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Ezequiel 8.14: O Choro por Tamuz

Na porta norte do templo, mulheres choravam um deus pastor da Mesopotâmia; o calendário judaico guarda o mês dele

Mulheres sentadas chorando junto à porta de um templo

Na porta norte, o luto por Tamuz

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“E levou-me à entrada da porta da Casa do SENHOR, que está da banda do norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz.” Ezequiel registrou a cena por volta de 592 a.C., e a Almeida Revista e Corrigida a traduz assim. A frase ainda serve a quem chora todo ano pela mesma perda e nunca pergunta para onde vai esse choro.

Ezequiel era sacerdote e vivia longe de Jerusalém. Em 597 a.C., o rei Nabucodonosor levou para a Babilônia o rei Joaquim e parte da elite de Judá, e o jovem sacerdote foi junto. Ele morava às margens do rio Quebar, um canal da Babilônia.

Ezequiel 8.1 data a visão com precisão: sexto ano do cativeiro, sexto mês, quinto dia. Os anciãos de Judá estavam sentados na casa do profeta quando uma mão o ergueu pelos cabelos e o levou, em visão, até o templo de Jerusalém.

Lá dentro, ele percorre quatro cenas, cada uma pior do que a anterior. Primeiro, um ídolo na entrada do norte. Depois, setenta anciãos queimando incenso diante de répteis e animais pintados na parede de um cômodo escondido.

A terceira cena volta à porta norte: mulheres sentadas no chão, chorando. A quarta, no pátio interno, mostra 25 homens de costas para o santuário, curvados para o leste, adorando o sol.

A cena das mulheres é a mais curta do capítulo, um versículo só. Ezequiel não diz quantas eram nem de que família vinham. Diz apenas por quem choravam, e o leitor do exílio entendia o resto sem explicação.

Tamuz era um deus que os povos da Mesopotâmia lamentavam todo verão. A Babilônia onde Ezequiel vivia conhecia bem esse luto. E o calendário judaico ainda hoje chama de Tamuz o quarto mês do ano, entre junho e julho.

A faixa I conta quem era esse deus, como ele descia todo ano ao mundo dos mortos e de que modo um ídolo babilônico acabou batizando um mês no calendário do povo que o profeta tentava avisar.

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I  A Palavra

O pastor que descia ao mundo dos mortos

 

Imagine junho na planície entre o Tigre e o Eufrates. O pasto seca, as ovelhas param de dar leite, o calor racha o barro. Nas cidades, mulheres saem para as portas e começam um lamento coletivo por um pastor jovem.

Os sumérios chamavam esse pastor de Dumuzi, e os hebreus escreveram tammûz (Tamuz, a forma hebraica do mesmo deus). Ele cuidava do rebanho, do leite e da estação verde, e cada cidade da região conhecia a sua história.

O mito mais conhecido sobre ele está em tábuas de argila sumérias que os estudiosos chamam de “A Descida de Inana ao Mundo Inferior”. Inana, deusa do amor e da guerra, desce ao reino dos mortos e fica presa lá.

Para sair, ela precisa entregar alguém no lugar dela. Volta à terra e encontra Dumuzi, o marido, sentado num trono, bem vestido, sem nenhum sinal de luto. Irritada, ela o entrega aos demônios que a acompanhavam.

A irmã de Dumuzi, Gestinana, se oferece para dividir a pena. A sentença fica assim: ele passa metade do ano entre os mortos, e ela a outra metade. A cada descida dele, o pasto seca e a terra chora.

O luto por Tamuz nasce dessa história. Todo ano, no mês do calor, as mulheres choravam o pastor que tinha descido. O lamento fazia parte do ciclo: chorar a ida para garantir a volta, junto com a chuva e o pasto novo.

No hebraico de Ezequiel, a frase é mevakkôt ʾet-hattammûz (chorando o Tamuz). O verbo bākâ (chorar) é o mesmo do choro comum na Bíblia. O detalhe estranho é o artigo: “o Tamuz”, como quem fala de um rito conhecido de todos na cidade.

Quase mil anos depois, Jerônimo de Estridão leu o versículo de outro modo. Na Vulgata, a tradução latina que ele terminou por volta do ano 405, as mulheres choram “Adonidem” (Adônis), o jovem amado de Afrodite, também pranteado todo ano.

Jerônimo justifica a troca no seu comentário a Ezequiel, escrito entre 410 e 414: os sírios e gregos de seu tempo choravam Adônis num festival de verão. Ele via no deus de Ezequiel o mesmo rito com outra roupa.

Ezequiel não conta como o culto chegou a Jerusalém. A Bíblia não diz se veio com comerciantes, com casamentos de reis ou com a pressão da Babilônia. Os estudiosos discutem, e nenhuma fonte antiga resolve a questão.

O que se sabe é o caminho da palavra. Durante o exílio, os judeus adotaram os meses do calendário babilônico, e Tamuz entrou junto. A Mishná, a coleção de leis orais judaicas compilada por volta do ano 200, já usa o termo para o quarto mês.

No dia 17 desse mês, o judaísmo jejua até hoje. O tratado Taanit (jejuns) da Mishná liga a data, entre outras desgraças, à brecha aberta nos muros de Jerusalém. O mês do deus chorado virou o mês de chorar a cidade.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O choro que volta todo ano

 

Pense numa tristeza que tem data marcada na sua agenda. O aniversário de um rompimento, o mês da demissão, o Natal em que a mesa fica com uma cadeira vazia. Ela chega sem convite, dura algumas semanas e vai embora sozinha.

As mulheres da porta norte conheciam esse calendário de luto. O choro por Tamuz não pedia nada a ninguém. Era repetição: chorar no verão, esperar a chuva, chorar outra vez no verão seguinte.

Ezequiel não condena as lágrimas. O texto chama de abominação o destino delas: um deus que não ouvia, a poucos passos do Deus que ouvia. Elas estavam na porta da casa certa, de costas para ela.

A primeira aplicação é olhar o endereço do seu choro. Há luto que é conversa, e luto que é rotina. O primeiro fala com alguém e espera resposta. O segundo só gira, como o pastor que desce e sobe sem mudar nada.

A segunda aplicação é perceber a proximidade. As mulheres estavam na entrada do templo, não numa cidade pagã. Muita fé convive com rituais paralelos: o horóscopo do mês, a superstição da data, a espera de que a estação ruim passe sozinha.

A terceira aplicação é escrever a perda por extenso. Tamuz era um símbolo vago para coisas reais: pasto seco, leite escasso, fome à vista. O lamento ritual cobria a perda verdadeira com uma história bonita e deixava o problema sem resposta.

Três passos, somando 25 minutos, levam o versículo para a semana.

1. Leia Ezequiel 8 inteiro, em 10 minutos, e marque as quatro cenas na margem, numerando de 1 a 4.

2. Em 10 minutos, escreva a tristeza que volta todo ano na sua vida, com o mês em que ela costuma chegar e o que você perdeu de fato.

3. Em 5 minutos, transforme esse registro numa oração com destinatário e pedido, e leia o texto em silêncio uma vez.

O primeiro erro é concluir que chorar é falta de fé. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, em João 11.35. O problema da porta norte era a direção das lágrimas, nunca a quantidade.

O segundo erro é tratar a cena como coisa de pagãos distantes. As mulheres eram de Judá e estavam no templo de Judá. A mistura acontecia entre gente que se dizia do Senhor.

O terceiro erro é fingir que a data não pesa. O próprio calendário judaico guarda um jejum em Tamuz. A tradição não apagou o mês; mudou o destinatário do choro.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

Os que gemem pela cidade

 

Ezequiel 9 continua a mesma visão, logo depois da porta norte. Seis homens entram no templo com armas na mão, e um sétimo, vestido de linho, traz à cintura um estojo de escrivão.

A ordem que ele recebe, em Ezequiel 9.4 na Almeida Revista e Corrigida: “Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela.”

O sinal é a letra tav (a última do alfabeto hebraico), que na escrita antiga tinha forma de cruz ou de X. Quem levava a marca na testa foi poupado do castigo descrito no resto do capítulo.

Agora coloque as duas cenas lado a lado. Na porta norte, mulheres choram um deus que desce e sobe com as estações. Pela cidade, alguns gemem pelo que está errado diante do Deus vivo. Os dois grupos choram. Só um recebe a marca.

A diferença está no objeto do lamento. O choro por Tamuz olhava para a natureza, sempre igual. O gemido de Ezequiel 9 olhava para a cidade e para o pecado dela, e por isso podia virar arrependimento.

O texto não informa quantas pessoas receberam o sinal. Ezequiel 9.8 mostra o profeta caído com o rosto em terra, pedindo misericórdia pelo resto de Israel. A conta fica em aberto; o capítulo garante só que havia gente para marcar.

Cinco anos depois da visão, em 587 a.C., os babilônios romperam os muros de Jerusalém e incendiaram o templo. A porta norte, onde as mulheres choravam, virou ruína. O mês de Tamuz, porém, ficou no calendário.

A ironia ficou registrada. O jejum do dia 17 de Tamuz lembra justamente a brecha nos muros. O povo que chorou o deus errado na porta do templo hoje chora, no mês dele, a cidade perdida, agora diante do Deus certo.

O versículo não pede que você pare de chorar. Pede que o choro mude de porta: da ida e volta das estações para a conversa com quem pode responder.

Que tristeza da sua agenda ainda gira na porta norte, e a quem você vai entregá-la?

Hoje, até as 21 horas: leia Ezequiel 9.4 uma vez e escreva numa folha uma frase dirigida a Deus sobre a perda que volta todo ano.

 
 
 
 
 
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Na quarta cena da visão de Ezequiel 8, quantos homens aparecem no pátio interno, de costas para o santuário, adorando o sol?

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