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Esdras 4.8: A Língua do Império

Uma denúncia contra Jerusalém chega ao rei persa em aramaico, e o livro passa a escrever na língua dos arquivos

Escriba copiando uma carta num rolo de papiro

A carta ao rei persa, escrita em aramaico

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“Nos dias de Artaxerxes, Bislão, Mitredate, Tabeel e os seus outros companheiros escreveram a Artaxerxes, rei da Pérsia; a carta estava escrita em caracteres aramaicos e na língua aramaica.” Assim a Almeida Revista e Atualizada, edição de 1993, traduz Esdras 4.7.

O versículo serve a quem já foi denunciado por escrito: o email ao chefe com cópia para todos, a reclamação no grupo, o relatório que chegou antes da sua versão.

Esdras conta a volta dos judeus do exílio na Babilônia. Depois de 538 a.C., grupos retornam a Jerusalém com autorização do rei persa Ciro e começam a reerguer o templo e a cidade.

Os vizinhos não gostam da obra. Esdras 4 lista as tentativas de parar os construtores: conselheiros pagos na corte, uma queixa no reinado de Xerxes e, por fim, uma carta formal ao rei Artaxerxes.

Até aqui, o livro foi escrito em hebraico, a língua dos profetas e da Lei. O versículo 7 traz uma nota estranha para um leitor antigo: avisa a língua da carta, como um arquivista que etiqueta um documento.

No versículo 8, o texto obedece à etiqueta. O hebraico some, e a narrativa passa para o aramaico, a língua usada pelas repartições do Império Persa, do Egito à Índia.

O aramaico não fica só na carta. Corre pela resposta do rei, pela queixa seguinte, pela busca nos arquivos e pela inauguração do templo. Só volta ao hebraico em Esdras 6.19, 52 versículos depois.

Quem lia o rolo em voz alta numa sinagoga trocava de idioma no meio da leitura, sem aviso além daquela palavra do versículo 7. Depois do exílio, boa parte dos judeus já falava aramaico em casa, e a plateia acompanhava a troca sem tropeçar.

A seção I mostra que língua era essa, quem a falava em Jerusalém e por que um livro sagrado copiou documentos de governo nela.

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I  A Palavra

Uma etiqueta no meio do rolo

 

A resposta de ontem

Quanto tempo o filho de Jeoaquim ficou no trono?

Três meses, segundo 2 Reis 24.8; 2 Crônicas 36.9 fala em três meses e dez dias. Joaquim, também chamado Jeconias, foi levado para a Babilônia por Nabucodonosor em 597 a.C. e ficou preso por 37 anos, até ser solto por Evil-Merodaque (2 Reis 25.27). Nenhum filho dele reinou em Jerusalém.

Imagine um escriba numa repartição persa, por volta de 450 a.C. À frente dele, um rolo de papiro, um cálamo (a caneta de junco) e um selo de argila. A carta que ele copia vai viajar semanas por estrada até o rei.

Esdras 4.8 dá os nomes de quem assinou a carta: Reum e Sinsai, o escrivão. O texto chama Reum de beʿēl-ṭəʿēm (senhor do decreto), título aramaico de um alto funcionário da província.

Antes de copiar a carta, o narrador escreve uma nota em hebraico. A palavra-chave é ʾarāmît (em aramaico), um advérbio que aparece também em 2 Reis 18.26 e em Isaías 36.11, na mesma cena.

A cena é de 701 a.C. O exército assírio cerca Jerusalém. Os ministros do rei Ezequias pedem ao general Rabsaqué que fale com eles em aramaico, e não em judaico, para que o povo sentado na muralha não entenda.

O pedido mostra o lugar da língua. O aramaico era o idioma dos diplomatas e dos escribas, aprendido por gente de corte. O povo comum de Jerusalém, naquele ano, ainda não o entendia.

Três séculos depois, o quadro mudou. Os persas herdaram dos assírios e babilônios o costume de administrar o império em aramaico. Os linguistas chamam essa forma de aramaico imperial, a variante padronizada das chancelarias.

A prova mais conhecida está no Egito. Em Elefantina, uma ilha do Nilo, uma colônia de soldados judeus deixou papiros em aramaico do século 5 a.C. Um deles, de 407 a.C., é uma carta ao governador persa de Judá, Bagoas.

A carta de Elefantina pede licença para reconstruir um templo destruído na ilha. O formato lembra Esdras: saudação ao superior, relato da destruição, pedido de autorização. Judeus de duas pontas do império escreviam ao governo do mesmo jeito.

Esse é o primeiro motivo da troca de língua. Esdras reproduz documentos oficiais, e eles circulavam em aramaico. O narrador copia a correspondência na língua em que ela existia nos arquivos.

O segundo motivo é mais difícil. O trecho aramaico inclui narrativa, não só cartas: os versículos sobre os profetas Ageu e Zacarias, em Esdras 5.1, também vêm em aramaico. Os estudiosos não chegaram a um acordo sobre a razão.

A hipótese mais aceita diz que o autor usou uma fonte já escrita em aramaico, com documentos e narrativa juntos, e a inseriu sem traduzir. Nenhum manuscrito dessa fonte sobreviveu, por isso a hipótese segue sem prova.

O aramaico é parente próximo do hebraico, como o espanhol do português. Os dois usam o mesmo alfabeto. A letra hebraica quadrada de hoje, aliás, descende da escrita aramaica, adotada pelos judeus depois do exílio.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

A denúncia chega antes de você

 

Pense na última vez em que alguém falou de você para quem manda. Um relatório ao gerente, um áudio para o síndico, um email com cópia para a diretoria. Você soube depois, e a versão do outro já estava no arquivo.

Os construtores de Jerusalém viveram a mesma cena. A carta de Reum, em Esdras 4.12 a 4.16, chama a cidade de rebelde e má, e avisa o rei: se os muros subirem, ninguém vai pagar tributo, imposto nem pedágio.

A carta escolhe bem a língua e o argumento. Fala o idioma da repartição e toca no bolso do rei. Os denunciantes nem discutem o templo; falam de dinheiro e de lealdade.

Também sugere uma pesquisa nos livros das crônicas dos reis anteriores. O rei procura, acha registros de revoltas antigas em Jerusalém e manda parar a obra. Esdras 4.23 conta que Reum foi à cidade e parou os trabalhos à força.

A primeira lição é simples: a acusação ganhou por ter sido escrita primeiro e no formato certo. Os judeus não mandaram carta. A versão deles não estava no arquivo quando o rei abriu a gaveta.

Anos depois, a história se inverte por escrito. Em Esdras 5, o governador Tatenai pergunta aos construtores quem os autorizou. Eles respondem com nomes e datas, e o governador manda a resposta deles ao rei Dario.

Dario manda procurar. Em Esdras 6.2, acham um rolo em Ecbátana, a capital de verão persa, com o decreto de Ciro autorizando o templo. O mesmo arquivo que serviu à denúncia guardava a defesa.

Três passos, 25 minutos somados, põem o trecho em prática.

1. Primeiro passo, 10 minutos. Leia Esdras 4.7 a 4.24 e Esdras 6.1 a 6.12, e marque em cada trecho quem escreve, para quem e com qual pedido.

2. Segundo passo, 10 minutos. Escolha uma acusação que circula sobre você no trabalho ou na família. Escreva a sua versão em cinco linhas, com datas e nomes, sem adjetivo.

3. Terceiro passo, 5 minutos. Entregue a versão a quem decide, por escrito, antes da próxima reunião em que o assunto vai aparecer.

O erro comum é responder à denúncia no mesmo tom. Os construtores, em Esdras 5.11, se apresentam como servos do Deus do céu e da terra. Contam a história, citam o decreto de Ciro e deixam a busca para o rei.

O segundo erro é esperar que a acusação suma sozinha. Entre a carta de Reum e a resposta a Tatenai, a obra ficou parada até o segundo ano de Dario, 520 a.C., segundo Esdras 4.24.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

A festa escrita na língua do fisco

 

Volte a Jerusalém em 515 a.C. Esdras 6.15 dá a data: o templo ficou pronto no dia três do mês de adar, no sexto ano do rei Dario. Foram cerca de 20 anos entre o alicerce e a festa.

A inauguração também está em aramaico. Esdras 6.17 conta 100 novilhos, 200 carneiros, 400 cordeiros e 12 bodes, um por tribo de Israel. A festa do povo saiu escrita no idioma da repartição que tinha tentado pará-la.

Em Esdras 6.19, o hebraico volta. O assunto é a Páscoa, celebrada no dia 14 do primeiro mês pelos que voltaram do exílio. A língua da Lei retorna quando o povo retoma uma festa da Lei.

A troca diz algo sobre o modo como Deus age no livro. Ele não aparece em visões nem fala do alto. Age por cartas, buscas em arquivo e decretos de reis estrangeiros, escritos na língua do império.

Logo depois da volta ao hebraico, Esdras 6.22 diz que o Senhor mudou o coração do rei para ajudar na obra. O texto atribui a Deus o resultado de uma pesquisa burocrática em Ecbátana.

Para o leitor de hoje, a lição vem da própria página. O trecho em aramaico guarda a denúncia, a ordem de parar, a busca e a vitória. Tudo cabe numa língua estrangeira, sem que o livro deixe de ser Escritura.

Os judeus de Jerusalém não controlavam a língua do império nem o arquivo de Ecbátana. Controlavam a própria versão dos fatos e a disposição de voltar à obra quando os profetas Ageu e Zacarias chamaram, em Esdras 5.1 e 5.2.

Quem vive sob denúncia costuma esperar que o acusador se cale. Reum nunca se retratou, e o livro não conta o que foi feito dele depois de parar a obra. O templo ficou pronto sem pedido de desculpas.

Esdras também não é o único livro da Bíblia hebraica com aramaico. Jeremias 10.11 tem um versículo isolado nessa língua, e Gênesis 31.47 guarda um nome aramaico, Jegar-Saaduta, para o monte de pedras entre Labão e Jacó.

Hoje, até as 22 horas: leia em voz alta Esdras 4.7 e 4.8, uma vez, e escreva em cinco linhas a sua versão de uma acusação que você ainda não respondeu.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em qual outro livro da Bíblia o texto passa para o aramaico no meio de um versículo?

 
 
 
 
 
Quiz da edição

Na carta de Esdras 4.8, qual título aramaico é usado para identificar Reum como alto funcionário da província?

Aescrivão
Bsenhor do decreto
Cgovernador do templo
Dguardião dos arquivos

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