|
|
Isaías 61:3
"Um turbante de festa em vez de cinza."
|
A cinza do braseiro e o turbante de festa
|
| ▼ |
| |
|
A cinza do luto no Antigo Oriente Próximo não era figura de linguagem. Era material com procedência: o resto frio do braseiro doméstico, do forno de pão ou do altar, recolhido e despejado sobre a própria cabeça diante de quem estivesse por perto. Os textos hebraicos descrevem o gesto com detalhe operacional. Jó aparece sentado no meio da cinza, raspando a pele com um caco de cerâmica. Mardoqueu atravessa a praça da cidade vestido de saco e coberto de cinza, gritando. Tamar joga cinza sobre a cabeça e rasga a túnica longa que marcava a posição dela na casa do rei. Nos três casos o alvo é o mesmo ponto do corpo. A cinza não vai nas mãos, não vai nos pés, vai na cabeça, e fica ali visível enquanto durar o período de luto. A escolha do lugar não é acaso. A cabeça era o painel onde a comunidade lia o estado de uma pessoa antes de qualquer conversa: quem estava consagrado, quem estava celebrando, quem estava de luto, tudo aparecia no que se punha ou se deixava de pôr ali em cima. Do outro lado da mesma superfície ficava o oposto exato da cinza. O adorno de cabeça amarrado, tecido e enrolado com cuidado, aparece no traje do sacerdote no relato do santuário e reaparece na cabeça do noivo em dia de casamento, nas duas vezes como sinal público de posição e de festa. Um texto profético hebraico do século sexto antes da era comum pega exatamente esses dois objetos e os coloca lado a lado numa única linha de troca, ligados por uma preposição curta que significa em lugar de. E faz a operação com um truque que só existe na consoante. As duas palavras hebraicas, a do pó e a do pano, são formadas pelas mesmas três letras, na ordem trocada, uma o espelho da outra, com a preposição no meio funcionando como o eixo do reflexo. Quem ouvia o texto lido em voz alta percebia a reviravolta pelo som, antes de qualquer explicação. As duas palavras chegavam quase idênticas ao ouvido, separadas por uma sílaba, e o sentido de uma era o avesso do sentido da outra. Quais são as duas palavras, por que a inversão das letras carrega a promessa inteira, e o que a preposição do meio exige de quem lê, é o que vem agora. Continue lendo ↓
|
|
I A Palavra
Três consoantes na ordem trocada
|
|
A expressão que abre a lista de trocas em Isaías 61:3 é peer tachat efer, e o efeito dela depende de uma coincidência que a escrita hebraica torna visível. Efer é a cinza. Não a brasa, não a fumaça, não o carvão: o pó cinzento e frio que sobra quando o fogo terminou de consumir tudo o que tinha para consumir. A palavra aparece ligada ao braseiro doméstico, ao altar de sacrifício e ao gesto de luto. O termo carrega um segundo peso no vocabulário. Em Gênesis 18:27, Abraão se define diante da divindade como afar va'efer, pó e cinza, usando a palavra para nomear a própria condição de criatura pequena e passageira. Peer é o adorno de cabeça amarrado, a peça de tecido enrolada e presa no alto da cabeça. O verbo da mesma raiz significa embelezar, glorificar, dar destaque. O objeto tem endereço nos textos. Aparece no traje dos sacerdotes descrito em Êxodo 39:28, aparece na ordem dada a Ezequiel em 24:17 para manter o próprio adorno de cabeça amarrado em vez de fazer o gesto de luto, e aparece em Isaías 61:10, poucas linhas depois, na imagem do noivo que se prepara para a festa. Agora as letras. Efer se escreve com alef, pe e resh. Peer se escreve com pe, alef e resh. As mesmas três consoantes, com as duas primeiras trocadas de posição, num idioma em que a raiz consonantal carrega o sentido. Entre as duas o texto encaixa tachat, preposição que significa embaixo de, no lugar de, em troca de. Ela aparece em contratos e em compensações de dano, quando um item substitui outro. A construção fica assim: peer tachat efer, três consoantes, uma preposição de substituição, as mesmas três consoantes ao contrário. Lida em voz alta, é quase um trocadilho, e a literatura profética hebraica usa esse recurso quando quer que a frase grude na memória de quem ouviu uma vez só. Vale medir o que a inversão afirma. Ela não diz que a cinza foi limpa nem que ela nunca esteve ali; diz que o mesmo conjunto de elementos aparece reorganizado, com as peças na ordem contrária. A imagem também mantém fixo o lugar do corpo. O que sai da cabeça é a cinza, o que entra na cabeça é o adorno, e o ponto de aplicação continua sendo o mesmo painel público que a comunidade lia a distância. O restante do versículo repete a estrutura mais duas vezes. Óleo de alegria em vez de luto, manto de louvor em vez de espírito abatido, sempre com tachat no meio, sempre com o item de festa ocupando o espaço que o item de luto ocupava. O que a primeira troca acrescenta às outras duas é a camada sonora. Só nela as duas palavras são anagrama uma da outra, e por isso ela vem primeiro na lista.
|
|
II Aplicação Prática
O que fazer com a cinza que sobrou
|
|
A frase descreve uma substituição, não uma limpeza, e a diferença muda o que uma pessoa faz na prática com o próprio material queimado. Primeiro, identificar onde está a sua cinza visível. Efer era pública por definição, ficava na cabeça e a vizinhança inteira via. Escreva em uma linha o que qualquer pessoa próxima de você identificaria como a sua perda dos últimos dois anos, sem você precisar explicar. Se você não consegue escrever essa linha, o trabalho a seguir não tem sobre o que operar. Segundo, separar a cinza da brasa. Efer é o resíduo de um fogo que já terminou, e a maior parte do sofrimento crônico vem de tratar como encerrado o que ainda está queimando, ou de tratar como ativo o que já virou pó. Marque cada item da sua lista de perdas com uma das duas etiquetas: ainda queima ou já esfriou. As duas exigem condutas opostas, e misturá-las é o erro mais comum. Terceiro, aceitar que a troca acontece no mesmo lugar. O texto não muda o ponto de aplicação, mantém a cabeça e substitui o conteúdo, o que significa que a área da sua vida que foi atingida é a mesma área onde a reviravolta vai aparecer. Anote a área em que você mais perdeu e pergunte que forma de contribuição você teria ali que uma pessoa sem essa perda não teria. A resposta costuma ser específica e desconfortável, e costuma ser o material da etapa seguinte. Quarto, tratar o adorno como algo que se amarra. Peer não é uma coroa que alguém coloca de fora, é uma peça de tecido enrolada com as mãos, e Ezequiel recebe justamente a ordem de manter o dele amarrado. Escolha um sinal concreto e diário de que você não está mais no período de luto: a hora de acordar, a roupa de sair, a mesa posta, a caminhada de trinta minutos. O sinal precisa ser visível para você mesmo antes de ser visível para os outros. Quinto, respeitar o intervalo entre as duas palavras. Entre efer e peer existe tachat, e a preposição não descreve um instante, descreve uma operação de troca com prazo próprio. Defina uma data no calendário para revisar a lista, entre sessenta e noventa dias a partir de hoje. Revisar antes disso transforma o processo em vigilância, e não revisar nunca transforma o luto em endereço fixo. Sexto, evitar a falsificação mais fácil. Colocar o adorno por cima da cinza sem tirar a cinza é o que produz a alegria de fachada, aquela que exige manutenção constante para não escorregar. Antes de anunciar a qualquer pessoa que a fase virou, verifique se você consegue descrever a perda em voz alta sem alterar a voz. Enquanto não conseguir, a troca ainda está em andamento, e não há nada de errado em ela estar.
|
|