| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
O que a tradução chama de "prossigo" esconde o verbo mais constrangedor da biografia de Paulo. Diṓkō significa perseguir, caçar, correr atrás pra agarrar. É a mesma palavra que ele usa oito versículos antes pra confessar: "perseguidor da igreja". O caçador de cristãos descreve a corrida rumo a Cristo com o verbo da caçada.
Filipenses 3:14 virou o versículo das camisetas de corrida e dos cartazes de motivação: "Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus". Lido assim, solto, parece só uma metáfora esportiva, e a maioria dos leitores passa por ele sem desconfiar do verbo que sustenta a frase.
Paulo escreve Filipenses de uma prisão, provavelmente em Roma, por volta do ano 61. A igreja de Filipos foi a primeira que ele fundou na Europa, numa colônia romana orgulhosa, cheia de veteranos do exército e habituada aos jogos e às corridas do mundo grego. Quando ele usa imagem de estádio, o leitor de Filipos enxerga a pista.
No capítulo 3, antes da corrida, vem o currículo. Paulo lista as credenciais que o judaísmo do primeiro século mais valorizava: circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu quanto à lei.
E no topo da lista, como prova máxima de zelo, a perseguição: "quanto ao zelo, perseguidor da igreja". No mundo dele, caçar a seita nascida em Nazaré era medalha, não mancha.
Então tudo vira. Paulo declara que considerou essas vantagens como perda, e usa uma palavra crua, skýbala, refugo, aquilo que se joga fora. É nesse ponto, com o currículo no lixo, que entra a imagem do corredor: "esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo".
O verbo que fecha a sequência é o mesmo do versículo 6. A carta inteira prepara o eco, e é nele que vale a pena se demorar.
A Palavra
O verbo é διώκω (diṓkō), e a forma do versículo é a primeira pessoa do presente: "eu persigo". A raiz descreve movimento acelerado atrás de algo que foge: o caçador atrás da presa, o soldado no encalço do inimigo. Daí o sentido derivado que domina o Novo Testamento: perseguir pessoas.
É o verbo da estrada de Damasco. Quando a voz interrompe a viagem de Saulo, a pergunta usa exatamente essa palavra: "Saulo, Saulo, por que me persegues?", tí me diṓkeis (Atos 9:4). É o verbo das confissões mais duras de Paulo: "perseguia a igreja de Deus e a devastava" (Gálatas 1:13); "persegui a igreja de Deus" (1 Coríntios 15:9). Na biografia do apóstolo, diṓkō é a palavra da culpa.
E é justamente ela que ele escolhe em Filipenses 3:14: katà skopòn diṓkō, "persigo rumo ao alvo". Skopós é a marca visível no fim da pista, o ponto que o corredor não tira dos olhos, a raiz de onde vem a palavra "escopo". Brabeîon é o prêmio do vencedor, entregue pelo árbitro da prova. A cena é de estádio grego, e nela o corredor não trota: caça a linha de chegada.
O detalhe que muda a leitura é que Paulo tinha verbos mais mansos à disposição. O grego oferecia tréchō, simplesmente "correr", que ele mesmo usa em outras cartas quando fala da vida como corrida. Oferecia verbos de caminhar, de seguir, de avançar. Ele passou por todos e escolheu o verbo da própria vergonha, aquele que qualquer leitor que conhecesse a sua história ouviria com um arrepio.
O efeito é deliberado. Dentro do mesmo capítulo, diṓkō aparece duas vezes: no versículo 6, apontando pra trás, "perseguidor da igreja"; no versículo 14, apontando pra frente, "prossigo para o alvo". Mesma palavra, mesma intensidade, direção oposta. A conversão não produziu um Paulo mais lento. Produziu um Paulo com outro alvo.
E o tempo verbal confirma. Diṓkō está no presente contínuo: "sigo perseguindo". Dois versículos antes, ele nega duas vezes já ter chegado: "não que já a tenha alcançado ou que seja perfeito". O verbo da caçada é o verbo de quem ainda corre. A fé madura, na gramática de Paulo, não é a chegada: é a perseguição em andamento.
Há ainda um gesto físico escondido no versículo 13. "Avançando para as que diante de mim estão" traduz epekteinómenos: o corpo esticado pra frente, o tronco lançado além dos pés, a postura do corredor no último metro antes da fita. É essa figura, tensionada e faminta, que Paulo escolhe pra descrever a vida espiritual.
Muita espiritualidade trata a intensidade como defeito. A pessoa obsessiva, competitiva, que não larga o osso, aprende cedo que precisa "se acalmar" pra ser santa, como se a santidade fosse uma versão sedada de si mesma. O verbo de Filipenses 3:14 diz o contrário. Deus não desligou o motor do perseguidor. Trocou o destino.
Se a mesma palavra descreve Saulo caçando cristãos de casa em casa e Paulo correndo rumo a Cristo, o problema nunca foi a energia. Foi o alvo. A pergunta útil deixa de ser "como diminuir o meu impulso" e passa a ser "pra onde o meu impulso está apontando". São perguntas diferentes, e a segunda é bem mais honesta.
Todo mundo já persegue alguma coisa em piloto automático. Aprovação, dinheiro, a aparência de estar bem, a próxima notificação. O diṓkō já existe em cada um, funcionando o dia inteiro sem pedir licença. O que quase ninguém fez foi o que Paulo fez: parar, olhar a própria caçada e decidir conscientemente o skopós dela.
Daí a primeira prática: nomear o alvo. O corredor grego só conseguia correr daquele jeito porque a marca no fim da pista era visível e fixa. Vale o gesto concreto de escrever, em uma frase, o que se está perseguindo neste ano, e conferir se a rotina de fato corre naquela direção. Corrida sem alvo declarado não é liberdade, é agitação: gasta-se a mesma energia e não se chega a lugar nenhum.
A segunda prática vem do versículo 13: esquecer o que ficou atrás. Repare que Paulo esquece as duas coisas, o currículo e a culpa. As credenciais de fariseu e os anos de perseguidor ficam no mesmo lugar: atrás. Quem corre olhando por cima do ombro, seja pra admirar as próprias medalhas, seja pra reviver as próprias falhas, perde velocidade e sai da raia.
Existe um teste simples pra descobrir o alvo real. Durante uma semana, observe pra onde vai a primeira hora do dia e pra onde a mente escorrega quando está em repouso. A resposta revela a caçada em curso, aquela que ninguém decidiu formalmente, mas que organiza a vida inteira. O resultado costuma surpreender.
E então vem a decisão que o versículo propõe: não amputar o impulso, apontá-lo. A oração de quem se descobre obsessivo não precisa ser "Senhor, me faça desacelerar". Pode ser a oração de Paulo: que a intensidade que já existe passe a correr atrás do que vale a corrida. O zelo que devastava igrejas, redirecionado, plantou igrejas pela Europa inteira. O mesmo motor. Outro alvo.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Diṓkō. Perseguir, caçar, correr atrás pra alcançar. O verbo com que Paulo confessa o pior de si é o verbo com que descreve o melhor: "perseguidor da igreja" no versículo 6, "prossigo para o alvo" no versículo 14, o mesmo capítulo, a mesma palavra, a direção invertida.
A conversão na estrada de Damasco não devolveu um homem morno. Devolveu o mesmo caçador, com o currículo no lixo e os olhos presos em outro skopós. A graça não pediu que ele fosse menos intenso; pediu que toda aquela força corresse pra outro lado. E a gramática guarda a honestidade: o verbo segue no presente, "sigo perseguindo", porque ninguém cruza a fita antes da hora.
A obsessão que a religiosidade manda sedar talvez seja só uma caçada sem alvo digno. O impulso já existe. Ele já corre o dia inteiro atrás de alguma coisa, com ou sem permissão.
A pergunta do versículo não é se você persegue, é o que você persegue. E a resposta de Paulo continua de pé: aponte o perseguidor pro prêmio da soberana vocação, e o que era vergonha vira corrida.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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