| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
O Salmo 23 é provavelmente o texto mais recitado da Bíblia. Funerais, cultos, orações antes de dormir. A maioria das pessoas consegue citar de memória. E justamente por ser tão familiar, quase ninguém para diante dele.
A palavra que as traduções em português trazem como "sombra da morte" vem do hebraico tsalmaveth. Durante séculos, essa palavra foi entendida como uma composição de tsel (sombra) e maveth (morte). Sombra da morte. Parece claro.
Mas a questão linguística é mais complexa do que parece. Estudiosos modernos, a partir de trabalhos como os de Mitchell Dahood, propuseram que tsalmaveth pode ser na verdade uma única raiz intensificada: tsalmut, que significaria "escuridão profunda" ou "trevas densas". Não a sombra da morte literal, mas a experiência de estar em uma escuridão tão completa que a orientação desaparece.
As duas leituras não se excluem. Elas se somam. Davi não estava falando apenas da morte biológica. Estava descrevendo a experiência de caminhar em um lugar onde a luz desaparece. Onde a pessoa não sabe para onde vai. Onde a referência se perde.
E Davi sabia do que estava falando. Não era metáfora literária. Era geografia.
Entre Jerusalém e Jericó existe um desfiladeiro real chamado Wadi Qelt. Um vale estreito, com paredes de rocha de até 300 metros de altura, onde a luz do sol alcança o fundo por apenas algumas horas do dia. Pastores beduínos ainda atravessam esse vale com seus rebanhos. No restante do tempo, o vale fica em sombra densa. A temperatura cai. Predadores se escondem nas fendas das rochas. Serpentes se abrigam nas pedras frias.
Davi cresceu como pastor em Belém, a poucos quilômetros dali. Ele conhecia esses vales. Conhecia a experiência física de guiar ovelhas por um caminho onde a escuridão é real, o perigo é real e a única coisa entre o rebanho e o desastre é a presença atenta do pastor.
Quando Davi escreveu "não temerei mal algum, porque tu estás comigo", ele não estava construindo uma frase bonita para um hino. Estava descrevendo uma confiança que nasceu de noites reais em vales reais, com pedras reais sob os pés e o som de animais predadores ecoando nas paredes de rocha.
A vara e o cajado mencionados no versículo tinham funções específicas. A vara (shevet) era uma arma curta, pesada, usada para afastar predadores. O pastor a usava para golpear lobos e hienas que se aproximavam do rebanho. O cajado (mishenah) era o bastão longo com a ponta curvada, usado para guiar ovelhas, puxando-as gentilmente pelo pescoço quando se desviavam do caminho.
Um instrumento para proteção. Outro para direção. Juntos, eles representam as duas coisas que o Salmo inteiro comunica: Deus protege e Deus guia.
O consolo que Davi menciona não é a ausência do vale. Não é a promessa de que o vale vai desaparecer. O consolo é a presença no meio do vale. A vara que afasta o perigo. O cajado que corrige o rumo. O pastor que caminha junto, não o pastor que espera do outro lado.
Existe uma diferença entre ler "vale da sombra da morte" como metáfora e entender que Davi estava descrevendo um lugar que ele conhecia, um ofício que ele exercia e um perigo que ele enfrentou.
Quando o Salmo 23 é lido no funeral de alguém querido, ele consola. Mas a profundidade original vai além do luto. Davi escreveu sobre todos os vales. Os vales do medo. Os vales da incerteza. Os vales em que a pessoa não enxerga o próximo passo.
A promessa do versículo não é "você não vai passar por vales escuros". A promessa é "quando você passar, não estará sozinho". O pastor não remove o vale. O pastor atravessa o vale junto.
O detalhe que a maioria das leituras modernas perde é o verbo. "Ainda que eu ande." Não "ainda que eu esteja parado". A travessia é ativa. A pessoa continua caminhando. Os pés continuam se movendo. A escuridão não é razão para parar. A presença do pastor é razão para continuar.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Davi não escreveu o Salmo 23 em um escritório. Escreveu com barro nos pés, com cicatrizes de predadores nos braços e com a memória de noites em que a única coisa visível era a escuridão ao redor e a única coisa audível era o som dos próprios passos na rocha.
A sombra era real. O vale era real. O medo era real.
E o pastor estava lá.
P.S.: Na próxima edição: "No princípio era o Verbo." A palavra logos no grego, a filosofia grega que João conhecia e o que o primeiro versículo do Evangelho de João realmente diz.
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