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100% escolheram Onésimo em Filemom 11. Aqui está.
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Filemom 11
Antes te foi inútil, mas agora muito útil
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A carta que voltou junto com o fugitivo
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«Vive com o teu escravo com brandura, e mesmo com afabilidade.» Sêneca escreveu a frase na carta 47 a Lucílio, por volta do ano 64, e ela mostra o teto da imaginação romana sobre o assunto: tratar bem quem continuava sendo propriedade. Paulo pediu outra coisa. A carta a Filemom tem 25 versículos, cabe numa folha e saiu da prisão para um homem rico de Colossos, dono da casa onde a igreja da cidade se reunia. O assunto da carta é uma pessoa só: Onésimo, escravo de Filemom, que fugiu da casa do dono, chegou até onde Paulo estava preso e virou cristão naquele endereço. A fuga era crime com pena pesada. Pelo direito romano, o senhor podia marcar o fugitivo a ferro na testa, mandá-lo para a mina ou vendê-lo para a arena, e quem abrigasse um escravo alheio respondia pelo prejuízo diante do tribunal. Paulo devolve o rapaz e manda a carta junto, na função de carta de recomendação. Ele pede que Filemom receba o fugitivo como irmão e se oferece para pagar do próprio bolso o que o escravo tiver levado da casa. O texto não usa a palavra liberdade em nenhuma linha. Paulo trabalha por dentro da relação: ele escreve ao dono, chama o escravo de filho e coloca o próprio nome como garantia da dívida. A carta é o texto mais curto atribuído a Paulo e o único endereçado a uma questão doméstica: nenhuma doutrina, nenhuma correção de igreja, nenhum tema geral, só o caso de um homem que precisa voltar para uma casa. No versículo 11, no meio do pedido, Paulo faz um jogo com o nome do rapaz. Onésimo era nome comum de escravo na Grécia e na Ásia Menor, e queria dizer, em grego, proveitoso, aquele que rende. A frase grega desse versículo tem duas palavras quase idênticas, separadas por um prefixo de duas letras, e uma terceira palavra que o ouvido de quem escutava a carta lida em voz alta reconhecia na hora. Continue lendo ↓
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I A Palavra
Uma letra entre o problema e o irmão
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Alguém no seu trabalho carrega uma fama antiga: o que sumiu na hora errada, o que estourou o caixa. O nome da pessoa entra na conversa colado no episódio, e a fama envelhece melhor do que o fato. Paulo mexe exatamente nessa costura. Em Filemom 11 ele escreve que Onésimo, cujo nome em grego, Onēsimos, quer dizer proveitoso, foi antes áchrēstos (inútil, imprestável) e agora é eúchrēstos (muito útil, bom de serviço). As duas palavras nascem da mesma raiz e se separam pelo prefixo. O "a" nega, e o "eu" acrescenta a ideia de bem: a distância entre imprestável e valioso, no grego dessa frase, cabe em duas letras. A raiz das duas é chrēstós (útil, bom de uso, prestativo). Era palavra de feira e de oficina, usada para a ferramenta que serve, para o vinho que não azedou e para a pessoa de bom trato. Aí entra a terceira palavra. No grego falado do primeiro século, chrēstós soava quase igual a Christós (Cristo, o ungido), porque a vogal longa do meio já era pronunciada como i na boca do povo. A confusão está registrada por quem estava lá. Suetônio, em A Vida dos Doze Césares, por volta de 121, escreve que o imperador Cláudio expulsou de Roma os judeus agitados "por instigação de Chrestus", com a grafia trocada. Tertuliano reclama do mesmo erro em Apologético, no ano 197: os de fora chamavam os cristãos de "chrestianos", pronunciando a palavra errada e, sem querer, dizendo que eram "os bonzinhos". O trocadilho de Paulo, então, tem duas camadas: o escravo chamado Proveitoso passou de imprestável a proveitoso, e a palavra que descreve a virada é quase o nome de Cristo. Nada disso é ornamento. Paulo está escrevendo para um dono que tem o direito legal de castigar, e precisa que o nome do rapaz deixe de puxar a lembrança da fuga na cabeça de quem lê. O verbo do passado, nessa frase, está no aoristo, o tempo grego do fato encerrado: em português prático, foi inútil, acabou, não descreve mais a pessoa que está batendo na sua porta. Paulo volta à mesma raiz oito versículos depois. No verso 20 ele escreve "que eu tenha proveito de ti no Senhor", com o verbo onaímēn, parente direto do nome Onésimo, agora apontado para o dono. A brincadeira muda de alvo ali. O escravo já provou que rende; a pergunta que sobra, no fim da carta, é se o senhor de Colossos vai render alguma coisa para Paulo. Onēsimos aparece como nome de escravo em inscrições gregas e em papiros do Egito, ao lado de Chrēstos (útil) e Eutychos (afortunado). Eram nomes-desejo, escolhidos pelo dono, do jeito que se batiza um animal de trabalho. Um homem chamado Proveitoso fugiu, e o nome virou piada contra ele na boca da casa. Paulo pega a piada e a devolve virada do avesso.
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II Aplicação Prática
Troque o rótulo pelo fato em quinze minutos
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O gesto de Paulo cabe numa folha e em quinze minutos. Ele tem três partes: nomear a pessoa, separar o episódio antigo do presente e escrever isso para quem ainda decide alguma coisa sobre ela. Primeiro passo, quatro minutos. Escreva o nome completo de alguém que você julga por um episódio antigo: um funcionário, um irmão, um fornecedor, você mesmo. Um nome só, com o ano do episódio ao lado. Segundo passo, quatro minutos. Faça duas colunas. Na esquerda, o que era verdade no ano do episódio. Na direita, o que é verdade nos últimos doze meses, com fato datado, não com impressão. A coluna da direita vazia também responde alguma coisa. Se você não consegue escrever um fato recente, o problema não é a pessoa, é que você parou de olhar para ela depois daquele ano. Terceiro passo, cinco minutos. Escreva cinco linhas para quem decide sobre essa pessoa, inclusive se quem decide é você. Uma linha para o passado, três para os fatos novos, uma para o pedido concreto. Quarto passo, dois minutos. Assuma um custo seu na última linha, como Paulo fez ao escrever que pagaria a dívida do escravo. Sem custo assumido, o texto vira elogio, e elogio não muda decisão. Escreva o pedido com verbo no imperativo e prazo. "Receba", "chame para a reunião de terça", "aprove a compra até sexta". Pedido sem data volta para a gaveta de quem recebeu. O erro mais comum é apagar o passado. Paulo cita a inutilidade antiga com todas as letras antes de virar a página, porque quem recebe a carta já sabe do episódio e desconfia de texto que finge esquecimento. O segundo erro é a lista longa de qualidades. Três fatos datados pesam mais do que doze adjetivos, e quem lê cinco linhas chega ao fim, o que não acontece com uma página inteira. O terceiro erro é mandar o texto para a pessoa errada. A carta de Paulo vai para o dono, não para o escravo. Escreva para quem tem poder de mudar o que acontece amanhã. Vale para o seu próprio nome. Se a fama antiga é a sua, faça as duas colunas sobre você e mande as cinco linhas para quem ainda te trata pelo que você era no ano da coluna da esquerda. Marque uma releitura daqui a sessenta dias, cinco minutos. Confira se a coluna da direita ganhou linha nova. Se ganhou, mande a segunda carta; se não ganhou, o trabalho ainda não é de convencer ninguém. A conta fecha pequena: quinze minutos hoje, cinco minutos daqui a dois meses. Vinte minutos para desfazer um rótulo que uma casa inteira leva anos repetindo sem conferir se ainda é verdade.
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