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Jeremias 18.3: As 2 Pedras do Oleiro
A roda do barro e o banco do parto tinham o mesmo nome em hebraico
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A roda de 2 pedras numa oficina antiga
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«E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas.» Jeremias deixou a cena registrada em Jerusalém no fim do século VII antes de Cristo, e ela ainda serve a quem sente a própria vida girando sem saber quem segura o barro. A ordem veio sem explicação. No versículo 2, Deus manda o profeta levantar e descer à casa do oleiro, porque lá ouviria as palavras dele. Nada de templo, nada de palácio: uma oficina na parte baixa da cidade, com poeira de argila no chão. Jeremias desce e encontra um homem trabalhando. O barro gira, as mãos apertam, o vaso sobe. Nenhuma voz do céu ainda. Por alguns versículos, a revelação é só um artesão fazendo o serviço de todo dia. Aí o vaso sai errado. O versículo 4 conta que ele se estragou na mão do oleiro, e o oleiro tornou a fazer outro vaso, do jeito que achou melhor. Não jogou o barro fora. Amassou e começou de novo, na mesma roda. Só no versículo 6 vem a fala: como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel. A cena inteira vira espelho de um povo que estava prestes a perder a cidade para a Babilônia. A Almeida Revista e Corrigida diz «sobre as rodas», no plural. O original hebraico usa uma forma rara, própria de objetos que existem aos pares, como olhos, mãos e sandálias. A roda do oleiro, para o hebreu, era uma dupla. A mesma palavra aparece num único outro lugar da Bíblia hebraica. Fica bem longe da oficina, num quarto do Egito onde duas mulheres ajudavam outras a dar à luz, sob a ordem de um rei que queria os meninos hebreus fora do mundo. A faixa I abre a roda peça por peça e mostra por que a mesma palavra cabe na oficina de Jerusalém e no quarto da parteira. Continue lendo ↓
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I A Palavra
Duas pedras e um par de mãos
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Imagine a oficina do oleiro em Jerusalém. No chão, uma pedra redonda e pesada, com um furo no centro. Por cima, outra pedra menor, encaixada num pino, que gira quando o oleiro empurra. Sobre ela, o barro molhado. Arqueólogos acharam pares assim em várias cidades de Canaã, peças de basalto com o encaixe gasto pelo giro. A pedra de baixo fica parada. A de cima roda. O oleiro trabalha no ponto onde uma encosta na outra. Daí o hebreu chamar a roda de ovnayim (as duas pedras). A palavra vem de even, pedra, e leva a forma dual, que em português soaria como «as pedras do par»: não são pedras quaisquer, são duas que só trabalham juntas. Um sábio judeu descreveu o oleiro em ação séculos depois. Jesus ben Sira, no livro do Eclesiástico, de 180 antes de Cristo, escreve no capítulo 38 que o oleiro fica sentado junto à obra, girando a roda com os pés, preocupado com cada peça. Agora a segunda cena. Êxodo 1.16 traz a ordem do faraó às parteiras hebreias Sifrá e Puá: quando atendessem as mulheres hebreias e as vissem sobre os ovnayim, deveriam eliminar os meninos e deixar viver as meninas. A Almeida traduz ali «sobre os assentos». No Egito antigo, a mulher dava à luz agachada, com um pé em cada pedra ou tijolo. Eram duas peças, com espaço no meio para a criança descer às mãos da parteira. Em 2001, o egiptólogo Josef Wegner, da Universidade da Pensilvânia, achou em Abidos um tijolo de parto pintado, com uma mãe e o bebê desenhados na lateral, datado do século XVIII antes de Cristo. O objeto que o Êxodo nomeia existia de fato. O comentarista Rashi, que viveu em Troyes, na França, entre 1040 e 1105, explicou Êxodo 1.16 dizendo que ovnayim é o assento da mulher que dá à luz. E, na mesma nota, citou Jeremias 18.3 como o outro uso da palavra. Rashi viu o que a tradução esconde. Nas duas cenas há duas pedras, um espaço entre elas e alguém com as mãos no meio, esperando uma forma nova sair. Na oficina sai o vaso. No quarto da parteira sai a criança. Jeremias conhecia a Torá. Quem ouvia o profeta falar da casa do oleiro «sobre as duas pedras» ouvia também o eco do Egito, onde Deus guardou os meninos hebreus pelas mãos de duas mulheres que temeram a Ele mais do que ao rei.
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II Aplicação Prática
O barro ainda na roda
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Pense no projeto que desandou este ano. O emprego que não veio, a conversa que terminou mal, o plano de casa que ficou pela metade. Muita gente trata esse vaso torto como peça pronta, guardada na prateleira para sempre. Jeremias vê o contrário. Em 18.4, o vaso se estraga ainda na mão do oleiro. O verbo hebraico shachat (estragar, arruinar) descreve a peça que perdeu a forma, e mesmo assim o barro continua na roda, molhado, pronto para ser amassado outra vez. Barro na roda tem uma vantagem sobre barro no forno. Enquanto está úmido, aceita forma nova. Depois de cozido, o vaso rachado só serve para caco. Jeremias 19, logo em seguida, mostra essa segunda cena: um jarro quebrado de propósito diante dos anciãos. A diferença entre as duas cenas é o tempo. O capítulo 18 fala de um povo que ainda podia mudar de rumo; o 19 fala de um povo que endureceu. O convite de Jeremias vale enquanto o barro está mole. Três passos, vinte minutos somados, ajudam a pôr o vaso torto de volta na roda. 1. Primeiro passo, cinco minutos. Escreva num papel um vaso que saiu errado nos últimos doze meses: um projeto, uma relação, um hábito. Uma linha só, com nome e data. 2. Segundo passo, dez minutos. Embaixo, anote o que ainda está mole nele. Quem ainda atende o telefone, qual prazo ainda não venceu, que parte do plano ainda pode ser refeita. A lista separa barro de caco. 3. Terceiro passo, cinco minutos. Escolha um gesto de amassar e recomeçar para esta semana: uma mensagem, uma inscrição, uma conversa marcada. Escreva o dia e a hora ao pé da folha. Um exemplo do formato: «Curso de inglês largado em março. Ainda mole: a matrícula vale até dezembro. Gesto: voltar à aula de quinta, às 19h.» O primeiro erro é chamar de caco o que ainda é barro. Quem declara o fim cedo demais seca a argila antes da hora e perde a segunda volta da roda. O segundo erro é girar a roda sozinho. Na oficina há duas pedras, e no parto havia duas parteiras. Chame uma pessoa para ler a sua folha e cobrar o gesto marcado. O terceiro erro é querer o vaso antigo de volta. O oleiro de 18.4 fez outro vaso, conforme lhe pareceu bem. A peça nova pode ter outro formato, e ainda assim nascer do mesmo barro.
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