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Um pedreiro em Jerusalém abria uma letra na rocha com cinzel de ferro e macete de madeira. Cada traço saía em dezenas de golpes curtos, com a mão girando um pouco a ponta a cada batida para o calcário não lascar fora da linha marcada a carvão.
Do outro lado da cidade, um escriba fazia a mesma letra em menos de um segundo. O cálamo de junco, cortado em bisel e molhado numa tinta de fuligem, goma e água, corria sobre o couro sem tirar nada do material.
As duas técnicas guardavam palavra e cobravam preços diferentes. A tinta fica por cima. Um pano úmido leva a frase embora, e a lei hebraica contava com a propriedade: em Números 5:23 o sacerdote escreve as maldições no rolo e depois as dissolve na água.
O corte trabalha ao contrário. Não acrescenta matéria, retira. A pedra não segura a palavra, a pedra perde o volume que tinha no formato da palavra, e o que saiu de lá ninguém devolve.
Isaías 49:16 diz: eis que nas palmas das minhas mãos te tenho gravado; os teus muros estão continuamente perante mim.
O português resolve a frase com gravar, verbo que hoje serve para arquivo de celular e para lembrança afetiva. O hebraico usa חָקַק, chaqaq, o verbo de abrir sulco em rocha com ferro, a mesma raiz de חֹק, choq, o estatuto.
E o que está cortado na palma não é um nome. É חוֹמֹתַיִךְ, chomotayik, os teus muros: a planta da cidade, a linha do perímetro que alguém prometeu reerguer.
A frase responde a uma acusação. Duas linhas antes, Sião diz que foi esquecida (Isaías 49:14), e a resposta passa pela mãe que esquece o filho de peito (49:15) antes de chegar às palmas. O assunto do trecho é memória, e o que o verso oferece contra o esquecimento é uma marca no corpo.
O resto está na diferença entre os verbos que o hebraico tinha para registrar alguma coisa, no que a lei fez com essa raiz e no que a Grécia e Roma perderam quando traduziram o corte.
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O hebraico separava as formas de registrar pela ferramenta, e as palavras não se substituíam. כָּתַב, katav, é escrever, o verbo do cálamo e da tinta. חָצַב, chatsav, é talhar e cavar, o verbo da pedreira e da cisterna. פִּתַּח, pitach, é o entalhe fino do lapidário, o que abre nome em pedra de anel.
חָקַק (chaqaq) é o quarto. Os léxicos abrem a entrada com cortar dentro, gravar, inscrever, e listam o suporte junto: rocha, tábua, tijolo (A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 1906). É ponta dura sobre superfície dura.
Isaías já tinha usado o verbo num retrato de vaidade. Em 22:16 o profeta pergunta ao mordomo Sebna o que ele faz ali no alto, cortando na rocha uma morada para si mesmo. O verbo aparece com a palavra rocha ao lado, e o objeto do corte é um cômodo cavado na pedra.
Ezequiel recebeu a ordem mais próxima do nosso verso. Toma um tijolo, põe diante de ti e grava nele uma cidade, Jerusalém (Ezequiel 4:1). O verbo é o mesmo chaqaq, o objeto gravado é a planta de Jerusalém, e o profeta em seguida monta o cerco em miniatura em volta do desenho.
Em Isaías 49:16 a planta de Jerusalém reaparece no mesmo verbo, com o suporte trocado: כַּפַּיִם, kappayim, as duas palmas. Kaf não é a mão inteira, é a concha, a parte que segura ferramenta e cria calo. O desenho foi parar no pedaço do corpo que trabalha.
A forma verbal é חַקֹּתִיךְ, chaqotik, com sufixo de segunda pessoa feminina: cortei-te. Sião é o objeto direto, e o verso especifica em seguida o que está no traço: chomotayik, os teus muros, negdi tamid, diante de mim continuamente.
Aquele תָּמִיד, tamid, tem endereço no ritual. Em Êxodo 28:29 o sacerdote carrega sobre o coração os nomes das tribos gravados em pedra, por memorial diante do Senhor, continuamente. Nomes abertos em pedra, presos ao corpo de quem entra no santuário.
Da mesma raiz saem as palavras da lei. חֹק, choq, é o estatuto, e também a ração fixa, a porção marcada (Gênesis 47:22). חֻקָּה, chuqqah, é a ordenança. מְחוֹקֵק, mechoqeq, é o que corta a lei, o legislador com o bastão na mão (Gênesis 49:10).
Isaías 10:1 põe as duas técnicas lado a lado numa acusação: ai dos que gravam estatutos injustos e dos que escrevem opressão. Um grupo corta, o outro escreve, e o profeta contava com a diferença de permanência entre as duas ferramentas.
A Septuaginta não conseguiu o corte. Traduziu com ἐζωγράφησα, de ζωγραφέω, pintar do natural, o verbo do retratista: eis que nas minhas mãos pintei os teus muros.
A Vulgata escolheu descripsi, de describere, copiar, traçar, transcrever (Vulgata, c. 400). O grego pintou, o latim copiou, e o português herdou um gravei que já não obriga ferro nenhum.
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A diferença entre tinta e corte tem tradução direta na semana. O que está a tinta se renegocia todo dia. O que está cortado se decide uma vez, e depois só se executa.
A lei hebraica chama de choq exatamente a segunda categoria. Não é a regra que se discute caso a caso, é a linha que já está no lugar quando o caso chega.
Jeremias 36 mostra o custo da primeira categoria. Baruque escreve o rolo com tinta, o rei ouve três ou quatro colunas, corta o pedaço com o canivete do escriba e joga na braseira. A palavra em tinta coube inteira dentro do gesto de um homem irritado.
Na rotina, a pergunta não é o que você pretende fazer, é o que ainda depende de você querer no momento em que a hora chega: a hora de acordar, o valor que sai da conta antes das despesas, o dia da conversa com a família, o horário em que o telefone sai do quarto.
Decisão que volta toda manhã cobra energia toda manhã. Regra cortada cobra uma vez, na hora de cortar, e depois trabalha sozinha enquanto você faz outra coisa.
O choq do mar em Jeremias 5:22 descreve o efeito. A onda chega com toda a força e volta, sem que ninguém precise decidir de novo onde ela para. Limite bom não discute, apenas está lá.
O segundo movimento está no suporte escolhido pelo verso. A planta dos muros não foi para um arquivo guardado, foi para a palma, a parte do corpo que aparece toda vez que a mão abre para trabalhar.
O que fica fora do campo de visão volta a depender de memória, e memória é justamente o que o trecho declara falível: Sião abre a cena dizendo que foi esquecida.
Então escreva o perímetro do que você está reconstruindo onde a sua mão passa: a folha na mesa, o cartão na carteira, a tela de bloqueio. Não a lista inteira, o perímetro, as três ou quatro linhas que delimitam a obra.
O verso fecha com tamid, continuamente. A palavra serve de auditoria: o que fica continuamente diante dos olhos é o que se constrói, e o resto entra na conversa uma vez por mês e sai de lá igual.
O terceiro ponto é o preço do corte. O cinzel é lento de propósito, e a lentidão faz parte da garantia: ninguém corta rocha por engano, ninguém corta com pressa, ninguém corta uma regra que não pretende sustentar.
Por causa do preço, a lista de estatutos pessoais é curta. Três regras cortadas valem mais do que trinta intenções escritas, porque as três sobrevivem ao dia ruim, e o dia ruim é o único juiz que interessa.
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