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Imagine o portão de um palácio de pedra em Jerusalém, ao amanhecer. Um homem de túnica longa chega com um objeto de madeira apoiado no ombro, do comprimento de um antebraço. Só ele pode tirar a tranca. Quem quer falar com o rei espera. O objeto é a chave. Em hebraico, maftēaḥ (chave, literalmente “o que abre”), da mesma raiz do verbo pātaḥ (abrir). A palavra já diz a função: a chave existe para abrir, e quem a guarda escolhe a hora. Chaves desse tempo não cabiam no bolso. As portas tinham trancas de madeira com pinos internos, e a chave era uma haste com dentes, enfiada por um furo para erguer os pinos. Em Juízes 3.25, os servos do rei Eglom usam uma chave para abrir a sala trancada. O versículo fala em ombro por causa do tamanho. Uma chave grande ia apoiada ali, à vista de todos, e o gesto virou insígnia. Isaías usa a mesma imagem em 9.6, quando diz que o principado estaria sobre os ombros do menino prometido. Sebna ocupava o cargo chamado ʿal-habbayit (sobre a casa, o administrador do palácio). Era o segundo homem do reino, abaixo só do rei, com a guarda das portas, dos depósitos e das audiências. Isaías 22.15 também o chama de sōkēn (mordomo, o que cuida dos bens de outro). O título lembra o essencial do posto: Sebna guardava uma casa alheia. A chave era emprestada pelo rei, e por cima do rei, pelo Deus de Davi. O motivo da queda está no versículo 16. Sebna mandou cavar um sepulcro no alto da rocha, uma casa de pedra para o próprio nome. Isaías pergunta o que ele tinha ali para se dar a essa obra, e o compara a uma bola arremessada para uma terra larga. Em 1870, o arqueólogo francês Charles Clermont-Ganneau retirou de um túmulo na aldeia de Silwan, junto a Jerusalém, uma inscrição em hebraico antigo. Em 1953, o epigrafista israelense Nahman Avigad decifrou o texto: o túmulo pertencia a alguém “[...]yahu, que está sobre a casa”. O começo do nome está quebrado na pedra. Avigad propôs Sebanyahu, a forma longa de Sebna, mas a identificação segue sem prova: nenhuma letra restante confirma o nome inteiro. A inscrição está hoje no Museu Britânico, em Londres. O fim de Sebna aparece em 2 Reis 18.18, durante o cerco do rei assírio Senaqueribe, em 701 a.C. Eliaquim já é o mordomo do palácio. Sebna está na mesma comitiva, agora como escrivão, um posto abaixo. Perdeu a chave, mas ficou na corte. A promessa a Eliaquim tem mais três versos. Isaías 22.23 diz que Deus o fixaria como um prego em lugar firme, e 22.24 pendura nele a família inteira, até as vasilhas menores. E 22.25 avisa: o prego cederia e cairia, com tudo o que estava pendurado nele. A Bíblia não registra como Eliaquim deixou o cargo nem quando. O texto só anuncia a queda, e nenhuma fonte antiga conta o resto.
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