeremias pregou por mais de vinte anos antes de ditar o rolo, e o texto vinha assinado. Nem toda crítica recebida pelo celular merece a mesma escuta.

O terceiro erro é achar que, queimado o papel, o assunto acabou. O assunto do rolo era a chegada da Babilônia, e ela veio de qualquer forma, poucos anos depois daquele inverno.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

O rolo escrito de novo

 

Volte ao mapa daquele inverno. Em 605 a.C., Nabucodonosor, príncipe da Babilônia, venceu o exército egípcio em Carquemis, junto ao rio Eufrates. A batalha aparece em Jeremias 46.2 e na Crônica Babilônica, tabuinha de argila guardada hoje no Museu Britânico.

Jeoaquim tinha sido posto no trono pelo faraó Neco, do Egito. A derrota do aliado deixava Judá exposto. O rolo de Jeremias anunciava esse perigo, e o rei o queimou no inverno em que a ameaça ficou mais próxima.

O jejum citado no versículo 9 mostra a tensão da cidade. O povo de Jerusalém e das cidades de Judá estava reunido no templo, pedindo socorro. Baruque leu o rolo naquele dia, na câmara de Gemarias, filho de Safã, diante da multidão.

A família de Safã aparece várias vezes ao lado de Jeremias. Safã foi o escrivão que leu o livro da Lei ao rei Josias. Aicão, outro filho dele, protegeu Jeremias da multidão em Jeremias 26.24.

Nas escavações de Yigal Shiloh na Cidade de Davi, entre 1978 e 1985, apareceu uma bula (selo de argila) com o nome Gemaryahu, filho de Shaphan. Ninguém sabe se é o mesmo homem: o nome confere e a época também, mas a peça não traz cargo.

Baruque também teria deixado rastro. Nahman Avigad publicou em 1978 uma bula com a inscrição “de Berequias, filho de Nerias, o escriba”. A peça veio do mercado de antiguidades, sem escavação conhecida, e hoje muitos especialistas a tratam como possível falsificação.

A prova mais sólida segue sendo o texto. O rei queimou a cópia que tinha diante de si. Jeremias ditou de novo, Baruque escreveu de novo, e o livro de Jeremias lido hoje descende dessa segunda escrita.

O canivete cortou papel, e só papel. A sentença sobre o trono saiu do braseiro escrita em outro rolo: nenhum descendente de Jeoaquim ficaria assentado no trono de Davi. Jeoaquim reinou onze anos e foi sucedido pelo filho Joaquim, também chamado Jeconias.

Quem tinha a última palavra continuou falando depois do braseiro apagado, e com um rolo maior. A sala ficou com cinzas, e a profecia ficou com mais colunas escritas.

Hoje, até as 22 horas: leia Jeremias 36.23 uma vez em voz alta, copie num papel uma frase de um aviso recente que você cortou e leia essa frase até o ponto final.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quanto tempo o filho de Jeoaquim ficou no trono de Davi?

★ RARO

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AUma coluna por vez
BO rolo inteiro, de uma só vez
CTrês ou quatro colunas por vez
DDez colunas por vez

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