| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Esse versículo é citado em quase toda discussão teológica sobre a divindade de Cristo. A maioria das pessoas o lê como uma declaração doutrinária. E é. Mas antes de ser doutrina, esse versículo foi uma decisão literária calculada. João escolheu uma palavra específica. Essa escolha carregava o peso de seis séculos de filosofia.
A palavra traduzida como "Verbo" no português é logos no grego original.
Para um leitor moderno, "verbo" sugere linguagem, palavra falada, comunicação. Mas para um leitor do primeiro século, logos era uma das palavras mais carregadas de significado em todo o vocabulário grego. Filósofos tinham escrito bibliotecas inteiras sobre ela.
Heráclito de Éfeso, por volta de 500 a.C., foi o primeiro a usar logos como conceito filosófico. Para Heráclito, o logos era o princípio racional que governava o universo. A ordem invisível por trás do caos aparente. O rio muda, as estações mudam, os impérios mudam, mas o logos permanece. A razão subjacente a todas as coisas.
Dois séculos depois, os estoicos expandiram a ideia. Para eles, o logos era a razão divina que permeava toda a matéria. Não um deus pessoal. Uma força racional, impessoal, que dava coerência ao cosmos. Viver bem, para os estoicos, significava viver em harmonia com o logos. Alinhar a razão individual com a razão universal.
Quando João escreveu seu Evangelho, provavelmente em Éfeso, por volta de 90 d.C., ele estava em uma cidade profundamente grega. Os leitores conheciam Heráclito. Conheciam o estoicismo. A palavra logos evocava séculos de reflexão sobre ordem, razão e o princípio fundamental da realidade.
João pegou tudo isso e inverteu.
O logos não era uma força impessoal. O logos era uma pessoa. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). A razão universal dos filósofos gregos não era um conceito abstrato. Tinha nome, tinha rosto, tinha história.
Mas João não estava apenas dialogando com a filosofia grega. Estava construindo uma ponte com o pensamento judaico.
No hebraico, o conceito mais próximo de logos é davar. A palavra de Deus que age. No Gênesis, Deus fala e a criação acontece. "Disse Deus: haja luz. E houve luz." A davar de Deus não é informação. É ação. A palavra não descreve a realidade. A palavra cria a realidade.
João abre seu Evangelho ecoando deliberadamente o Gênesis: "No princípio..." (En arche em grego, Bereshit em hebraico). O mesmo início. A mesma construção. Mas agora, no princípio não era apenas a ação criadora de Deus. No princípio era o logos. A razão, a palavra, a ação, a pessoa.
O teólogo C. K. Barrett descreveu esse versículo como "o ponto de encontro entre o pensamento grego e o pensamento hebraico". João escolheu a única palavra que conseguia falar com os dois mundos ao mesmo tempo. Para o leitor grego, dizia: "aquela razão universal que vocês buscam há séculos tem um rosto". Para o leitor judeu, dizia: "aquela palavra criadora que vocês conhecem desde o Gênesis esteve sempre viva".
Existe outro detalhe gramatical que a maioria das traduções obscurece. No grego, a frase "e o Verbo estava com Deus" usa a preposição pros, que não significa apenas "com" no sentido de proximidade. Pros indica relação face a face. Direção. Orientação. O logos não estava simplesmente ao lado de Deus. Estava voltado para Deus. Em comunhão ativa, face a face.
Essa distinção sutil é a base sobre a qual a teologia trinitária se construiu nos séculos seguintes. Uma pessoa distinta de Deus ("estava com Deus") que ao mesmo tempo era Deus ("era Deus"). A tensão gramatical do versículo reflete a tensão teológica da doutrina.
João escreveu para uma audiência que buscava sentido. Os gregos buscavam na filosofia. Os judeus buscavam na Torá. João olhou para ambos e disse: o sentido que vocês procuram não é um conceito. É uma pessoa.
Existe algo profundamente humano nessa proposta. A razão última do universo, o princípio que sustenta tudo, não é uma equação. Não é um sistema. Não é uma ideia. É alguém que pode ser conhecido, encontrado, tocado. "Habitou entre nós", escreveu João. A palavra grega para "habitar" é skenoo, que literalmente significa "armar tenda". O logos eterno armou tenda na história humana.
A grandeza do versículo não está apenas no que afirma. Está na ousadia de afirmar. João pegou o conceito mais elevado da filosofia grega, o conceito mais sagrado da tradição judaica, e disse: esses dois conceitos são a mesma realidade. E essa realidade é uma pessoa que nasceu, viveu e morreu na Palestina do primeiro século.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Heráclito procurava o logos na natureza. Os estoicos procuravam o logos na razão. Os judeus ouviam a davar de Deus nos rolos da Torá.
João abriu seu Evangelho e disse: ele estava aqui. Desde o princípio. Antes do princípio.
Catorze versículos depois, armou tenda entre nós.
P.S.: Na próxima edição: "Todas as coisas cooperam para o bem." A palavra synergei no grego é o que Paulo realmente quis dizer quando escreveu aos cristãos perseguidos em Roma.
|