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Gênesis 11.3: O Tijolo de Babel

Sem pedreira na planície, Babel queimou barro no forno e colou com betume, a receita dos zigurates

Mãos de oleiro tirando um tijolo de barro da forma

Tijolo queimado e betume, sem pedreira

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“E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal.” Assim a Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898, traduz Gênesis 11.3.

O versículo serve a quem olha para a própria vida e só enxerga falta: de tempo, de dinheiro, de preparo. Os construtores de Babel também não tinham pedra, e mesmo assim ergueram uma torre.

A cena se passa na terra de Sinar, a planície entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje fica o sul do Iraque. Gênesis 11.2 conta que um povo vindo do oriente achou ali um vale e se estabeleceu.

Quem chega à planície logo percebe o problema. O chão é aluvião, terra trazida pelas cheias dos rios. Há barro em toda parte, junco nas margens e palmeiras. Rocha boa para cortar, quase nenhuma, e a mais próxima fica a dias de viagem.

O narrador de Gênesis escrevia para leitores que conheciam outra paisagem. Em Canaã, casas, muros e altares eram de pedra, assentada com argamassa. Para esse leitor, uma cidade inteira de barro cozido soava estranha.

Daí o versículo interrompe a história e explica o material. É raro: Gênesis quase nunca descreve técnica de obra. Aqui gasta uma frase inteira com forno e cola, como quem anota um costume estrangeiro para quem nunca o viu.

E a nota confere com o que a arqueologia achou. Os templos em degraus da Mesopotâmia, chamados zigurates, eram montanhas artificiais de tijolo cru por dentro, revestidas de tijolo queimado e assentadas com betume.

Gente sem pedreira inventou um jeito de subir. A pergunta desta edição é o que essa engenhosidade revela sobre quem constrói, e por que a torre parou mesmo com o material certo nas mãos.

A faixa I abre a frase hebraica, mostra o trocadilho que o narrador escondeu nos dois materiais e segue a cola até a fonte de onde ela brotava.

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I  A Palavra

Barro, forno e betume

 

Imagine um oleiro à beira do Eufrates. Ele mistura barro com palha picada, aperta a massa numa forma de madeira, vira o bloco no chão e deixa secar ao sol. Esse é o tijolo cru, o mais barato da planície.

O tijolo cru aguenta pouco. Com chuva, amolece e volta a ser lama. Para a parede externa, o oleiro levava os blocos ao forno, onde o fogo os endurecia até soarem como cerâmica quando batidos.

O hebraico registra os dois gestos com som repetido. “Façamos tijolos” é nilbenah levenim (tijolemos tijolos), e “queimemo-los bem” é nisrefah lisrefah (queimemos com queima). Verbo e objeto saem da mesma raiz, como um refrão de canteiro de obra.

A palavra para tijolo é levenah (bloco de barro moldado), ligada à raiz que significa branco. Os comentaristas associam o nome à cor clara do barro seco. O termo volta em Êxodo 1.14, quando os egípcios amarguram a vida de Israel “em barro e em tijolos”.

A segunda metade do versículo traz a cola. Betume, em hebraico ḥemar (piche natural), é o petróleo que brota do chão e endurece ao ar. Na Mesopotâmia ele minava em poças, pronto para esquentar no fogo e espalhar com espátula.

O narrador brinca com o som outra vez. Betume é ḥemar, e a argamassa que o leitor de Canaã conhecia é ḥomer (barro de assentar, que a Almeida traduz por cal). Duas palavras quase iguais: uma do mundo de Canaã, outra do mundo de Babel.

O historiador grego Heródoto descreveu o método. Nas “Histórias”, livro 1, escritas em torno de 430 a.C., ele conta que os babilônios cozinhavam os tijolos em fornos, usavam betume quente como argamassa e intercalavam esteiras de junco entre as camadas.

Heródoto também diz de onde vinha a cola. A cidade de Is, junto a um rio que deságua no Eufrates, a oito dias de Babilônia, tinha fontes de betume. Hoje o lugar se chama Hit, no Iraque, e o piche ainda aflora ali.

O betume aparece de novo na Bíblia, num objeto bem menor. Em Êxodo 2.3, a mãe de Moisés faz uma arca de juncos e “a betumou com betume e pez”. A palavra ḥemar veda o cesto que salva o bebê no Nilo.

Os zigurates seguiam a receita de Gênesis 11.3. O arqueólogo alemão Robert Koldewey escavou Babilônia entre 1899 e 1917 e achou a base do Etemenanki, o zigurate do templo de Marduk, com núcleo de tijolo cru e casca de tijolo queimado.

Muitos tijolos daquela obra levavam o carimbo do rei Nabucodonosor II, com seus títulos. O construtor queria ser lembrado pelo material. Gênesis 11.4 dá o mesmo motivo à torre de Babel: “façamo-nos um nome”.

Gênesis não diz que a torre de Babel era o Etemenanki. O texto não traz data nem rei, e o zigurate de Nabucodonosor é muito posterior à cena. Os estudiosos ligam os dois pelo material e pelo lugar, sem prova de que se trate da mesma obra.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O material que você tem à mão

 

Pense no projeto que você adiou porque faltava a pedra certa. O curso que não fez sem diploma, a conversa que esperou o momento ideal, a oração deixada para quando a casa estivesse em silêncio.

Os construtores de Sinar não esperaram a pedreira aparecer. Olharam o chão, viram barro e transformaram o barro em bloco. Depois procuraram a cola que a terra oferecia e acharam o betume.

A engenhosidade em si não recebe crítica no texto. Gênesis não condena o forno nem o tijolo, e a mãe de Moisés vai betumar o cesto do filho. O material é neutro; o problema aparece no versículo seguinte.

Em Gênesis 11.4, o povo diz para que quer a torre: tocar os céus, ganhar fama e não ser espalhado. Deus tinha mandado encher a terra, em Gênesis 9.1. A obra servia para ficar parado e ser lembrado.

Daí sai a primeira aplicação. Use o material que você tem, mas pergunte para quem a obra está subindo. Tijolo queimado serve tanto para um cesto que salva uma criança quanto para uma torre que só quer fama.

A segunda aplicação olha para o forno. Tijolo cru desmancha na primeira chuva; o queimado aguenta séculos. Hábito que nunca passou pelo calor de um dia ruim costuma voltar a ser lama na primeira semana difícil.

A terceira aplicação trata da cola. Heródoto conta que os babilônios esquentavam o betume antes de usar. Fé, trabalho e amizade também pedem algo que una as camadas, e essa liga costuma brotar perto de você.

Três passos, 20 minutos somados, põem o versículo em prática.

1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Gênesis 11.1 a 11.9 e sublinhe as duas vezes em que o povo diz “Eia”, nos versículos 3 e 4, e a vez em que Deus usa a palavra, no versículo 7.

2. Segundo passo, 10 minutos. Faça duas colunas num papel. Na primeira, liste três projetos parados por falta de pedra. Na segunda, anote o barro que você já tem para cada um.

3. Terceiro passo, 5 minutos. Escolha um projeto e escreva, numa linha, para quem ele sobe: para a sua fama, para alguém que você serve ou para Deus.

O primeiro erro é ler Babel como crítica à técnica. O texto descreve o forno sem reprovar. O juízo cai sobre o motivo, dito no versículo 4, e não sobre a qualidade do tijolo.

O segundo erro é achar que falta de recurso impede a obra. Sinar não tinha pedra e mesmo assim produziu as maiores construções da sua época, inteiras de barro.

O terceiro erro é carimbar a própria fama em cada bloco. Nabucodonosor fez exatamente essa troca, e hoje seus tijolos estão em vitrines de museus de Berlim e de Londres, lidos por turistas que mal sabem quem ele foi.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

A torre que parou no tijolo

 

Volte à planície, no versículo 5. Na mesma Almeida, “desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam”. A obra que queria tocar os céus era tão pequena, vista de cima, que Deus precisou descer para olhá-la.

O castigo não derruba a torre. Gênesis não fala de raio, terremoto nem desabamento. Deus confunde a língua dos construtores, e o versículo 8 diz que eles “cessaram de edificar a cidade”.

Imagine o canteiro na manhã seguinte. Um pede tijolo, o outro entrega betume. A obra exigia coordenação: quem moldava, quem queimava, quem esquentava o piche. Sem entender a fala do vizinho, cada equipe parou.

O texto não conta o destino da torre inacabada. Não diz se ruiu, se foi desmontada ou se ficou de pé, vazia. O narrador perde o interesse no edifício quando os construtores vão embora, e nenhuma fonte antiga completa a história.

Os zigurates reais tiveram fim parecido. O historiador grego Arriano, na “Anábase de Alexandre”, do século 2, conta que Alexandre, o Grande, mandou limpar o entulho do templo de Marduk para reerguê-lo. A obra parou com a morte dele, em 323 a.C.

O versículo 9 explica o nome da cidade com outro trocadilho. Babel soa como balal (confundir, misturar), e o narrador diz que ali o Senhor confundiu a língua de toda a terra. Os babilônios entendiam o nome como “porta de deus”.

Aqui as duas cenas se juntam. O povo queria fama e recebeu um apelido: confusão. O tijolo carimbado de rei ficou no chão, e a cidade entrou na Bíblia pela palavra que zomba dela.

A Bíblia guarda outra resposta para quem quer subir. Em Gênesis 28.12, Jacó dorme sobre uma pedra comum e vê “uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus”. Ali quem sobe e desce são os anjos, e a obra é de Deus.

Jacó acorda e levanta como coluna a pedra que usou de travesseiro, em Gênesis 28.18. Pedra bruta, sem forno nem betume. A casa de Deus começa com o material que já estava no chão.

Que torre você está erguendo com o barro que tem, e para quem ela sobe?

Hoje, até as 22 horas: escolha uma tarefa só, de 15 minutos, e faça-a para outra pessoa, sem contar a ninguém quem fez.

 
 
 
 
 
Quiz da edição

Segundo Heródoto, a que distância de viagem de Babilônia ficava a cidade de Is, a fonte do betume usado como argamassa dos tijolos?

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