| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Esse versículo aparece em cartões de consolo, em quadros decorativos, em mensagens de bom dia. "Tudo coopera para o bem." Parece uma promessa de que, no final, tudo vai dar certo. De que os problemas são temporários. De que existe um final feliz garantido.
Mas Paulo não escreveu esse versículo em um momento de tranquilidade. E não escreveu para pessoas em situação confortável.
A carta aos Romanos foi escrita por volta de 57 d.C., provavelmente de Corinto. Paulo ainda não tinha visitado Roma. Escrevia para uma comunidade que ele conhecia por reputação e por contatos indiretos. E essa comunidade estava sob pressão real.
Os cristãos em Roma viviam à sombra do Edito de Cláudio de 49 d.C., que havia expulsado os judeus da cidade por causa de distúrbios ligados a "Chrestus", uma referência provável a Cristo. Quando Cláudio morreu em 54 d.C. e os judeus puderam retornar, os cristãos de origem judaica encontraram uma comunidade transformada. Os gentios convertidos tinham assumido a liderança. Havia tensão. Havia divisão. E a qualquer momento, o Estado podia voltar a se mover contra eles.
Menos de uma década depois da carta de Paulo, em 64 d.C., Nero acusaria os cristãos pelo incêndio de Roma. O que se seguiu foram execuções públicas. Cristãos cobertos de piche e transformados em tochas humanas para iluminar os jardins do imperador. Outros jogados às feras no circo.
Paulo não podia prever os detalhes. Mas conhecia o cenário. A perseguição não era hipotética. Era a realidade cotidiana das pessoas para quem escrevia.
E o versículo imediatamente anterior a Romanos 8:28 confirma o contexto. No versículo 26, Paulo fala do Espírito que "intercede por nós com gemidos inexprimíveis". Gemidos. Não canções de vitória. A atmosfera do texto é de sofrimento presente, não de otimismo futuro.
A palavra central do versículo 28 é synergei. No grego, synergeo vem de syn (junto) e ergon (trabalho). Trabalhar junto. Cooperar. Agir em conjunto. A palavra carrega a ideia de múltiplas forças operando na mesma direção, não de uma resolução mágica.
Paulo não disse que todas as coisas são boas. Disse que cooperam para o bem. A diferença é fundamental.
Uma perseguição não é boa. A morte de um amigo não é boa. A injustiça não é boa. Paulo, que foi preso, apedrejado, naufragou três vezes e carregava cicatrizes no corpo, não tinha nenhuma ilusão sobre a natureza do sofrimento. O sofrimento é real. A dor é real. O mal é real.
O que synergei propõe é que essas realidades, dentro do propósito de Deus, podem ser integradas em algo maior. Não eliminadas. Não justificadas. Integradas.
O teólogo N. T. Wright comenta que Romanos 8:28 não é uma promessa de conforto superficial, mas "uma declaração sobre a soberania de Deus operando dentro e através do caos da história humana". O "bem" mencionado no versículo não é bem-estar individual. O versículo seguinte define o que é esse bem: "ser conformados à imagem de seu Filho" (Romanos 8:29). O propósito não é felicidade. É transformação.
Existe outro detalhe que passa despercebido na maioria das leituras. O versículo começa com oidamen, "sabemos". Não "esperamos". Não "acreditamos". Sabemos. Paulo usa o verbo no indicativo, no tempo presente. Para ele, a cooperação de todas as coisas para o bem não era esperança futura. Era convicção presente. Uma convicção sustentada não pela ausência de sofrimento, mas pela presença de Deus no meio dele.
E a construção gramatical traz mais uma camada. Em algumas variantes textuais do manuscrito, o sujeito de synergei não é "todas as coisas". É Deus. "Deus coopera em todas as coisas para o bem." A diferença é sutil mas significativa. Não são as circunstâncias que magicamente se alinham. É Deus que atua dentro das circunstâncias, mesmo as piores, para produzir algo que o sofrimento sozinho jamais produziria.
O uso moderno de Romanos 8:28 frequentemente transforma o versículo em uma espécie de otimismo garantido. "Vai dar tudo certo no final." Mas o contexto original aponta em outra direção.
Paulo escreveu para pessoas que não tinham garantia de que o dia seguinte seria seguro. Pessoas que podiam ser denunciadas, presas, executadas. E para essas pessoas, Paulo não disse "vai passar". Disse "Deus está trabalhando dentro do que você está vivendo".
A diferença prática é enorme. A primeira leitura coloca a resolução no futuro. A segunda coloca a presença de Deus no presente. A primeira exige que o sofrimento faça sentido agora. A segunda permite que o sofrimento permaneça sem sentido aparente e ainda assim sustenta a confiança de que algo está sendo construído.
Quem lê Romanos 8:28 como promessa de conforto espera que o vale termine. Quem lê como Paulo escreveu entende que a travessia do vale é parte do propósito.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Paulo escreveu synergei com correntes à distância. Os leitores receberam a carta com medo à porta. Ninguém ali estava otimista. Ninguém ali achava que tudo ia ficar bem no sentido corriqueiro da expressão.
O que sustentava aquela comunidade não era a expectativa de que o sofrimento acabaria. Era a convicção de que, dentro do sofrimento, algo maior do que o sofrimento estava em movimento.
Todas as coisas cooperam. Não porque são boas. Porque Deus trabalha dentro delas.
P.S.: Na próxima edição: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida." O que significava hodos (caminho) para judeus do primeiro século e por que Jesus usou essa palavra específica na noite antes de morrer.
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