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ἀρραβών (arrabṓn) não nasceu no grego. É empréstimo semita, do hebraico עֵרָבוֹן, ʿērābôn, formado sobre a raiz ʿ-r-b, que significa dar em garantia, ficar por fiador de alguém. Entrou no vocabulário grego pela rota do comércio fenício e ficou.
Os gregos não trataram a palavra como curiosidade estrangeira. Trataram como termo técnico. Nos contratos, arrabṓn nomeia uma coisa só: a quantia entregue na abertura do negócio, que integra o preço e prende as duas partes ao restante.
A Septuaginta usa o termo em Gênesis 38, quando Tamar exige de Judá uma garantia pela cabra prometida e recebe o selo, o cordão e o cajado. Três objetos pessoais, retidos até a chegada do pagamento combinado.
No Novo Testamento a palavra aparece três vezes, e as três falam da mesma coisa: 2 Coríntios 1:22, 2 Coríntios 5:5 e Efésios 1:14. Em todas, quem dá é Deus, e o que é dado é o próprio Espírito.
A frase de Efésios é ὅ ἐστιν ἀρραβὼν τῆς κληρονομίας ἡμῶν, que é arrabṓn da nossa herança. O genitivo τῆς κληρονομίας não indica garantia a respeito da herança. Indica de que a herança é feita.
O detalhe pesa mais do que parece. Numa venda, o sinal é dinheiro e o restante do preço também é dinheiro: a parcela é da mesma matéria do total. Aplicada ao versículo, a construção diz que o recebido agora e o esperado depois são a mesma substância, em quantidades diferentes.
Uma linha antes vem o verbo ἐσφραγίσθητε, esphragísthēte, de σφραγίζω, selar. O selo era pressionado na cera ou na argila que fechava a mercadoria e o documento, e marcava duas coisas: de quem é o conteúdo e que ninguém mexeu nele até a entrega.
São dois termos de balcão em sequência, selo e sinal, dentro do mesmo período. A frase não tateia atrás de uma metáfora espiritual. Descreve uma transação com o vocabulário exato de quem redige contrato.
O fecho do versículo mantém a cena. εἰς ἀπολύτρωσιν τῆς περιποιήσεως, para o resgate da possessão adquirida. ἀπολύτρωσις é soltura mediante preço, formada sobre λύτρον, o valor pago pela libertação. περιποίησις é aquilo que foi adquirido e posto de lado como propriedade.
Há uma variante no pronome relativo que abre a frase. Os manuscritos mais antigos trazem ὅ, neutro, concordando com πνεῦμα; parte da tradição traz ὅς, masculino, atraído por ἀρραβών. As duas leituras deixam o Espírito exatamente no mesmo lugar da oração.
A Vulgata escolheu pignus, e o português herdou a escolha em penhor (Vulgata, c. 400). A troca é pequena no som e enorme no efeito: pignus volta para quem entregou, arrabṓn fica para sempre com quem recebeu.
Somando as peças: um empréstimo semita de fiança, um genitivo de matéria, um verbo de selo e um substantivo de resgate. Quatro palavras do mesmo campo, todas do direito das coisas, nenhuma do vocabulário do sentimento.
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