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O trecho hebraico é lapidar: im lo teitiv, la-petach chatat rovets, e a palavra que carrega o peso da imagem é a última, rovets. Rovets é particípio do verbo ravats, e o campo semântico dele é animal antes de ser moral. Ravats descreve o ato de dobrar as patas, encostar o ventre no chão e permanecer ali, numa posição que pode ser de descanso ou de emboscada, dependendo do bicho e do lugar. O Antigo Testamento usa o verbo em cenas bem concretas. Em Gênesis 49:9 o leão de Judá se agacha depois de subir da presa, com a força inteira guardada num corpo parado. Em Êxodo 23:5 o jumento aparece caído sob a carga, sem conseguir levantar. Em Deuteronômio 22:6 a ave está sobre o ninho, cobrindo os filhotes com o corpo. Em Ezequiel 34:14 as ovelhas se deitam em bom pasto, e o verbo carrega ali a paz do animal que pode baixar a guarda. Ravats, portanto, não traz maldade embutida: traz postura corporal, corpo baixo e imóvel num ponto escolhido. O contexto decide o tom da postura. Um leão agachado no capim alto e uma ovelha deitada no pasto fazem o mesmo movimento com significados opostos, e o texto de Gênesis 4 dá a pista com o complemento de lugar: la-petach, à entrada, à porta. Aqui entra a esquisitice gramatical. Chatat, pecado, é substantivo feminino em hebraico. O particípio rovets está no masculino. A frase, lida ao pé da letra, diz algo como o pecado, ele agachado, com um descompasso que qualquer estudante de primeiro ano nota na primeira leitura. Os comentadores antigos tentaram resolver o descompasso de várias formas. Alguns propuseram que o particípio se liga a um sujeito subentendido diferente de chatat. Outros trataram a discordância como licença arcaica. Uma parte da tradição rabínica leu ali o yetser hara, a inclinação ao mal, personagem masculino nas discussões talmúdicas. A leitura assiriológica trouxe outro dado para a mesa. O acádico registra o substantivo rabitsu, formado do mesmo radical r-b-ts, e o termo nomeia uma figura postada em lugar de passagem, um vulto que se agacha na soleira e espera. Com o dado do acádico na mão, a discordância deixa de ser erro e vira sinal. O masculino do particípio combina com a figura de tocaia, e a frase passa a descrever um agente parado num ponto específico, e não um estado difuso espalhado pela vida de Caim. O restante do versículo confirma a leitura de agente. A frase seguinte diz que o desejo dele será contra ti, usando teshuqah, a mesma palavra rara que aparece em Gênesis 3:16 e depois no Cântico dos Cânticos. Um estado abstrato não tem desejo dirigido a uma pessoa. E o verso fecha com mashal, dominar, o verbo de quem governa território ou animal. A ordem dada a Caim não é para sentir menos raiva ou pensar melhor: é para exercer domínio sobre algo que já está posicionado, com nome, gesto e endereço.
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