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Imagine o chão de terra batida de uma casa em Tel-Abibe. Um homem abre seis sacos pequenos e despeja um por vez numa vasilha de barro: trigo, cevada, favas, lentilhas, um grão redondo e miúdo e um trigo de casca grossa. O grão miúdo se chama dōḥan (milheto, o painço que hoje vai na comida de passarinho). A palavra aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica, neste versículo. A ARC traduz por trigo miúdo; a Almeida Corrigida Fiel, por milheto. O trigo de casca grossa é a kussemet (espelta, um trigo antigo cujo grão sai da debulha ainda preso à casca). O léxico de hebraico de Brown, Driver e Briggs, publicado em 1906, traduz a palavra por espelta. A ARC, em Ezequiel 4.9, escreve aveia. A tradução troca de planta dentro da própria Bíblia. Em Êxodo 9.32, quando o granizo arrasa o Egito, a kussemet escapa junto com o trigo, e ali a ARC escreve centeio. Centeio e aveia viraram lavoura grande na Europa e quase não aparecem nos campos de Judá e do Egito daquele tempo. O tradutor provavelmente escolheu um cereal conhecido do leitor. Muitos botânicos leem ali o emmer, um dos trigos que os italianos vendem como farro. O motivo da mistura está no próprio capítulo. No versículo 16, Deus anuncia que o pão vai faltar em Jerusalém. Ninguém junta seis grãos num pão por gosto: junta quando nenhum saco tem o bastante para render um pão sozinho. Depois da vasilha vem a balança. Ezequiel 4.10, na ARC, diz que a comida “será do peso de vinte siclos cada dia”. O hebraico usa ali mishqōl (peso). A palavra é parente de shekel, o siclo, e as duas vêm do verbo hebraico pesar. No tempo de Ezequiel, o siclo ainda não era moeda: era peso de pedra. Escavações em Judá acharam muitos desses pesos, pequenos, de calcário, em forma de cúpula e com o sinal do siclo gravado. As notas da New International Version, tradução inglesa revista em 2011, convertem os vinte siclos em cerca de 230 gramas por dia. Dá pouco mais que quatro pães franceses de 50 gramas. A água seguia a mesma lógica. Ezequiel 4.11 fixa “a sexta parte de um him”, a medida hebraica de líquidos, e as mesmas notas de 2011 convertem a porção em cerca de 0,6 litro. Os dois versículos terminam com “de tempo em tempo”: a comida e a água tinham hora marcada. O detalhe ajuda a entender o tempo deitado. Ezequiel 8.1, datado catorze meses depois do chamado, mostra o profeta sentado em casa diante dos anciões de Judá. Por esse dado, a leitura mais simples é a de um período fixo por dia. O texto não diz quantas horas. O versículo 16 explica o sinal com outra imagem. A ARC fala em tornar instável “o sustento de pão”, e o hebraico diz maṭṭeh-leḥem (o bastão do pão): o pão como a bengala em que o corpo se apoia. A expressão vem de Levítico 26.26, na ARC: “Quando eu vos quebrantar o sustento do pão, então, dez mulheres cozerão o vosso pão num forno e tornar-vos-ão o vosso pão por peso; e comereis, mas não vos fartareis.”
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