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Imagine junho na planície entre o Tigre e o Eufrates. O pasto seca, as ovelhas param de dar leite, o calor racha o barro. Nas cidades, mulheres saem para as portas e começam um lamento coletivo por um pastor jovem. Os sumérios chamavam esse pastor de Dumuzi, e os hebreus escreveram tammûz (Tamuz, a forma hebraica do mesmo deus). Ele cuidava do rebanho, do leite e da estação verde, e cada cidade da região conhecia a sua história. O mito mais conhecido sobre ele está em tábuas de argila sumérias que os estudiosos chamam de “A Descida de Inana ao Mundo Inferior”. Inana, deusa do amor e da guerra, desce ao reino dos mortos e fica presa lá. Para sair, ela precisa entregar alguém no lugar dela. Volta à terra e encontra Dumuzi, o marido, sentado num trono, bem vestido, sem nenhum sinal de luto. Irritada, ela o entrega aos demônios que a acompanhavam. A irmã de Dumuzi, Gestinana, se oferece para dividir a pena. A sentença fica assim: ele passa metade do ano entre os mortos, e ela a outra metade. A cada descida dele, o pasto seca e a terra chora. O luto por Tamuz nasce dessa história. Todo ano, no mês do calor, as mulheres choravam o pastor que tinha descido. O lamento fazia parte do ciclo: chorar a ida para garantir a volta, junto com a chuva e o pasto novo. No hebraico de Ezequiel, a frase é mevakkôt ʾet-hattammûz (chorando o Tamuz). O verbo bākâ (chorar) é o mesmo do choro comum na Bíblia. O detalhe estranho é o artigo: “o Tamuz”, como quem fala de um rito conhecido de todos na cidade. Quase mil anos depois, Jerônimo de Estridão leu o versículo de outro modo. Na Vulgata, a tradução latina que ele terminou por volta do ano 405, as mulheres choram “Adonidem” (Adônis), o jovem amado de Afrodite, também pranteado todo ano. Jerônimo justifica a troca no seu comentário a Ezequiel, escrito entre 410 e 414: os sírios e gregos de seu tempo choravam Adônis num festival de verão. Ele via no deus de Ezequiel o mesmo rito com outra roupa. Ezequiel não conta como o culto chegou a Jerusalém. A Bíblia não diz se veio com comerciantes, com casamentos de reis ou com a pressão da Babilônia. Os estudiosos discutem, e nenhuma fonte antiga resolve a questão. O que se sabe é o caminho da palavra. Durante o exílio, os judeus adotaram os meses do calendário babilônico, e Tamuz entrou junto. A Mishná, a coleção de leis orais judaicas compilada por volta do ano 200, já usa o termo para o quarto mês. No dia 17 desse mês, o judaísmo jejua até hoje. O tratado Taanit (jejuns) da Mishná liga a data, entre outras desgraças, à brecha aberta nos muros de Jerusalém. O mês do deus chorado virou o mês de chorar a cidade.
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