|
Imagine um oleiro à beira do Eufrates. Ele mistura barro com palha picada, aperta a massa numa forma de madeira, vira o bloco no chão e deixa secar ao sol. Esse é o tijolo cru, o mais barato da planície. O tijolo cru aguenta pouco. Com chuva, amolece e volta a ser lama. Para a parede externa, o oleiro levava os blocos ao forno, onde o fogo os endurecia até soarem como cerâmica quando batidos. O hebraico registra os dois gestos com som repetido. “Façamos tijolos” é nilbenah levenim (tijolemos tijolos), e “queimemo-los bem” é nisrefah lisrefah (queimemos com queima). Verbo e objeto saem da mesma raiz, como um refrão de canteiro de obra. A palavra para tijolo é levenah (bloco de barro moldado), ligada à raiz que significa branco. Os comentaristas associam o nome à cor clara do barro seco. O termo volta em Êxodo 1.14, quando os egípcios amarguram a vida de Israel “em barro e em tijolos”. A segunda metade do versículo traz a cola. Betume, em hebraico ḥemar (piche natural), é o petróleo que brota do chão e endurece ao ar. Na Mesopotâmia ele minava em poças, pronto para esquentar no fogo e espalhar com espátula. O narrador brinca com o som outra vez. Betume é ḥemar, e a argamassa que o leitor de Canaã conhecia é ḥomer (barro de assentar, que a Almeida traduz por cal). Duas palavras quase iguais: uma do mundo de Canaã, outra do mundo de Babel. O historiador grego Heródoto descreveu o método. Nas “Histórias”, livro 1, escritas em torno de 430 a.C., ele conta que os babilônios cozinhavam os tijolos em fornos, usavam betume quente como argamassa e intercalavam esteiras de junco entre as camadas. Heródoto também diz de onde vinha a cola. A cidade de Is, junto a um rio que deságua no Eufrates, a oito dias de Babilônia, tinha fontes de betume. Hoje o lugar se chama Hit, no Iraque, e o piche ainda aflora ali. O betume aparece de novo na Bíblia, num objeto bem menor. Em Êxodo 2.3, a mãe de Moisés faz uma arca de juncos e “a betumou com betume e pez”. A palavra ḥemar veda o cesto que salva o bebê no Nilo. Os zigurates seguiam a receita de Gênesis 11.3. O arqueólogo alemão Robert Koldewey escavou Babilônia entre 1899 e 1917 e achou a base do Etemenanki, o zigurate do templo de Marduk, com núcleo de tijolo cru e casca de tijolo queimado. Muitos tijolos daquela obra levavam o carimbo do rei Nabucodonosor II, com seus títulos. O construtor queria ser lembrado pelo material. Gênesis 11.4 dá o mesmo motivo à torre de Babel: “façamo-nos um nome”. Gênesis não diz que a torre de Babel era o Etemenanki. O texto não traz data nem rei, e o zigurate de Nabucodonosor é muito posterior à cena. Os estudiosos ligam os dois pelo material e pelo lugar, sem prova de que se trate da mesma obra.
|