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Ezequiel 36:26
"Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo dentro de vocês."
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A pedra retirada do campo, na Judeia antiga
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Em dezembro de 1967, num hospital da Cidade do Cabo, uma equipe de trinta pessoas abriu o tórax de um homem de cinquenta e cinco anos, retirou o órgão que batia ali dentro e costurou outro no lugar. O procedimento dividiu a medicina em duas eras, e não pela técnica de sutura. Até ali, cardiologia era a arte de recuperar o que existia: desobstruir, medicar, remendar válvula. A lógica inteira supunha que o órgão do paciente continuaria sendo o órgão do paciente. O transplante rompeu com a suposição. Ele não melhora a peça, ele admite que a peça acabou, e a admissão é a parte mais difícil de aceitar, tanto para quem opera quanto para quem é operado. Existe um constrangimento embutido na palavra. Aceitar um transplante é assinar que o próprio corpo não resolve mais o problema com o material que possui, e que a solução vem inteira de fora. A distinção entre reparo e substituição não nasceu no século vinte. Ela já organizava o vocabulário técnico de povos que trabalhavam pedra, madeira e metal, e cada língua antiga tinha verbos separados para as duas operações. Uma dessas línguas registrou, num texto do século sexto antes da era comum, uma promessa que escolhe deliberadamente o vocabulário da substituição. O contexto é o pior possível: um povo deportado, com o templo destruído e a cidade em ruínas, ouvindo de um sacerdote exilado o que vai acontecer depois. O que o texto promete não é uma reforma de conduta, nem um programa de disciplina, nem um esforço redobrado de obediência. O profeta tinha à mão os verbos que descrevem cada uma dessas coisas e não usou nenhum deles. Ele usou dois verbos comuns, quase banais, que aparecem centenas de vezes na literatura hebraica em contextos domésticos. Juntos, na mesma frase e com o mesmo objeto, os dois formam uma construção que só descreve uma operação possível. Há ainda a escolha do órgão, que no vocabulário hebraico não significa o que significa no português corrente, e a escolha do material antigo, uma pedra que na região tinha uso agrícola específico e bem conhecido. Quais são os dois verbos, o que o par faz com a promessa, e por que o órgão nomeado ali muda o alcance da frase, é o que vem agora. Continue lendo ↓ Continue lendo ↓
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I A Palavra
Dois verbos que não deixam saída
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A promessa de Ezequiel 36:26 é lev basar, coração de carne, colocado no lugar de lev haeven, o coração de pedra. Os dois substantivos vêm do vocabulário mais concreto da língua, sem qualquer sofisticação teológica.
Basar é a carne do animal no açougue e a do corpo humano, o tecido macio que cede à pressão e sangra quando cortado. A palavra não é poética, é anatômica.
Even é a pedra do campo, e a Judeia tinha muita. O agricultor da região passava a vida retirando pedra do terreno para poder arar, e a pedra removida virava o muro que cercava a plantação.
O contraste entre os dois materiais não é entre duro e mole no sentido emocional. É entre o que responde e o que não responde, entre o tecido que reage ao estímulo e o mineral que permanece igual sob qualquer tratamento.
Vem então o par de verbos que governa a frase. O primeiro é natan, dar, o verbo hebraico mais comum para transferir posse de uma coisa a alguém que não a possuía.
O segundo é sur, na forma causativa hasiroti, remover, tirar de onde estava. É o verbo usado quando alguém retira o calçado antes de pisar em terreno consagrado e quando um rei derruba os altares do antecessor.
Os dois juntos formam uma sequência fechada. Tira aquilo, põe isto. Não existe etapa intermediária de tratamento, ajuste ou recuperação do material antigo entre uma ação e outra.
O hebraico tinha alternativas disponíveis e o profeta as conhecia. A raiz rafá, curar, aparece no próprio livro para descrever a restauração de águas amargas, e a família de chadash serve para renovar aquilo que já existe.
Nenhuma das duas comparece aqui. A frase não diz que a pedra será amolecida, aquecida ou trabalhada até virar outra coisa, e a ausência é o que empurra a leitura para o campo da substituição.
Falta o detalhe que muda o alcance da promessa: lev, no vocabulário hebraico, não é a sede do sentimento. O lugar da emoção, na antropologia da língua, ficava nas entranhas, e o coração era outra coisa.
Lev é o órgão da decisão, do juízo e da intenção deliberada. Quando o texto hebraico diz que alguém falou no próprio coração, está descrevendo um cálculo, não um suspiro.
A promessa, portanto, não é de sensibilidade aumentada. É de troca do aparelho com que a pessoa decide, e a diferença entre as duas leituras é grande demais para ser ignorada.
Há um detalhe gramatical que fecha a construção. Todos os verbos estão na primeira pessoa e o povo aparece só como objeto: quem retira, quem dá e quem coloca é sempre o mesmo sujeito, e o destinatário não executa nenhuma das ações.
O que a passagem afirma, então, é de uma clareza incômoda. Não há aqui pedido de esforço, nem meta de melhoria gradual, e sim a descrição de uma operação feita sobre alguém que está deitado na mesa.
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II Aplicação Prática
Parar de lixar a pedra
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A promessa descreve substituição, não reparo, e a distinção muda decisões concretas de quem passa a semana tentando melhorar por esforço o que já provou não melhorar por esforço.
Primeiro, separar o que é reparável do que não é. Existe hábito que responde a ajuste de rotina e existe padrão que você já tentou consertar cinco vezes com a mesma técnica e voltou ao ponto de partida nas cinco.
Faça a lista dos seus últimos três projetos de mudança pessoal abandonados. Se o mesmo item aparece em dois deles, você está lixando pedra, e nenhuma quantidade extra de lixa muda o mineral.
Segundo, admitir o que a admissão custa. O texto coloca a pessoa na posição de quem recebe, e a posição é humilhante para quem construiu identidade em cima de resolver sozinho os próprios problemas.
Escreva numa linha a frase que você evita dizer em voz alta sobre um assunto seu que não anda. A frase costuma começar com um reconhecimento de limite, e o desconforto de escrevê-la já é a informação.
Terceiro, olhar para o órgão certo. A promessa mira a instância que decide, não a que sente, e a maior parte dos programas de mudança pessoal ataca o sentimento e deixa o critério de decisão intacto.
Liste as três últimas decisões que você tomou contra o seu próprio interesse declarado. Procure o critério comum entre elas, porque é o critério, e não a emoção do momento, que produziu as três.
Quarto, reconhecer a pedra pelo comportamento, não pela aparência. Coração de pedra, no vocabulário do texto, é o que não responde ao estímulo, e o sinal prático não é frieza, é ausência de reação onde antes havia reação.
Escolha uma área da sua vida em que você já sentiu algo e hoje não sente mais nada. Ausência de dor onde deveria haver dor é um dado clínico, não um progresso de maturidade.
Quinto, parar de negociar com o material antigo. A frase não propõe convivência entre os dois órgãos e não promete pedra parcialmente amolecida, o que retira legitimidade de qualquer plano de meio-termo.
Identifique onde você mantém uma versão reduzida daquilo que decidiu abandonar. A versão reduzida é a peça velha guardada na gaveta, e ela existe para o caso de você querer recolocá-la.
Sexto, aceitar o que a promessa não entrega. Lev basar descreve um órgão que volta a responder, e não garante que a resposta seja agradável, rápida ou conveniente para a sua agenda.
Tecido que sente também dói, e a operação descrita ali devolve a capacidade de reagir, incluindo a de reagir ao que você preferia continuar não notando.
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