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Ezequiel 4.9: O Pão do Cerco

Seis grãos misturados numa vasilha e cada porção na balança: vinte siclos de pão por dia, durante 390 dias

Mãos despejando grãos numa vasilha de barro, com balança e pesos de pedra

Seis grãos numa vasilha e o pão contado na balança

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“E tu, toma trigo, e cevada, e favas, e lentilhas, e trigo miúdo, e aveia, e coloca-os numa vasilha, e faze deles pão; conforme o número dos dias que te deitares sobre o teu lado, trezentos e noventa dias, comerás disso.”

Assim a Almeida Revista e Corrigida (ARC), na edição de 2009, traduz Ezequiel 4.9, e a ordem serve a quem atravessa uma temporada de despensa curta, salário contado ou força medida, e precisa juntar as sobras para chegar inteiro ao dia seguinte.

Ezequiel era sacerdote e morava entre os deportados de Judá em Tel-Abibe, junto ao rio Quebar, na Babilônia. Tinha sido levado em 597 a.C., com o rei Joaquim. Jerusalém continuava de pé, a meses de estrada dali.

No capítulo 4, Deus manda o profeta encenar o cerco da cidade diante dos vizinhos de exílio. Ezequiel desenha Jerusalém num tijolo, monta rampas e aríetes em miniatura e põe uma assadeira de ferro entre ele e o desenho, como se fosse a muralha.

Depois a encenação passa para o corpo. Ele se deita sobre o lado esquerdo durante 390 dias, pela maldade de Israel, e sobre o direito durante 40, pela de Judá. Ezequiel 4.6 explica a conta: um dia para cada ano.

Nesses dias, a comida sai da vasilha do versículo 9. Seis grãos e leguminosas viram um pão só, assado em forma de bolo, e cada porção passa pela balança antes de chegar à boca. A água também vem medida.

O tijolo e o pão chegam antes do exército. Nabucodonosor só fecharia o cerco de Jerusalém em 588 a.C., e a muralha cederia em 586 a.C. Os exilados viram a fome da cidade no prato do vizinho anos antes de ela começar.

A faixa I abre a vasilha: o que eram os seis grãos, por que as traduções discordam de dois deles e quanto pão cabia na ração de um dia.

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I  A Palavra

Seis grãos numa vasilha só

 

Imagine o chão de terra batida de uma casa em Tel-Abibe. Um homem abre seis sacos pequenos e despeja um por vez numa vasilha de barro: trigo, cevada, favas, lentilhas, um grão redondo e miúdo e um trigo de casca grossa.

O grão miúdo se chama dōḥan (milheto, o painço que hoje vai na comida de passarinho). A palavra aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica, neste versículo. A ARC traduz por trigo miúdo; a Almeida Corrigida Fiel, por milheto.

O trigo de casca grossa é a kussemet (espelta, um trigo antigo cujo grão sai da debulha ainda preso à casca). O léxico de hebraico de Brown, Driver e Briggs, publicado em 1906, traduz a palavra por espelta. A ARC, em Ezequiel 4.9, escreve aveia.

A tradução troca de planta dentro da própria Bíblia. Em Êxodo 9.32, quando o granizo arrasa o Egito, a kussemet escapa junto com o trigo, e ali a ARC escreve centeio.

Centeio e aveia viraram lavoura grande na Europa e quase não aparecem nos campos de Judá e do Egito daquele tempo. O tradutor provavelmente escolheu um cereal conhecido do leitor. Muitos botânicos leem ali o emmer, um dos trigos que os italianos vendem como farro.

O motivo da mistura está no próprio capítulo. No versículo 16, Deus anuncia que o pão vai faltar em Jerusalém. Ninguém junta seis grãos num pão por gosto: junta quando nenhum saco tem o bastante para render um pão sozinho.

Depois da vasilha vem a balança. Ezequiel 4.10, na ARC, diz que a comida “será do peso de vinte siclos cada dia”. O hebraico usa ali mishqōl (peso). A palavra é parente de shekel, o siclo, e as duas vêm do verbo hebraico pesar.

No tempo de Ezequiel, o siclo ainda não era moeda: era peso de pedra. Escavações em Judá acharam muitos desses pesos, pequenos, de calcário, em forma de cúpula e com o sinal do siclo gravado.

As notas da New International Version, tradução inglesa revista em 2011, convertem os vinte siclos em cerca de 230 gramas por dia. Dá pouco mais que quatro pães franceses de 50 gramas.

A água seguia a mesma lógica. Ezequiel 4.11 fixa “a sexta parte de um him”, a medida hebraica de líquidos, e as mesmas notas de 2011 convertem a porção em cerca de 0,6 litro.

Os dois versículos terminam com “de tempo em tempo”: a comida e a água tinham hora marcada. O detalhe ajuda a entender o tempo deitado. Ezequiel 8.1, datado catorze meses depois do chamado, mostra o profeta sentado em casa diante dos anciões de Judá.

Por esse dado, a leitura mais simples é a de um período fixo por dia. O texto não diz quantas horas.

O versículo 16 explica o sinal com outra imagem. A ARC fala em tornar instável “o sustento de pão”, e o hebraico diz maṭṭeh-leḥem (o bastão do pão): o pão como a bengala em que o corpo se apoia.

A expressão vem de Levítico 26.26, na ARC: “Quando eu vos quebrantar o sustento do pão, então, dez mulheres cozerão o vosso pão num forno e tornar-vos-ão o vosso pão por peso; e comereis, mas não vos fartareis.”

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

A balança da sua semana

 

Pense numa temporada em que você comeu por peso. O salário que acaba antes do dia 20, a semana no corredor do hospital, a energia contada para dar conta dos filhos e do trabalho.

Hoje padarias e receitas vendem o “pão de Ezequiel” como pão saudável, feito com os seis grãos germinados. O pão do versículo tinha outra função: comida de cerco, assada para mostrar a escassez a quem ainda não a sentia.

A primeira aplicação é dar número à ração. Ezequiel sabia exatamente quanto comia: vinte siclos de pão, a sexta parte de um him de água. Escreva o que está pesado na sua vida agora, em números: quanto dinheiro sobra, quantas horas de sono, quantos dias faltam.

A segunda aplicação é a hora marcada. A ração do profeta vinha “de tempo em tempo”, nunca a toda hora. Em temporada curta, combine um horário fixo para conferir as contas e outro para orar, e pare de abrir o saldo a cada susto.

A terceira aplicação é comer à vista. Ezequiel 4.12 manda assar o pão “diante dos olhos deles”, e a escassez do profeta virou recado para a comunidade inteira. Quem esconde a temporada curta de todos carrega sozinho um peso que podia dividir.

Três passos, 25 minutos no total, levam o versículo para a sua semana.

1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Ezequiel 4.9 a 4.17 e sublinhe cada palavra de medida: peso, siclos, medida, sexta parte, de tempo em tempo.

2. Segundo passo, 10 minutos. Num papel, liste as três rações da sua semana e anote o número exato de todas: valor em reais, horas ou dias.

3. Terceiro passo, 10 minutos. Escolha uma pessoa de confiança e conte a ela uma das três rações, com o número, numa mensagem ou numa ligação.

O primeiro erro é transformar a ração em receita de saúde. A mistura rende um pão bom, mas o capítulo descreve uma cidade cercada e uma comida que não farta.

O segundo erro é concluir que toda escassez prova a culpa de quem passa por ela. Ezequiel comeu a ração sem ter causado o cerco. O versículo 4 diz que ele levava as maldades da casa de Israel, a culpa dos outros sobre o próprio corpo.

O terceiro erro é tratar a temporada curta como permanente. O versículo 9 marca prazo: 390 dias. A ração do profeta tinha contagem e data para acabar, e a balança saía da mesa quando os dias se cumpriam.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

A rua dos padeiros

 

Volte a Jerusalém, alguns anos depois do tijolo de Tel-Abibe. O exército babilônico cerca a cidade. Lá dentro, o profeta Jeremias está preso no átrio da guarda, acusado de querer passar para o lado dos babilônios.

Jeremias 37.21 registra a ração dele, na ARC: “[...] e deram-lhe um bolo de pão cada dia, da rua dos padeiros, até que se acabou todo o pão da cidade.” Jerusalém tinha uma rua inteira de padeiros, e os fornos dela esfriaram.

Jeremias tinha avisado o rei durante anos, e mesmo assim comeu da porção curta da cidade. Em 2 Reis 25.3, a fome ganha data, o nono dia do quarto mês: “[...] quando a cidade se via apertada da fome, nem havia pão para o povo da terra”.

Lamentações 4.4 traz a imagem mais dura do cerco: os meninos pedem pão, e ninguém lhes dá. A balança de Tel-Abibe tinha chegado ao lugar que anunciava.

O capítulo 4 guarda também uma cena curta. Quando ouve que vai assar o pão sobre esterco humano, Ezequiel responde: “Ah! Senhor Jeová!”. Sacerdote desde moço, diz que nunca pôs comida impura na boca.

Deus mantém o sinal e troca o combustível: “[...] Vê, tenho-te dado esterco de vacas, em lugar de esterco de homem; e com ele prepararás o teu pão”, diz o versículo 15. Esterco seco de vaca era combustível comum de forno na região.

A ração e o prazo ficaram; a humilhação diminuiu. O livro guardou a reclamação do profeta junto com a resposta, e mostra um Deus que pesa a ração e ouve o homem que a come.

No deserto, o maná também era medido, com o gômer, e Êxodo 16.18 conta como a medida funcionava: “Porém, medindo-o com o gômer, não sobejava ao que colhera muito, nem faltava ao que colhera pouco; cada um colheu tanto quanto podia comer.”

Com o maná, a medida garantia que ninguém ficasse sem pão. No cerco, a balança mostrava o pão que faltava. As duas cenas medem a comida de um dia, e a diferença está em quem segura o instrumento.

Jesus ensina a pedir pão nessa medida curta, a de um dia só: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, em Mateus 6.11. A oração aceita a porção diária e põe o pão na mão de um Pai, longe da balança de um cerco.

Em João 6.35, a promessa cobre os dois itens pesados em Ezequiel 4, o pão e a água: “[...] Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim nunca terá sede.”

Qual ração da sua semana você ainda pesa sozinho, longe dos olhos de quem poderia dividir o peso com você?

Hoje, até as 21 horas: separe 230 gramas de pão e uma garrafa de 600 mililitros de água, a ração de um dia do profeta, leia Ezequiel 4.16 uma vez diante delas e ore por uma pessoa que está racionando nesta semana.

 
 
 
 
 
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No hebraico de Ezequiel 4.9, a palavra dōḥan, que a Almeida Revista e Corrigida traduz por 'trigo miúdo', corresponde a qual grão?

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