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ED 172

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Eclesiastes 1.2

Vaidade de vaidades, tudo é vaidade

Pessoa soltando o ar numa manhã fria, a nuvem de vapor se desfazendo

O sopro que se vê no ar frio e some

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«Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade.» João Ferreira de Almeida verteu assim Eclesiastes 1.2, texto impresso em 1753, e a frase ainda descreve a semana que escorre entre os dedos de quem trabalhou muito.

Numa manhã fria, solte o ar pela boca. Uma nuvem branca aparece, ganha forma por um segundo e se desfaz antes que dê para apontar. Ninguém consegue guardar aquela nuvem num pote.

O hebraico antigo tinha uma palavra própria para ela. A mesma palavra servia para o vapor da respiração, para a névoa que o sol da manhã dissolve e para tudo o que se enxerga bem e escapa da mão.

O versículo gira em torno dessa nuvem. Em português, a palavra escolhida foi vaidade, que hoje lembra espelho, roupa cara e orgulho. Quem lê hoje entende arrogância onde o autor falava de ar.

O original repete o termo cinco vezes numa frase de sete palavras. Lido devagar, o ritmo fica assim: sopro de sopros, disse o sábio, sopro de sopros, tudo é sopro.

A palavra aparece bem antes, no quarto capítulo de Gênesis, e ali ela batiza gente. O segundo filho de Adão e Eva se chama Hevel (sopro), que as Bíblias em português escrevem Abel.

Abel tem a vida mais curta de Gênesis. Nasce, cuida de ovelhas, oferece a Deus as primeiras crias do rebanho e sai de cena pela mão do irmão Caim, poucos versículos depois. Não diz uma única palavra no texto.

Quem escreveu Eclesiastes conhecia a história dos dois irmãos. Ao abrir o livro com hevel, trouxe junto a lembrança do rapaz que passou pela terra como vapor passa pelo vidro da janela.

O livro usa a palavra 38 vezes em doze capítulos, e cada tradução tentou pegá-la de um jeito. A seção I conta como a nuvem da boca virou vaidade no caminho do hebraico até o português.

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I  A Palavra

A nuvem que virou vaidade

 

Pense na chaleira no fogão. O vapor sobe, embaça o azulejo e some. Dá para ver, dá para sentir no rosto, mas a mão fechada volta vazia.

Eclesiastes 1.2 chama essa experiência de hevel (sopro, vapor, bafo). No hebraico antigo, a palavra descreve o ar que sai da boca e a névoa leve, sem peso e sem duração.

O Salmo 144.4 usa o termo com a mesma imagem: «O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa.» No original, o homem se parece com um sopro.

A expressão havel havalim (sopro de sopros) segue um molde conhecido do hebraico para dizer o grau máximo. O mesmo molde forma Cântico dos Cânticos, o cântico mais alto de todos. Sopro de sopros é o vapor mais fino que existe.

O autor se apresenta como Qohelet (aquele que reúne a assembleia), que as traduções portuguesas chamam de pregador. Os tradutores gregos o chamaram de Ekklesiastés, o orador da assembleia, e daí veio o título Eclesiastes.

A troca para vaidade começou na Septuaginta, a tradução grega feita por judeus de Alexandria entre os séculos 3 e 1 antes de Cristo. Ela escolheu mataiótēs (inutilidade, o que não chega a lugar nenhum).

Jerônimo seguiu a mesma trilha na Vulgata, a Bíblia latina que concluiu por volta de 405: «vanitas vanitatum». Vanitas (vazio, oco) passou ao português como vaidade, e o sentido de orgulho grudou na palavra muito depois.

A troca confunde quem lê hoje. Quem ouve «tudo é vaidade» pensa em gente que se admira demais. Coélet, forma portuguesa de Qohelet, pensava em tudo o que não dura.

Tradutores modernos tentam voltar ao ar. Robert Alter, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, verteu a abertura como «merest breath» (o mais leve dos sopros) no livro The Wisdom Books, de 2010.

Michael V. Fox, da Universidade de Wisconsin, foi por outra trilha. No livro A Time to Tear Down and a Time to Build Up (Tempo de derrubar e tempo de edificar), de 1999, propôs «absurdo»: o que contraria o esperado.

Os exemplos de Fox vêm do próprio livro. O trabalho de uma vida fica para um herdeiro que não suou por ele, em 2.18 e 2.19. O justo recebe o que caberia ao ímpio, em 8.14.

As duas leituras se completam. Hevel é o que passa rápido e também o que escapa ao controle de quem se esforça. Eclesiastes usa as duas faces, às vezes no mesmo capítulo.

Abel reúne as duas. Viveu pouco, e a vida curta não seguiu a lógica de quem fez tudo certo: a oferta dele agradou a Deus em Gênesis 4.4, e a história dele termina no campo quatro versículos adiante.

Hevel não afirma que a vida é inútil. Afirma que ela é vapor: real, visível, quente e impossível de reter. A argumentação inteira de Eclesiastes parte dessa imagem e volta a ela no último capítulo.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

O inventário do vapor

 

Você conhece a sensação de fim de domingo. A semana foi cheia, a agenda andou, e fica difícil lembrar uma cena que valeu. O trabalho passou como bafo no vidro do carro.

Coélet não responde a sensação com fórmula de produtividade. Em Eclesiastes 2.24, ele diz que nada há melhor para o homem do que comer, beber e gozar o bem do seu trabalho, e completa que o prazer também vem da mão de Deus.

A ideia volta em 9.9: «Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da vida da tua vaidade.» No hebraico, os dias são dias de hevel. O conselho é aproveitar o sopro enquanto ele está visível.

Os três passos abaixo levam quinze minutos e pedem papel e caneta.

1. Primeiro passo, cinco minutos. Escreva três momentos das últimas 48 horas que você viu acontecer e já não consegue segurar: uma conversa, uma refeição, um trecho de caminho. Uma linha para cada.

A lista mostra o vapor com nitidez. Nenhum dos três momentos volta, e mesmo assim cada um foi real. Coélet chamaria os três de hevel sem desprezo nenhum.

2. Segundo passo, cinco minutos. Ao lado de cada momento, anote quem estava com você e o que foi dito ou comido. O detalhe concreto é a parte do sopro que a memória consegue guardar.

O livro insiste nos verbos simples. Comer, beber, trabalhar, amar: Eclesiastes repete esses gestos como a resposta possível a uma vida que não se deixa prender.

3. Terceiro passo, cinco minutos. Escolha um dos três momentos e marque a repetição dele nos próximos sete dias, com dia e hora: o almoço com a mesma pessoa, a mesma caminhada, o mesmo telefonema.

Um exemplo do formato: «Quinta, 12h30, almoço com minha mãe». Outro: «Sábado, 7h, caminhada até a praça com meu filho».

O primeiro erro é tentar segurar o vapor. Fotografar tudo, planejar demais, transformar cada encontro em projeto. Coélet lembra, em 1.14, que as obras feitas debaixo do sol são como correr atrás do vento.

O segundo erro é desprezar o vapor por ser curto. A vida de Abel foi breve, e o texto guardou dele justamente a oferta, o gesto que fez com o que tinha nas mãos.

O terceiro erro é guardar a lista na gaveta. O inventário só funciona quando um dos momentos volta para a agenda da semana com hora marcada.

Feito uma vez, o exercício muda a pergunta do fim de domingo. Em vez de medir quanto a semana rendeu, você passa a conferir quais sopros viu, e qual deles vai reaparecer na próxima.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

O irmão que não disse nada

 

Gênesis 4 dá a Caim falas, perguntas, medo, uma cidade e descendentes. A Abel dá apenas um ofício, uma oferta e um nome.

O nome é a única pista que o texto oferece sobre ele. Eva chama o primeiro filho de Caim e explica a escolha em Gênesis 4.1. Para o segundo, o capítulo não traz explicação alguma.

Por que um menino recebeu o nome de sopro? Gênesis não responde, e nenhum documento antigo registra a intenção de Eva. Os comentaristas leem o nome como anúncio da vida curta, mas essa leitura é deles, e não do texto.

Coélet, séculos depois, pega a palavra de Abel e a estende a tudo. Não só a vida curta é sopro: a longa também, a do sábio e a do tolo, como ele escreve em 2.14 a 2.16.

A Carta aos Hebreus, no Novo Testamento, volta ao irmão calado. Em Hebreus 11.4, lê-se que Abel, pela fé, ofereceu sacrifício melhor que o de Caim, «e por ela, depois de morto, ainda fala».

O rapaz chamado sopro, que não pronunciou uma palavra em Gênesis, ganha voz num texto escrito muitos séculos depois. O vapor sumiu, e o gesto dele continuou sendo contado.

Eclesiastes termina onde começou. Em 12.8, depois do retrato da velhice e do pó que volta à terra, Coélet repete: «Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.»

Entre as duas frases cabe o livro inteiro, e cabe também a proposta dele: aceitar que a vida é vapor e, por ser vapor, prestar atenção nela enquanto ela aparece no ar frio.

Abel teve poucos versículos e um gesto que atravessou a Bíblia. A maioria das semanas oferece bem mais tempo que o dele, e raramente um gesto tão claro.

Qual momento desta semana apareceu diante de você e passou sem que você notasse?

Hoje, antes de dormir: escreva uma linha sobre um momento das últimas 24 horas e mande a mesma linha, numa mensagem, para a pessoa que estava nele.

 
 
 
 
 

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