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Êxodo 33:14
"As minhas faces irão, e eu te darei descanso."
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A caravana e o guia no deserto do Sinai
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No deserto entre o Egito e Canaã, a diferença entre uma caravana que chega e uma que desaparece tinha nome, e o nome era o guia. Poços a dois dias de distância um do outro, trilhas que somem debaixo da areia numa noite de vento, montanhas que de longe parecem todas iguais: quem viajava ali não morria de sede por falta de água na região, morria por não saber onde a água estava. Por isso um guia com a rota na cabeça valia mais do que qualquer carga. Os arquivos do Antigo Oriente Próximo registram caravanas que contratavam homens do lugar só para atravessar um trecho, e tratados que incluíam a cessão de guias como item negociado, do mesmo jeito que se negociava prata ou gado. O relato do Sinai coloca exatamente esse item sobre a mesa. Depois do episódio do bezerro de ouro, a proposta que chega ao povo é objetiva: um mensageiro seguirá adiante, expulsando os habitantes da terra, e a terra prometida continua de pé no fim do percurso. Rota garantida, chegada garantida, entrega no prazo. Do ponto de vista logístico, a oferta é boa. Ninguém acampado ao pé de uma montanha, comendo o que cai de manhã e bebendo o que sai da pedra, teria motivo prático para recusar um contrato desses. E é aqui que a cena trava. O interlocutor recusa, e a recusa não tem nada a ver com dúvida sobre a rota, sobre o mensageiro ou sobre a terra. Ele aceita todos os termos técnicos e rejeita o pacote inteiro por causa de uma ausência que o pacote não cobre. A resposta que ele recebe cabe em duas palavras hebraicas. Uma delas é um substantivo que, na língua, nunca aparece no singular, e por isso arrasta o verbo junto para o plural, produzindo uma frase que soa estranha em qualquer tradução literal. Qual é essa palavra, por que ela só existe no plural, e o que a devolução dela no versículo seguinte muda na natureza do pedido, é o que vem agora. Continue lendo ↓
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I A Palavra
A face que nunca aparece sozinha
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A resposta de Êxodo 33:14 é panai yelekhu vahanichoti lakh, as minhas faces irão e eu te darei descanso, e a estranheza da frase começa no primeiro par de palavras. Panim é a palavra hebraica para face, e ela é gramaticalmente plural. Não existe uma forma singular em uso: quando o texto fala do rosto de uma pessoa, de um animal ou da divindade, usa a mesma terminação plural que usaria para contar objetos. A raiz explica a escolha. As três consoantes p, n, h formam o verbo virar-se, voltar-se em direção a alguma coisa. Panim é, literalmente, o lado para o qual alguém se voltou, e como uma pessoa se vira para muitos lados ao longo de um dia, a língua trata o rosto como um conjunto de direções, não como uma peça única. A consequência aparece em toda a preposição derivada. Lifnei, a forma comum de dizer diante de, é a mesma palavra com um prefixo: estar diante de alguém é estar às faces dele. Panim é ao mesmo tempo o rosto e a posição relativa entre duas pessoas. Em Êxodo 33:14 o verbo obedece ao plural do substantivo. Yelekhu é a terceira pessoa do plural, irão, e não a forma singular irá, como as traduções costumam entregar em português para que a frase não soe quebrada. O detalhe importa porque a frase não diz eu irei. Ela põe as faces como sujeito da caminhada, o que é uma construção incomum mesmo dentro do hebraico bíblico, onde o normal seria o pronome fazer o trabalho. O mesmo capítulo já tinha estabelecido o vocabulário. Em 33:11 a conversa acontece panim el panim, faces às faces, expressão que descreve a proximidade de dois interlocutores no mesmo espaço, sem intermediário no meio. E o capítulo também estabelece o limite. Poucas linhas depois, em 33:20, o texto afirma que ninguém pode ver as faces e continuar vivo, o que cria uma tensão interna: a mesma palavra nomeia a presença que acompanha e a presença que não se pode encarar. Panim aparece com esse peso em outros pontos do vocabulário ritual. O pão colocado na mesa do santuário é chamado lechem hapanim, pão das faces, porque fica permanentemente voltado para o lugar da presença, e a bênção de Números 6:25 pede que as faces se iluminem sobre quem recebe. Somando as peças, a resposta de 33:14 é mais específica do que uma promessa de ajuda. Ela não oferece proteção a distância nem instrução por escrito: oferece o lado voltado, a posição de quem está virado para o outro enquanto os dois andam.
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II Aplicação Prática
Companhia antes do destino
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A frase separa duas garantias que costumam ser tratadas como uma só, e a separação tem uso prático imediato. Primeiro, nomear qual das duas você está pedindo. Garantia de destino é a certeza de que a coisa vai dar certo no fim; garantia de companhia é a certeza de que alguém estará virado para você no trajeto. Escreva a sua pergunta atual em uma linha e marque com uma das duas etiquetas. Quase todo pedido feito em voz alta é de destino, e quase toda falta sentida de madrugada é de companhia. Segundo, verificar se você aceitaria a oferta que Moisés recusou. Um mensageiro adiante, a rota certa, o resultado entregue, e ninguém voltado para você durante o percurso. Responda por escrito, com sim ou não, e observe a hesitação. Quem responde sim rápido demais costuma estar exausto, e cansaço extremo faz qualquer pessoa vender a companhia pelo resultado. Terceiro, tratar presença como algo que ocupa espaço e tempo. Panim é posição, não sentimento, e a posição se mede em minutos no mesmo cômodo, não em intenção declarada. Escolha uma pessoa da sua casa e marque três blocos de trinta minutos nesta semana em que você estará voltado para ela sem tela ligada. Se não couber no calendário, a companhia que você diz oferecer é retórica. Quarto, distinguir orientação de acompanhamento no que você pede aos outros. Pedir um conselho é pedir rota; pedir que alguém fique é pedir face. Quando procurar alguém, avise qual dos dois você quer antes de começar a falar. A maior parte das conversas frustradas nasce de uma pessoa entregando mapa quando a outra queria presença. Quinto, respeitar a ordem que o texto usa. As faces vão primeiro e o descanso vem depois, na mesma frase, o que coloca a paz como consequência da presença e não como pré-requisito dela. Anote uma situação em que você adiou a companhia esperando o problema se resolver. Reverta a ordem em uma delas nesta semana, mesmo com o problema aberto, e registre o que muda. Sexto, aceitar que a face plural implica direções. Panim é o lado para o qual alguém se vira, e virar-se para uma coisa significa deixar de estar virado para outra. Liste as três direções que consomem a sua atenção hoje e escolha uma para reduzir por trinta dias. Sem essa subtração, a presença que você promete a alguém chega dividida e a pessoa do outro lado percebe.
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