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Jeremias 31:3
"Com amor eterno te amei, por isso te atraí."
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A rede de arrasto puxada até a areia
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Uma rede de arrasto carregada de peixe não sai da água no braço. Ela sai raspando o fundo, junta areia e pedra no caminho, e chega à praia porque duas fileiras de homens seguram as pontas do cabo e caminham para trás, com o corpo inclinado, dando passos curtos. A pescaria só termina quando o cabo termina. O peso é o ponto. Uma rede grande cheia pesa mais do que qualquer um dos pescadores, e por isso ninguém tenta erguer nada: o trabalho inteiro é de tração horizontal, um deslocamento lento em direção à margem. Quem está dentro da rede não colabora, não escolhe a direção e não sabe que está indo para algum lugar. No campo o gesto se repete com outro objeto. O boi recebe uma canga de madeira sobre a cerviz, uma corda liga a canga ao arado, e o sulco abre porque existe força puxando de um lado. A palavra que descreve o trabalho da rede é a mesma que descreve o trabalho do arado. Guarde essas duas cenas e mude de cenário. O capítulo 31 de Jeremias é escrito para gente que não estava mais em casa. A deportação para a Babilônia colocou aquela população a cerca de mil e quinhentos quilômetros do território de origem, do outro lado de um deserto que ninguém atravessa sozinho, dentro de um império que não devolvia prisioneiro por gentileza. Para essa gente, uma frase de estímulo não resolveria nada. Convite pressupõe que o convidado consiga se levantar e caminhar, e a situação descrita no capítulo é exatamente a de quem não consegue: sem passagem de volta, sem autorização, sem força política, sem qualquer rota própria de retorno. E é aqui que a escolha de vocabulário do versículo 3 fica interessante. A promessa não usa um verbo de chamado, de aviso ou de espera. Usa um verbo de manuseio pesado, o mesmo que aparece na praia e no campo, e o coloca com um sujeito que segura a ponta da corda do lado de lá. Qual é esse verbo, onde mais ele aparece no Antigo Testamento e o que ele faz com a distância entre quem puxa e quem é puxado, é o que vem agora. Continue lendo ↓
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I A Palavra
A corda que aparece na pesca
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A frase de Jeremias 31:3 é ahavat olam ahavtikh, al ken meshakhtikh chased, com amor eterno te amei, por isso te atraí com benignidade, e a palavra decisiva é a última do primeiro bloco. Meshakhtikh vem da raiz m-sh-kh, mashak, e o campo semântico dela é físico antes de ser afetivo. Mashak é puxar um objeto que oferece resistência, arrastar peso por uma superfície, esticar uma corda até que a ponta oposta se mova. O dicionário bíblico registra o verbo justamente nas cenas de trabalho braçal. Ele aparece no ato de puxar a rede, de arrastar um corpo pelo chão, de tirar alguém de dentro de um poço com cordas, de conduzir animal preso pela canga. Em Gênesis 37:28 o mesmo verbo descreve a retirada de José da cisterna: os homens puxam para cima alguém que estava no fundo e não tinha como subir por conta própria. A ação parte inteira de quem está em cima. Em Juízes 4:6 e 4:7 mashak organiza tropa: puxar homens para o monte Tabor, atrair o exército inimigo para o ribeiro. É movimento provocado de fora, não decisão espontânea de quem se desloca. Em Jeremias 38:13 aparece de novo o cenário do poço, com Jeremias sendo içado da lama por cordas e trapos. O verbo continua descrevendo alguém que sai porque outro puxou. Existe também o uso sonoro, que ajuda a medir o alcance da imagem. Em Êxodo 19:13 o chifre é tocado num prolongamento contínuo, e o hebraico usa mashak para dizer que o som é esticado, arrastado no tempo como quem estica uma corda. Some tudo e o perfil do verbo fica claro. Mashak tem sempre dois lados assimétricos: uma ponta que aplica força e uma ponta que se move por causa dessa força. Não existe mashak entre iguais, não existe mashak de longe, não existe mashak sem contato. Por causa disso a tradução mais comum, atrair, entrega menos do que o original. Atrair, em português corrente, virou sinônimo de despertar interesse, chamar atenção, exercer charme. O hebraico aqui não fala de sedução nem de apelo, fala de carga sendo deslocada. E a palavra que acompanha fecha o sentido. Chesed, benignidade, é o termo do compromisso leal, da fidelidade que uma parte mantém mesmo quando a outra não tem nada a oferecer em troca. A corda de mashak, no versículo, é feita desse material.
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II Aplicação Prática
Puxar antes de sentir vontade
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A distinção entre convite e tração muda decisões práticas, e ela pode ser usada já nesta semana em pelo menos seis frentes. Primeiro, identificar onde você está esperando vontade aparecer. Convite depende de disposição interna; tração funciona mesmo quando a disposição não veio. Liste três compromissos que você adiou este mês esperando ânimo. Marque cada um no calendário com hora fixa e um responsável avisado, porque o horário puxa o corpo do jeito que a expectativa de ânimo nunca puxou. Segundo, aceitar que quem está longe raramente volta pela própria força. Rede cheia não se levanta sozinha, e ninguém no fundo da cisterna sobe sem corda descida de cima. Escolha uma pessoa que sumiu do seu convívio e faça o movimento inteiro: você marca, você escolhe o lugar, você confirma. Deixar a iniciativa com quem está distante é confundir convite com corda. Terceiro, medir o comprimento da sua corda. Mashak exige contato, e contato tem limite físico: você não puxa o que não alcança. Conte quantas pessoas você realmente sustenta hoje com presença regular. Se a lista passa de cinco, alguma corda está apenas encostada e a pessoa do outro lado já percebeu que não há força na linha. Quarto, separar o que você puxa do que você empurra. Empurrar é agir por trás com pressão; puxar é ir na frente segurando a ponta e assumir o esforço maior. Reveja uma conversa recente em que você tentou mover alguém. Se o método foi cobrança, culpa ou prazo, foi empurrão. Refaça com o custo do seu lado: ofereça carona, tempo, dinheiro ou companhia, e observe a diferença de resposta. Quinto, respeitar a lentidão da tração. Rede de arrasto anda em passos curtos e o sulco do arado abre devagar, sem que ninguém considere isso fracasso. Defina um prazo mínimo de noventa dias para qualquer pessoa ou hábito que você está tentando trazer de volta. Abandonar na terceira semana é largar o cabo no meio da praia, com o peso ainda dentro da água. Sexto, verificar de que material é a sua corda. O versículo usa chesed, fidelidade que não depende de retribuição, e corda feita de troca arrebenta no primeiro atraso. Escolha um relacionamento e retire dele, por escrito, a expectativa de reciprocidade nos próximos trinta dias. Se a sua disposição de puxar cair junto com a expectativa, a linha era comercial e não de compromisso.
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