| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Paulo escreve da prisão a uma igreja que ama. Os filipenses estão sob pressão e, internamente, ameaçados por rivalidade e vaidade. Para curar a divisão, Paulo não dá uma ordem, dá um exemplo, e o exemplo é o próprio Deus.
Cita o que muitos consideram um hino cristão pré-paulino sobre a descida e a exaltação de Cristo. No coração dele: all' heautòn ekénōsen morphḕn doúlou labṓn. "Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo."
"Esvaziou-se" traduz uma única palavra grega, ekénōsen, tão densa que gerou o nome de uma doutrina inteira: a kénosis. E a pergunta que ela abre é simples e vertiginosa: se Deus se esvaziou, esvaziou-se de quê?
A Carta aos Filipenses foi escrita na prisão, por volta de 60-62 d.C., à primeira igreja fundada por Paulo na Europa. O problema concreto do capítulo 2 é a desunião. Por isso o apelo (2:1-4): nada por contenda ou vanglória.
E a base teológica (2:5): "Haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus." Segue-se o Carmen Christi (2:6-11), com a descida (vv. 6-8) e a exaltação (vv. 9-11).
O contexto não é especulativo, é ético: a maior descida da história é apresentada como modelo de comportamento numa igreja briguenta.
A Palavra
Ekénōsen é o aoristo de kenóō, "esvaziar, tornar vazio, anular", do adjetivo kenós, "vazio, oco" (a mesma raiz de "cenotáfio", o túmulo vazio). Literalmente, ekénōsen heautón é "esvaziou a si mesmo". Aplicada a Cristo, a palavra é chocante: aquele que subsiste em morphḕ theoû (forma de Deus) torna-se kenós, oco.
Esvaziou-se de quê? A gramática responde, e é mais sutil do que parece. O versículo não diz "esvaziou-se de sua divindade", não há objeto dizendo "do que". O que o texto diz é como: morphḕn doúlou labṓn, "tomando forma de servo".
O esvaziar-se não é uma subtração (perder atributos divinos), mas uma adição paradoxal: ele se esvazia assumindo a condição de servo. Esvazia-se enchendo-se de humanidade. A kénosis é por acréscimo de servidão, não por perda de divindade.
Há um termo contrastado logo antes: harpagmós (v. 6), "algo a ser agarrado, retido como espólio". Cristo não tratou a igualdade com Deus como harpagmós. O contraste é exato: em vez de agarrar, ele esvaziou.
E note morphḗ: não a aparência superficial (isso seria schêma), mas a forma que corresponde à natureza, o modo de ser que expressa a essência. Quem estava na morphḗ de Deus assume a de doûlos, escravo, o degrau mais baixo.
A doutrina que recebe o nome desse verbo, a kénosis, é o auto-esvaziamento de Cristo na encarnação: ele não deixou de ser Deus, mas velou o exercício pleno de sua glória.
Há duas leituras erradas, em extremos opostos. A kenótica radical: "Cristo, ao encarnar, abriu mão de ser Deus, virou só um homem". Mas o texto não diz "esvaziou-se de" com objeto; diz que ele se esvaziou tomando forma de servo.
A kénosis é descrita por acréscimo de humildade, não por perda de essência. A oposta é a docética: "ele só parecia servo, um disfarce". Mas morphḗ não é fantasia; é modo de ser verdadeiro. A fome, o cansaço, a angústia do Getsêmani, a morte, não foram encenação.
A leitura correta segura as duas pontas: Cristo é plenamente Deus e assume plenamente a condição de servo. O esvaziar-se não diminui a divindade; revela do que ela é capaz. O ato supremo de Deus não foi poder de cima para baixo, mas descida voluntária até o último degrau. A onipotência se expressa, no clímax da revelação, como auto-esvaziamento.
A igreja de Filipos brigava por posição. Paulo responde com um Deus que abriu mão da posição mais alta concebível. O argumento é demolidor: se aquele se esvaziou, quem és tu para te agarrares à tua pequena precedência?
Cada vez que você cede um lugar, abre mão de uma razão, escolhe servir, está fazendo em miniatura o que ekénōsen descreve em magnitude infinita. E a estrutura do hino consola: à descida corresponde a exaltação, "por isso (diò) Deus o exaltou soberanamente".
O que se esvazia à maneira de Cristo será exaltado à maneira de Cristo.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Ekénōsen. "Esvaziou-se", de kenós, oco, vazio. Não esvaziou-se da divindade (não há objeto dizendo "de quê"), mas esvaziou-se tomando forma de servo: kénosis por acréscimo de humildade, não por subtração de essência. Em vez de agarrar (harpagmós) a igualdade com Deus, ele a soltou.
A onipotência se revelou, no clímax, como descida voluntária ao último degrau. E Paulo cita tudo isso por um motivo prático: para curar a vaidade de uma igreja. Se Deus se esvaziou assim, nenhuma precedência humana vale ser agarrada.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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