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ED 167

100% escolheram Onésimo em Filemom 11. Aqui está.

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Filemom 11

Antes te foi inútil, mas agora muito útil

Carta curta de papiro na mão de um homem diante da porta de uma casa

A carta que voltou junto com o fugitivo

 
 

«Vive com o teu escravo com brandura, e mesmo com afabilidade.» Sêneca escreveu a frase na carta 47 a Lucílio, por volta do ano 64, e ela mostra o teto da imaginação romana sobre o assunto: tratar bem quem continuava sendo propriedade.

Paulo pediu outra coisa. A carta a Filemom tem 25 versículos, cabe numa folha e saiu da prisão para um homem rico de Colossos, dono da casa onde a igreja da cidade se reunia.

O assunto da carta é uma pessoa só: Onésimo, escravo de Filemom, que fugiu da casa do dono, chegou até onde Paulo estava preso e virou cristão naquele endereço.

A fuga era crime com pena pesada. Pelo direito romano, o senhor podia marcar o fugitivo a ferro na testa, mandá-lo para a mina ou vendê-lo para a arena, e quem abrigasse um escravo alheio respondia pelo prejuízo diante do tribunal.

Paulo devolve o rapaz e manda a carta junto, na função de carta de recomendação. Ele pede que Filemom receba o fugitivo como irmão e se oferece para pagar do próprio bolso o que o escravo tiver levado da casa.

O texto não usa a palavra liberdade em nenhuma linha. Paulo trabalha por dentro da relação: ele escreve ao dono, chama o escravo de filho e coloca o próprio nome como garantia da dívida.

A carta é o texto mais curto atribuído a Paulo e o único endereçado a uma questão doméstica: nenhuma doutrina, nenhuma correção de igreja, nenhum tema geral, só o caso de um homem que precisa voltar para uma casa.

No versículo 11, no meio do pedido, Paulo faz um jogo com o nome do rapaz. Onésimo era nome comum de escravo na Grécia e na Ásia Menor, e queria dizer, em grego, proveitoso, aquele que rende.

A frase grega desse versículo tem duas palavras quase idênticas, separadas por um prefixo de duas letras, e uma terceira palavra que o ouvido de quem escutava a carta lida em voz alta reconhecia na hora.

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I  A Palavra

Uma letra entre o problema e o irmão

 

Alguém no seu trabalho carrega uma fama antiga: o que sumiu na hora errada, o que estourou o caixa. O nome da pessoa entra na conversa colado no episódio, e a fama envelhece melhor do que o fato.

Paulo mexe exatamente nessa costura. Em Filemom 11 ele escreve que Onésimo, cujo nome em grego, Onēsimos, quer dizer proveitoso, foi antes áchrēstos (inútil, imprestável) e agora é eúchrēstos (muito útil, bom de serviço).

As duas palavras nascem da mesma raiz e se separam pelo prefixo. O "a" nega, e o "eu" acrescenta a ideia de bem: a distância entre imprestável e valioso, no grego dessa frase, cabe em duas letras.

A raiz das duas é chrēstós (útil, bom de uso, prestativo). Era palavra de feira e de oficina, usada para a ferramenta que serve, para o vinho que não azedou e para a pessoa de bom trato.

Aí entra a terceira palavra. No grego falado do primeiro século, chrēstós soava quase igual a Christós (Cristo, o ungido), porque a vogal longa do meio já era pronunciada como i na boca do povo.

A confusão está registrada por quem estava lá. Suetônio, em A Vida dos Doze Césares, por volta de 121, escreve que o imperador Cláudio expulsou de Roma os judeus agitados "por instigação de Chrestus", com a grafia trocada.

Tertuliano reclama do mesmo erro em Apologético, no ano 197: os de fora chamavam os cristãos de "chrestianos", pronunciando a palavra errada e, sem querer, dizendo que eram "os bonzinhos".

O trocadilho de Paulo, então, tem duas camadas: o escravo chamado Proveitoso passou de imprestável a proveitoso, e a palavra que descreve a virada é quase o nome de Cristo.

Nada disso é ornamento. Paulo está escrevendo para um dono que tem o direito legal de castigar, e precisa que o nome do rapaz deixe de puxar a lembrança da fuga na cabeça de quem lê.

O verbo do passado, nessa frase, está no aoristo, o tempo grego do fato encerrado: em português prático, foi inútil, acabou, não descreve mais a pessoa que está batendo na sua porta.

Paulo volta à mesma raiz oito versículos depois. No verso 20 ele escreve "que eu tenha proveito de ti no Senhor", com o verbo onaímēn, parente direto do nome Onésimo, agora apontado para o dono.

A brincadeira muda de alvo ali. O escravo já provou que rende; a pergunta que sobra, no fim da carta, é se o senhor de Colossos vai render alguma coisa para Paulo.

Onēsimos aparece como nome de escravo em inscrições gregas e em papiros do Egito, ao lado de Chrēstos (útil) e Eutychos (afortunado). Eram nomes-desejo, escolhidos pelo dono, do jeito que se batiza um animal de trabalho.

Um homem chamado Proveitoso fugiu, e o nome virou piada contra ele na boca da casa. Paulo pega a piada e a devolve virada do avesso.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

Troque o rótulo pelo fato em quinze minutos

 

O gesto de Paulo cabe numa folha e em quinze minutos. Ele tem três partes: nomear a pessoa, separar o episódio antigo do presente e escrever isso para quem ainda decide alguma coisa sobre ela.

Primeiro passo, quatro minutos. Escreva o nome completo de alguém que você julga por um episódio antigo: um funcionário, um irmão, um fornecedor, você mesmo. Um nome só, com o ano do episódio ao lado.

Segundo passo, quatro minutos. Faça duas colunas. Na esquerda, o que era verdade no ano do episódio. Na direita, o que é verdade nos últimos doze meses, com fato datado, não com impressão.

A coluna da direita vazia também responde alguma coisa. Se você não consegue escrever um fato recente, o problema não é a pessoa, é que você parou de olhar para ela depois daquele ano.

Terceiro passo, cinco minutos. Escreva cinco linhas para quem decide sobre essa pessoa, inclusive se quem decide é você. Uma linha para o passado, três para os fatos novos, uma para o pedido concreto.

Quarto passo, dois minutos. Assuma um custo seu na última linha, como Paulo fez ao escrever que pagaria a dívida do escravo. Sem custo assumido, o texto vira elogio, e elogio não muda decisão.

Escreva o pedido com verbo no imperativo e prazo. "Receba", "chame para a reunião de terça", "aprove a compra até sexta". Pedido sem data volta para a gaveta de quem recebeu.

O erro mais comum é apagar o passado. Paulo cita a inutilidade antiga com todas as letras antes de virar a página, porque quem recebe a carta já sabe do episódio e desconfia de texto que finge esquecimento.

O segundo erro é a lista longa de qualidades. Três fatos datados pesam mais do que doze adjetivos, e quem lê cinco linhas chega ao fim, o que não acontece com uma página inteira.

O terceiro erro é mandar o texto para a pessoa errada. A carta de Paulo vai para o dono, não para o escravo. Escreva para quem tem poder de mudar o que acontece amanhã.

Vale para o seu próprio nome. Se a fama antiga é a sua, faça as duas colunas sobre você e mande as cinco linhas para quem ainda te trata pelo que você era no ano da coluna da esquerda.

Marque uma releitura daqui a sessenta dias, cinco minutos. Confira se a coluna da direita ganhou linha nova. Se ganhou, mande a segunda carta; se não ganhou, o trabalho ainda não é de convencer ninguém.

A conta fecha pequena: quinze minutos hoje, cinco minutos daqui a dois meses. Vinte minutos para desfazer um rótulo que uma casa inteira leva anos repetindo sem conferir se ainda é verdade.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

O que a carta não conta

 

O fim da história de Onésimo não está no texto. A carta termina com Paulo pedindo que preparem hospedagem para ele em Colossos, e nenhuma linha diz o que Filemom decidiu ao ler o pedido.

O que se sabe é que a carta foi guardada. Uma casa que tivesse recusado o pedido dificilmente copiaria e faria circular o documento que a acusa; a sobrevivência do texto é o indício mais forte de que o pedido foi aceito.

Há um segundo indício. Colossenses 4:9 anuncia a chegada de Onésimo à mesma cidade, chamado de "fiel e amado irmão, que é dos vossos", sem uma palavra sobre condição de escravo.

A liberdade formal continua em aberto. Paulo escreve no verso 21 que confia na obediência de Filemom e sabe que ele fará "ainda mais do que digo", frase que muitos leem como alforria pedida sem ser nomeada.

O gesto também não era inédito no mundo romano. Plínio, o Jovem, escreveu ao amigo Sabiniano pedindo perdão para um liberto que tinha fugido de casa, e a carta entrou na coleção dele.

«Peço que o recebas de volta em tua casa, ou ao menos que aceites minhas súplicas por ele.» Plínio, o Jovem, Cartas 9.21, por volta do ano 107.

As duas cartas pedem coisas de tamanho diferente. Plínio pede clemência de patrono para patrono, sem mexer na hierarquia. Paulo pede que o dono receba o fugitivo na condição de irmão, o que desmonta a hierarquia por dentro.

Um século depois, Inácio de Antioquia escreve à igreja de Éfeso, por volta do ano 107, e elogia o bispo da cidade, chamado Onésimo, com um trocadilho na mesma raiz do nome.

Se esse bispo é o escravo da carta, ninguém consegue provar. Onésimo era nome comum demais entre escravos e libertos, e as contas de idade ficam apertadas: seriam uns cinquenta anos entre a fuga e o cargo.

Não se sabe também o que Onésimo levou da casa. Paulo escreve "se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso na minha conta", com um "se" que pode ser delicadeza ou dúvida real sobre o furto.

O que ficou de pé foi a carta. Ela entrou no cânon do Novo Testamento sem trazer regra de conduta, sem nomear pecado e sem dar ordem direta, num conjunto de livros escolhido por critério de utilidade doutrinária.

A frase do verso 11 continua funcionando fora do contexto dela. Ela diz que a descrição de alguém tem data, e que a descrição de ontem pode estar errada hoje, mesmo quando estava certa ontem.

"Quem na sua vida ainda é chamado pelo pior ano da história dele, e o que mudou desde então?"

Hoje: escolha um nome, escreva as duas colunas numa folha e mande as cinco linhas para quem decide sobre essa pessoa, uma carta só, nas próximas 24 horas.

 
 
 
 
 
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Quiz da edição

Ao devolver Onésimo, que compromisso Paulo assume diante de Filemom?

AComprar a liberdade de Onésimo no tribunal
BPedir que a igreja de Colossos cobrisse o prejuízo
CPagar do próprio bolso o que o escravo tivesse levado da casa
DCumprir no lugar de Onésimo a pena de trabalho na mina

Resultado da última edição: 88% acertaram.

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100% escolheram Onésimo em Filemom 11 na ed 164

 
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