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Pense na última mensagem que você apagou sem terminar de ler. Um email do banco, o resultado de um exame, o recado de um amigo que costuma dizer o que você evita ouvir. Você leu as três primeiras linhas e já sabia o resto. Jeoaquim fez o mesmo com mais paciência. Ouvia um pedaço, julgava, cortava. Não proibiu a leitura nem expulsou Jeudi da sala. Deixou o texto falar o suficiente para decidir não ouvi-lo. Esse modo de ouvir é comum. A pessoa escuta a crítica até achar o ponto fraco, corta ali e joga o resto fora. Tecnicamente ouviu tudo, mas nenhuma coluna chegou ao fim do rolo dentro dela. A cena mostra também quem estava na sala. Os príncipes não rasgaram as vestes. Três deles pediram ao rei que poupasse o rolo e, diante da recusa, ficaram calados. O silêncio da corte deixou o canivete trabalhar. A primeira aplicação é perceber onde você corta. Note em que momento da conversa você para de ouvir: na terceira frase, na primeira crítica, no tom de voz. Esse ponto marca a coluna que vai para o braseiro. A segunda aplicação trata da sala. Quando alguém perto de você corta um aviso legítimo, os outros costumam ficar quietos. Elnatã, Delaías e Gemarias falaram uma vez, e o livro guardou o nome dos três. A terceira aplicação lembra o fim da cena. O rei destruiu o papel, e as palavras voltaram com acréscimos. O aviso ignorado raramente some: volta em outra forma, num momento pior. Três passos, 20 minutos somados, põem o versículo em prática. 1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Jeremias 36 do versículo 20 ao 32 e marque três personagens: quem lê, quem corta e quem pede para parar. 2. Segundo passo, 10 minutos. Escreva num papel o último aviso que você recebeu e não quis ouvir. Copie a frase inteira, sem resumir, até o ponto final. 3. Terceiro passo, 5 minutos. Ao lado da frase, anote em qual palavra você parou de ouvir e o que vinha depois dela. O primeiro erro é ler a cena como história de rei mau e parar ali. Jeoaquim só levou ao extremo um gesto conhecido de qualquer leitor cansado. O canivete existe em toda gaveta. O segundo erro é tratar todo aviso como profecia. Jeremias pregou por mais de vinte anos antes de ditar o rolo, e o texto vinha assinado. Nem toda crítica recebida pelo celular merece a mesma escuta. O terceiro erro é achar que, queimado o papel, o assunto acabou. O assunto do rolo era a chegada da Babilônia, e ela veio de qualquer forma, poucos anos depois daquele inverno.
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