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Ester 4.14: Para Tal Tempo
O livro que nunca escreve o nome de Deus
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A porta fechada do salão do rei em Susã
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«Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento; e quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?» Assim a Almeida traduz Ester 4.14, o recado que Mardoqueu mandou à prima dentro do palácio. O livro de Ester tem dez capítulos e 167 versículos no texto hebraico. O rei persa aparece em quase todas as páginas, com banquetes, decretos e anel de selar. O nome de Deus não aparece nenhuma vez. Nenhum outro livro da Bíblia hebraica faz o mesmo. Não há oração registrada, nem templo, nem sacrifício, nem a palavra Senhor. Há jejum, e o texto nem diz a quem o jejum se dirige. A cena se passa em Susã, a capital de inverno do Império Persa. O rei é Assuero, o nome hebraico de Xerxes I, que governou a Pérsia entre 486 e 465 antes de Cristo. Ester é judia, órfã, criada pelo primo Mardoqueu. Ester ganha o concurso de beleza do rei e vira rainha sem contar a ninguém de que povo vem. Anos depois, o ministro Hamã consegue um decreto para exterminar todos os judeus do império num único dia, sorteado com dados. Mardoqueu rasga a roupa, veste pano de saco e senta à porta do palácio. Pede que Ester entre e fale com o rei. Ela responde com a lei da corte: quem entra no salão interno sem ser chamado perde a vida, salvo se o rei estender o cetro de ouro. E Ester acrescenta um detalhe que pesa. Fazia trinta dias que o rei não a chamava. Ela não sabia se ainda era querida ou se já estava esquecida. A resposta de Mardoqueu é o versículo 14. Ele não promete milagre nem cita profeta. Diz que o socorro virá de algum lugar, mesmo sem ela, e depois faz uma pergunta que ninguém no livro responde em voz alta. A seção I entra na pergunta, palavra por palavra, e mostra onde o nome ausente se esconde. Continue lendo ↓
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I A Palavra
Uma porta fechada em Susã
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Pense numa porta alta de cedro no fim de um corredor. Do outro lado, um homem com poder de vida e de morte sobre você. Ninguém chamou seu nome. Entrar pode custar tudo, e ficar parado também. Ester viveu essa porta. O recado de Mardoqueu chegou por Hataque, o servo que o rei tinha posto a serviço dela, segundo Ester 4.5. Todo o diálogo do capítulo 4 corre por intermediário, entre a praça e o harém. O recado tem três partes. Primeira: não imagine que no palácio você escapa. Segunda: se você se calar, o socorro virá de outra parte. Terceira: quem sabe se para tal tempo você chegou ao reino. A expressão «de outra parte», no hebraico mimmāqôm ʾaḥēr (de outro lugar), é o ponto mais discutido do livro. Ao pé da letra, Mardoqueu diz apenas que a ajuda virá de algum lugar diferente de Ester. Mais tarde, a literatura rabínica usou hammāqôm (o Lugar) como forma respeitosa de chamar Deus sem dizer o nome. A Mishná, compilada na Galileia no começo do século III, já traz o termo nesse sentido. Muitos leitores ouvem esse eco em Ester 4.14. O eco é possível, e fica só como eco. O autor escolheu uma palavra que aponta sem nomear. Quem quer ver Deus ali vê. Quem não quer, lê um político confiante de que alguém vai agir. Depois vem mî yôdēaʿ (quem sabe). A mesma fórmula aparece em Joel 2.14 e em Jonas 3.9, sempre diante de uma catástrofe anunciada: quem sabe se Deus não se volta e desiste do mal. A expressão carrega esperança sem garantia. Por fim, lāʿēt kāzōʾt (para um tempo como este). O substantivo ʿēt quer dizer momento certo, hora marcada, o mesmo de Eclesiastes 3.1: tudo tem o seu tempo. Mardoqueu sugere que a coroa de Ester tinha data. Michael V. Fox, em Character and Ideology in the Book of Esther, de 1991, defende que o silêncio sobre Deus é proposital. O autor, segundo ele, quer o leitor na mesma incerteza dos personagens, sem ver os bastidores. A resposta de Ester vem no versículo 16. Ela pede três dias de jejum de todos os judeus de Susã e fecha: «Se perecer, pereci.» Depois do jejum, veste as roupas de rainha e para diante da porta. O rei estende o cetro de ouro, em Ester 5.2. A lei que ela temia fica suspensa por um gesto de mão. O texto narra o gesto e não comenta quem moveu a mão do rei.
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II Aplicação Prática
Quando ninguém assina o socorro
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A sua semana talvez pareça mais com Ester do que com o Êxodo. Nenhum mar se abre. Nenhuma voz fala do alto. Há uma conversa difícil, um cargo que caiu no colo, uma porta que você preferia não abrir. O livro de Ester foi escrito para esse tipo de dia. Deus não aparece, e mesmo assim tudo se encaixa: a insônia do rei em Ester 6.1, a crônica lida por acaso, a forca que Hamã preparou e onde ele mesmo termina. Os leitores judeus chamam esse modo de agir de hester pānîm (rosto escondido). A expressão vem de Deuteronômio 31.18, onde Deus diz que esconderá o rosto. O Talmude Babilônico, no tratado Hullin 139b, liga o nome Ester a esse verbo esconder. A ligação funciona porque, no hebraico, o nome da rainha e o verbo esconder soam quase iguais. Ester também tinha um nome hebraico, Hadassa (murta), segundo Ester 2.7. O nome persa, o que ela usava em público, é o que rima com esconderijo. Três passos, vinte minutos somados, ajudam a ler a sua semana com a pergunta de Mardoqueu. 1. Primeiro passo, cinco minutos. Escreva onde você está agora que não escolheu sozinho: o emprego, a cidade, a família, uma função na igreja ou no bairro. É o seu palácio de Susã. 2. Segundo passo, dez minutos. Leia Ester 4.1 a 4.17 de uma vez, em voz baixa. Marque cada frase em que Ester hesita e cada frase em que Mardoqueu insiste. Repare que ninguém ali ouve uma voz do céu. 3. Terceiro passo, cinco minutos. Para uma situação da lista, escreva a frase completa: quem sabe se para tal tempo eu cheguei a este lugar. Depois anote uma ação concreta que só você, dessa posição, consegue fazer. Um exemplo do formato: «Quem sabe se cheguei a este setor para falar com a diretora sobre a colega que está sendo cobrada injustamente». Outro: «Quem sabe se estou nesta casa para ligar para o meu pai nesta semana». O primeiro erro é trocar quem sabe por com certeza. Mardoqueu não garantiu vitória. Ester foi à porta sem saber se voltaria, e a fé do capítulo mora nessa incerteza assumida. O segundo erro é esperar sinal antes de agir. Ninguém no livro recebe sonho, anjo ou profeta. O que Ester recebe é um recado de um parente e três dias de jejum da comunidade, e com esse pouco ela anda. O terceiro erro é agir sozinho. Ester pediu que o povo jejuasse por ela. A coragem do versículo 16 foi sustentada pelo estômago vazio de uma cidade inteira de judeus em Susã.
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