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φέρω, phérō, o verbo por trás de phortíon, é uma das raízes mais produtivas que o indo-europeu deixou, e ela chegou ao português por duas estradas ao mesmo tempo.
Pela grega vieram palavras que ninguém associa a carga. μεταφορά, metaphorá, é carregar de um lugar para outro, e virou o nome da figura que transporta sentido de um campo para o outro.
φωσφόρος, phōsphóros, é o portador de luz, que o português guardou em fósforo. Χριστοφόρος, o que carrega Cristo, virou Cristóvão. ἀμφορεύς, o vaso que se leva pelas duas alças, virou ânfora.
Pela latina veio fero, ferre, o mesmo verbo com outra roupa: transferir, conferir, referir, oferecer, diferir. E veio sofrer, que é sub ferre, carregar por baixo. Suportar tem a mesma anatomia com outro verbo, sub portare.
Sofrer, em português, é literalmente estar embaixo da carga. Nenhuma imagem nova precisou ser inventada para descrever a semana difícil, ela já morava dentro do verbo.
Do outro lado da família, βαρύς deu barômetro, barítono, isóbara e bariátrica, e deu também o grave da música, que é a nota pesada, a que desce.
Há ainda uma ponte que sai do grego e volta ao hebraico. A Bíblia hebraica chama peso de כָּבֵד, kavéd, ser pesado, e da mesma raiz tira כָּבוֹד, kavód, a palavra que o português traduz por glória.
Glória, em hebraico, é peso. Alguém tem kavód quando tem substância, quando pesa de verdade na balança. Por essa raiz Paulo escreve βάρος δόξης, peso de glória, em 2 Coríntios 4:17: pensa em hebraico e escreve em grego.
A mesma raiz descreve o coração do Faraó em Êxodo 7:14, kavéd, pesado, o coração que não se move. O peso pode ser glória e pode ser a coisa que trava. A diferença não está no peso, está em quem o sustenta.
Gálatas foi escrita para comunidades rachadas por uma discussão sobre quem cumpria a lei do jeito certo. A resposta da carta termina na única lei que ninguém cumpre sozinho: você precisa do peso de outra pessoa para cumpri-la.
A separação entre as duas palavras protege dos dois excessos ao mesmo tempo. Quem só escuta 6:2 monta uma comunidade que carrega a marcha alheia e não sai do lugar. Quem só escuta 6:5 deixa gente caída na estrada, chamando de responsabilidade o que já virou esmagamento.
Três versículos de distância e nenhuma contradição. O peso grande demais se divide, a marcha continua sendo de cada um, e o verbo que serve aos dois é o mesmo.
A pergunta que as duas palavras deixam para quem lê: o que está no seu ombro hoje é báros que você nunca pediu para dividir, ou phortíon que você entregou a alguém quando a marcha era sua?
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