| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
I Coríntios 13 é o texto mais lido em casamentos. "O amor é paciente, é benigno." As palavras são impressas em convites, recitadas em cerimônias, emolduradas em paredes de sala de estar. Parece poesia romântica. Parece que Paulo escreveu um poema sobre o amor ideal.
Mas Paulo não estava escrevendo para noivos. Estava escrevendo para uma igreja que estava se despedacando.
Paulo escreveu a Primeira Carta aos Coríntios por volta de 53-55 d.C., provavelmente de Éfeso. Corinto era uma cidade reestabelecida por Júlio César em 44 a.C. como colônia romana, e em poucas décadas havia se tornado um dos centros comerciais mais importantes do Mediterrâneo.
Corinto era conhecida por sua diversidade e por seus excessos. O templo de Afrodite no topo do Acrocorinto era famoso em todo o mundo antigo. A cidade era cosmopolita, rica, ambiciosa e moralmente complexa. A igreja que Paulo fundou ali por volta de 50-51 d.C. refletia essa complexidade.
E a carta de Paulo revela o tamanho do problema. Nos doze capítulos que antecedem o capítulo 13, Paulo aborda: facções na igreja, com grupos rivais dizendo "eu sou de Paulo", "eu sou de Apolo", "eu sou de Cefas"; um caso de imoralidade sexual que a igreja tolerava com orgulho; processos judiciais entre irmãos, levados a tribunais pagãos; disputas sobre comida sacrificada a ídolos; abuso na Ceia do Senhor, onde os ricos comiam e bebiam em excesso enquanto os pobres passavam fome; e uma competição tóxica sobre dons espirituais, com membros se considerando superiores por falarem em línguas.
Esse é o contexto imediato do capítulo 13. Paulo acabou de falar sobre dons espirituais no capítulo 12. E então diz: "Eu passo a mostrar-vos um caminho sobremodo excelente" (12:31). E o que se segue não é poesia para casamentos. É uma correção pastoral para uma comunidade em colapso.
A palavra grega para amor nesse texto é agape. No grego clássico, agape era um termo relativamente raro e sem o peso que adquiriu no Novo Testamento. O grego tinha múltiplas palavras para amor: eros (amor romântico e desejo), philia (amor fraterno e amizade), storge (afeição familiar). Agape era a menos definida, a mais genérica.
Os autores do Novo Testamento, e Paulo em particular, pegaram essa palavra quase neutra e a redefiniram por completo. Em I Coríntios 13, Paulo não define agape pelo que ela sente. Define pelo que ela faz e não faz. O amor é paciente (makrothymei, literalmente "tem o pavio longo", demora para explodir). E benigno (chresteuetai, age com utilidade prática). Não é invejoso (ou zeloi). Não se ensoberbece (ou physioutai, não se infla como um balão).
Cada uma dessas características é uma resposta direta a um problema específico de Corinto. A inveja? As facções que competiam por status. A soberba? Os que se inflavam por seus dons espirituais. A busca pelos próprios interesses? Os ricos que comiam sem esperar os pobres na Ceia. A irritação? Os processos judiciais entre irmãos. Paulo não está fazendo filosofia abstrata sobre o amor. Está descrevendo, ponto por ponto, o comportamento oposto ao que a igreja de Corinto estava praticando.
Agape, no sentido paulino, não é sentimento. É decisão. É a escolha de agir em favor do outro mesmo quando o outro não merece, não retribui e não reconhece. Essa definição foi revolucionária no mundo antigo e continua sendo no mundo moderno.
Ler I Coríntios 13 como texto de casamento não é errado. Mas é incompleto. É como usar um bisturi cirúrgico para abrir cartas. Funciona, mas não é pra isso que foi feito.
Paulo escreveu esse texto para uma comunidade onde as pessoas se odiavam em nome de Deus. Onde a espiritualidade virou competição. Onde os "mais espirituais" humilhavam os "menos espirituais". Onde o culto virou palco de exibição. E para essa comunidade, Paulo diz: sem amor, tudo o mais é barulho. "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine" (13:1). Ele está falando diretamente para os que se orgulhavam do dom de línguas.
A aplicação é brutal na sua simplicidade. Você pode ter o dom mais espetacular, a teologia mais correta, a generosidade mais impressionante, "ainda que distribua todos os meus bens para sustento dos pobres" (13:3), e tudo isso ser vazio se o motor não for agape. O amor que Paulo descreve não é decoração para dias bonitos. É o único fundamento que impede uma comunidade de se autodestruir.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Paulo não escreveu sobre o amor para noivos trocando alianças. Escreveu para pessoas que se odiavam em nome de Deus. Agape não é sentimento. É decisão. A decisão de agir em favor do outro mesmo quando o outro não merece, não retribui e não reconhece. Sem isso, tudo o mais é bronze que soa.
P.S.: Na próxima edição: "Tudo tem o seu tempo determinado." A palavra et no hebraico e o que Eclesiastes 3:1 realmente diz.
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